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	<title>Um, nenhum e cem mil</title>
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	<description>um blog de maurício alcântara</description>
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		<title>Cordilheira dos Andes e a dilatação do tempo</title>
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		<pubDate>Thu, 03 May 2012 04:33:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mau Alcântara</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ano passado, depois de uma maratona de um mês visitando dez cidades, dezenove museus e quatro países, percebi que era injusto demais passar tanto tempo no ano pra fazer só uma vez o que eu mais gosto na vida, que é viajar. Decidi que aproveitaria todas as chances de fazer as malas e passar um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ano passado, depois de uma maratona de um mês visitando dez cidades, dezenove museus e quatro países, percebi que era injusto demais passar tanto tempo no ano pra fazer só uma vez o que eu mais gosto na vida, que é viajar. Decidi que aproveitaria todas as chances de fazer as malas e passar um tempo fora, mesmo que esse tempo fosse o de um fim de semana – até porque agora que voltei a estudar, minhas férias têm meses predefinidos e as desse ano já estão programadas, serão totalmente diferentes das demais, e estão sendo preparadas com bastante antecipação.</p>
<p>Nesse contexto, além de conhecer Inhotim no carnaval, nesse ano já tenho passagens reservadas pra finalmente conhecer Brasília e já fiz minha visita anual à capital argentina – viagem em que, além de conhecer um lado totalmente inédito da cidade (sobre o qual escrevo qualquer dia), também tive tempo de reler meu caderno de viagens e ver o que eu venho pensando da vida desde 2009, quando substituí o caderno antigo pelo atual.</p>
<p>De novo a constatação óbvia de que eu preciso me resolver com relação ao que eu faço de meu tempo. Em períodos alternados, pulo de momentos em que faço coisas demais (trabalho, estudos, ensaios, projetos) a momentos em que apenas o trabalho consome meu tempo e vem a angústia de não estar fazendo nada que realmente fizesse sentido para minha vida pessoal, afinal sempre gostei de estar envolvido com muitas coisas. Às vésperas dos 28 anos, aumenta a sensação de desperdício, de perda de tempo, de prioridades erradas.</p>
<p>Foi então que percebi duas questões a serem resolvidas. Uma é com relação à forma como o trabalho consome meu tempo, e a que tipo de trabalho eu quero que consuma esse tempo, afinal “é preciso morrer de alguma coisa”, como escreveu Júlio Cortázar. Grande novidade. A outra questão, inédita, foi a que me deixou mais inquieto, porque vai contra tudo o que eu sempre fiz para aproveitar esse tempo.</p>
<p>Minha concepção de aproveitar (ou “ganhar”) tempo sempre foi a de conseguir fazer o máximo de coisas dentro de frações de tempo que não mudam. Portanto, sempre consegui conciliar ensaios na periferia, trabalho, encontros com amigos, idas ao teatro e ao cinema, estudos, leituras, saídas fotográficas, programas familiares, projetos diversos e vida pessoal em um tempo que eu achava que eu estava dilatando, fazendo render ao máximo.</p>
<p>Eis que então eu percebi que se trata, na verdade, do contrário. Tudo isso comprime meu tempo, não aumenta. Toda cerveja “encaixada”, todo encontro planejado no calendário, toda participação em algum projeto pela metade é uma forma de perder tempo, de dedicar a coisas que, sim, são importantes, um tempo que eu não tenho, que não é adequado, e que depois faz falta para mim. Comecei a perceber o quanto eu preciso de um movimento inverso, de abrir mão de coisas para conseguir respirar, para conseguir dedicar tempo ao descanso, para conseguir dar às atividades que ficam a fração correta para que possa fruir delas.</p>
<p>E é justamente nas viagens, períodos em que eu me distancio de tudo para fazer coisas totalmente diferentes com um tempo próprio que isso fica mais evidente. Tirar um domingo para pedalar 100Km rumo a uma cidade qualquer ajuda a entender a importância do tempo como algo a ser curtido, e não encurtado. Dedicar tempo não ao que se espera dele, mas a janelas de oportunidades que se abrem ao acaso (que não acontece em agendas lotadas) é um exercício que precisa ser praticado em nome de minha sanidade e de um pouco mais de paz de espírito.</p>
<p>É a isso que me refiro sempre que algum amigo em comum vem comentar sobre a viagem do Fabrício – sempre digo que o que eu acho mais inspirador nesse projeto foda não é com relação ao trajeto, nem com relação ao ritmo das pedaladas, nem com relação à distância a ser superada. O que há de mais bonito é a dedicação integral de mais do que dias de folga ou semanas de férias, mas de meses, mais de ano para colocar a vida no eixo. Dinheiro, trabalho, carreira, essas merdas todas no fundo a gente sempre resolve. Mas se pensar só nisso não fica espaço para pensar no que não depende disso.</p>
<p>Então entra a Cordilheira dos Andes nessa história. Nesse fim de semana fiz mais uma viagem dessas curtas, que não queria mais adiar. Com uma promoção de milhas fui conhecer a lindíssima capital chilena. Mais do que isso, estava com uma vontade inexplicável de ir para as montanhas, ver os Andes de perto, ficar um tempo em um lugar sem gente, sem prédio, sem metrô, sem barulho. Colocar a cabeça no lugar em algum cenário de encher os olhos.</p>
<p>No último dia de viagem, o único em que fez sol e não havia nuvens no céu, peguei então um ônibus que me deixaria sozinho no meio do nada e me forçaria a pegar carona, dar mais corda à curiosidade e deslumbramento com a paisagem do que à racionalidade. O que me levou a conhecer gente incrível e a estar no lugar mais bonito onde já estive em toda a minha vida, com toda a austeridade e a beleza brutal de uma das maiores falhas tectônicas do mundo, entre vulcões e quilômetros e mais quilômetros de montanhas cobertas pela neve.</p>
<p>A 1800 metros de altitude, no meio da cordilheira, quase na fronteira com a Argentina, com neve até a canela, ao lado de uma fonte de água quente que saia de dentro das rochas vulcânicas, com a roupa totalmente inadequada para aquele ambiente e sem saber ao certo como eu voltaria a Santiago, eu me vi feliz olhando a paisagem, não pensando na vida e nem no que eu precisaria fazer para sair dali, sem me preocupar com o voo que sairia algumas horas mais tarde e nem com os compromissos que teria no dia seguinte. Não pensava no trabalho, não pensava nos problemas, não pensava no meu pé congelando, não pensava no almoço que não tive para poder chegar cedo ali. Naquela tarde o tempo parou e se dilatou de uma forma que eu não me lembro de nunca na vida ter me sentido tão tranquilo, satisfeito, em paz, sem pressa.</p>
<p>E desde então estou convencido de que, se quero fazer as pazes com o tempo e parar de sofrer com ele, preciso ter essa sensação mais vezes. Porque felicidade é bem por aí.</p>
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		<title>Inhotim</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Feb 2012 01:36:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mau Alcântara</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cem Mil]]></category>

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		<description><![CDATA[A primeira vez que ouvi falar do Instituto Inhotim foi há uns dois anos, quando um amigo francês comentava sobre os museus mais interessantes que ele conhecia, juntamente com o Centre Pompidou e a Tate Modern (ou era o MoMA? &#8211; não me lembro). Fato é que eu achei curioso ver uma instituição brasileira, até [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a title="IMG_6886 by Mau Alcântara, on Flickr" href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6775193710/"><img src="http://farm8.staticflickr.com/7207/6775193710_8a12319a90_z.jpg" alt="IMG_6886" width="640" height="427" /></a></p>
<p><a title="IMG_6875 by Mau Alcântara, on Flickr" href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6775190178/"><img src="http://farm8.staticflickr.com/7062/6775190178_ae0f0b86e1_z.jpg" alt="IMG_6875" width="640" height="427" /></a></p>
<p>A primeira vez que ouvi falar do <strong>Instituto Inhotim</strong> foi há uns dois anos, quando um amigo francês comentava sobre os museus mais interessantes que ele conhecia, juntamente com o Centre Pompidou e a Tate Modern (ou era o MoMA? &#8211; não me lembro). Fato é que eu achei curioso ver uma instituição brasileira, até então desconhecida pra mim, entre alguns dos museus mais fantásticos que já visitei.</p>
<p>A partir de então comecei a prestar mais atenção ao que se falava daquela instituição quase insólita que ficava no município de Brumadinho, a poucos quilômetros de Belo Horizonte. Despertava minha curiosidade (leia-se: desconfiança) o fato de todos os relatos serem praticamente unânimes, carregados de elogios admirados. O último depoimento que ouvi antes de visitar imaginava que &#8220;o paraíso deve ser mais ou menos daquele jeito&#8221;.</p>
<p><a title="IMG_6965 by Mau Alcântara, on Flickr" href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6775212346/"><img src="http://farm8.staticflickr.com/7064/6775212346_a43acbecaa_z.jpg" alt="IMG_6965" width="640" height="427" /></a></p>
<p><a title="IMG_6720 by Mau Alcântara, on Flickr" href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6921261517/"><img src="http://farm8.staticflickr.com/7060/6921261517_63e4a67c73_z.jpg" alt="IMG_6720" width="640" height="427" /></a></p>
<p>Foi com meu grande interesse por arte moderna e contemporânea (sobretudo a segunda), a resolução de conhecer o instituto ainda no começo do ano, a recomendação de amigos para não esquecer de levar traje de banho e a dica de reservar dois dias (e não apenas um) para a visita, que embarquei para Minas Gerais para passar um carnaval bem diferente daquele que fervia nas cidades históricas ali perto.</p>
<p>Era grande a excitação e o entusiasmo para conhecer aquela disneylândia da arte contemporânea (e eu estava animado como uma criança prestes a embarcar para os parques de Orlando) &#8211; assim como também era grande o medo de me decepcionar, tamanhas eram as expectativas. Fato é que voltei tão apaixonado pelo lugar que já estou me programando para voltar e levar meus pais, quando tiverem sido inauguradas as duas novas galerias que devem ser abertas esse ano.</p>
<p><a title="IMG_6950 by Mau Alcântara, on Flickr" href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6921323729/"><img src="http://farm8.staticflickr.com/7059/6921323729_d7ac0398f2_z.jpg" alt="IMG_6950" width="640" height="427" /></a></p>
<p><a title="IMG_6787 by Mau Alcântara, on Flickr" href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6775166004/"><img src="http://farm8.staticflickr.com/7193/6775166004_0f97fb7387_z.jpg" alt="IMG_6787" width="640" height="427" /></a></p>
<p>Inhotim é um imenso e impressionante jardim botânico (inspirado por Burle Marx), salpicado por galerias de arte (todas com uma arquitetura fabulosa) e por esculturas a céu aberto &#8211; de forma que não dá pra dizer que é um museu, está mais para um grande parque de arte contemporânea. As instalações e obras expostas impressionam pela qualidade e pela forma como surpreendentemente se integram com a arquitetura e com a natureza de uma forma harmônica, e ao visitar pode-se sempre contar com os monitores e funcionários sempre sorridentes, atenciosos e bem informados.</p>
<p>A vontade aqui é a de relatar a visita galeria a galeria, obra a obra, sensação por sensação &#8211; mas prefiro deixar a mais profunda recomendação: pegue um fim de semana, vá para Brumadinho e confira pessoalmente. É sério. Eu diria que é um dos lugares mais bonitos que já vi na vida, sem medo de estar exagerando (isso se não for <span style="text-decoration: underline;">o</span> lugar mais bonito). Em vez de relatar a visita, deixo algumas dicas que foram valiosas para meus dois dias de visita:</p>
<ul>
<li>Em um dia até dá pra passar por tudo, mas é corrido demais. Você já foi até lá pra visitar, não é? Então faça direito, sem precisar sair correndo de uma galeria a outra. Curta as obras, assista os filmes, ouça as sessões envolventes de áudio da Janet Cardiff, sente-se na grama e aprecie a paisagem entre uma galeria e outra.</li>
<li>Ao pegar o mapa, vá marcando o que você já viu, porque é muita coisa. Um funcionário me disse que se perder faz parte da fruição do espaço, mas você não vai querer correr o risco de deixar de ver alguma galeria ou obra bacana por desorganização, vai?</li>
<li>Ao dividir a visita em dois dias, pegue um deles para ir até as obras mais distantes (como as galerias Doug Aitken, Matthew Barney e Miguel Rio Branco, assim como as obras do Chris Burden) &#8211; para esse dia, recomendo pagar R$ 10 a mais para ter acesso aos carrinhos de golfe. Para o outro dia, dá pra conferir a pé todas as galerias e obra ao redor dos lagos, sem a necessidade de &#8220;carona&#8221;.</li>
<li>Leve traje de banho, você pode querer entrar em uma das Cosmococas do Hélio Oiticica (dica: eles oferecem toalha e vestiário, só precisa levar um traje adequado mesmo).</li>
</ul>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6775199412/" title="IMG_6912 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm8.staticflickr.com/7060/6775199412_89cd1eb65e_z.jpg" width="640" height="427" alt="IMG_6912"></a></p>
<p><a title="IMG_6915 by Mau Alcântara, on Flickr" href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6921315013/"><img src="http://farm8.staticflickr.com/7185/6921315013_39538fe0e3_z.jpg" alt="IMG_6915" width="640" height="427" /></a></p>
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		<title>Das pessoas que admiro</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Jan 2012 03:20:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mau Alcântara</dc:creator>
				<category><![CDATA[Um]]></category>

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		<description><![CDATA[Faz 10 anos que conheci o Fabrício, na faculdade &#8211; mas foram grandes as chances de termos nos esbarrado antes, porque ambos fizemos os mesmos cursos no ensino médio, durante os mesmos anos, em duas escolas muito específicas, muito semelhantes entre si, muito próximas uma da outra e com vários alunos em comum. Mas calhou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.maucantara.com/blog/wp-content/uploads/2012/01/fabricci.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1876" title="fabricci" src="http://www.maucantara.com/blog/wp-content/uploads/2012/01/fabricci.jpg" alt="" width="600" height="400" /></a></p>
<p>Faz 10 anos que conheci o Fabrício, na faculdade &#8211; mas foram grandes as chances de termos nos esbarrado antes, porque ambos fizemos os mesmos cursos no ensino médio, durante os mesmos anos, em duas escolas muito específicas, muito semelhantes entre si, muito próximas uma da outra e com vários alunos em comum.</p>
<p>Mas calhou da gente se conhecer em 2002, iniciando um curso para o qual ambos teríamos várias ressalvas nos anos seguintes &#8211; e que perduram até hoje. Estudamos juntos por dois anos, mas acabamos ficando amigos depois disso e por interesses muito mais nobres do que aqueles relacionados a um curso de comunicação.</p>
<p>Participamos de dois grupos de teatro (um na faculdade, outro profissional), criamos (com diversos outros amigos) projetos tão diversos como a <a href="http://www.bacante.com.br" target="_blank">Bacante</a> (de crítica teatral) e o <a href="http://www.coletivas.mobi" target="_blank">Coletivas</a> (de empréstimo colaborativo de bicicletas), trabalhamos juntos em 2005 e depois em 2011. Com tantas atividades, vieram muitos amigos em comum, incontáveis cervejas, muitas histórias e momentos legais, muita inspiração e muito aprendizado.</p>
<p>Hoje ele parte pra uma travessia e tanto. Junto com o Affonso, amigo dos tempos do colégio, ficará mais de um ano percorrendo as Américas sobre suas bicicletas. De São Paulo até a região mais austral do continente americano, na Terra do Fogo, e do extremo sul até o extremo norte, no Alasca. Não tenho muitas palavras pra dizer o quão foda é esse projeto. Não apenas pelo roteiro escolhido ou pela decisão de fazê-lo sobre duas rodas, mas principalmente pela coragem de romper com o peso do tempo que se repete (rotina, família, amigos, emprego, etc) para viver uma experiência que não se obtém com um mísero mês de férias, que não se compra com nenhum dinheiro acumulado, e que não se reproduz seguindo um guia de viagem. Uma experiência que não pode ser degustada, tem que ser devorada.</p>
<p>Um projeto que só aumenta a admiração e o orgulho que tenho desse grande amigo que mal parte e já desperta a vontade de encontrá-lo em breve, em algum trecho desse percurso (se tudo der certo, eu e minha bicicleta embarcamos para acompanhá-los em Cuba, mais pro fim do ano). Que os bons ventos acompanhem esses malucos nessa travessia.</p>
<p><strong>Update:</strong> agora é oficial, esse ano começo minha segunda graduação, na USP. E como bem observou o Fabrício, isso significa que, quando ele voltar, mais uma vez seremos colegas de faculdade: eu fazendo ciências sociais, ele filosofia.</p>
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		<title>Uma conquista</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Jan 2012 00:41:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mau Alcântara</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cem Mil]]></category>

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		<description><![CDATA[Dia 26 de dezembro publiquei um post sobre o calvário que é ter que carregar uma bicicleta escadarias acima, por muitos andares, só porque o Metrô não deixa os ciclistas usarem as escadas rolantes. Desde então muita coisa aconteceu e merece ser registrada: Enviei o link do texto para a Ouvidoria do Metrô, que prontamente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dia 26 de dezembro <a href="http://www.maucantara.com/blog/2011/12/26/malhacao-no-metro/">publiquei um post</a> sobre o calvário que é ter que carregar uma bicicleta escadarias acima, por muitos andares, só porque o Metrô não deixa os ciclistas usarem as escadas rolantes. Desde então muita coisa aconteceu e merece ser registrada:</p>
<ul>
<li>Enviei o link do texto para a Ouvidoria do Metrô, que prontamente me respondeu com um e-mail péssimo, inconclusivo e com erros de concordância. Basicamente dizia que bicicleta é um equipamento e que as escadas rolantes eram de uso exclusivo dos usuários.</li>
<li>Sem entender a relação entre uma informação e outra, e ainda na esperança de continuar sendo usuário (uma vez que, inclusive, eu pago passagem quando entro com a bicicleta), fiz uma reclamação via Twitter. Rapidamente responderam pedindo o número do protocolo.</li>
<li>Me ligaram da Ouvidoria, dessa vez pedindo desculpas pelo e-mail anterior, mostrando-se bastante abertos ao diálogo. Dei várias sugestões de possíveis saídas &#8211; como instalação de canaletas, liberação de uma única escada, liberação dos elevadores. A moça disse que me mandaria um e-mail e pediu para que eu respondesse com todas essas sugestões. Ela mandou, eu respondi.</li>
<li>Sabrina Duran, da Época SP, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=SYVAALo5mjg" target="_blank">entrevistou Sérgio Avelleda, presidente do Metrô</a>, que afirmou haver um estudo em andamento e que estaria aberto ao diálogo.</li>
<li>Nesse meio período, a <a href="http://www.cicloliga.org/" target="_blank">Ciclo Liga</a>, agrupamento de coletivos de ciclistas (entre esses o <a href="http://www.cicloliga.org/" target="_blank">Coletivas</a>, projeto do qual faço parte) preparou <a href="http://youtu.be/jyTbF6XOrSA" target="_blank">um vídeo ilustrativo</a> desse cenário, juntamente com uma <a href="http://www.cicloliga.org/projetos/bike-metro/" target="_blank">carta aberta ao presidente do Metrô</a>, trazendo referências, ideias e proposições.</li>
<li>Além de enviar ao assessor do presidente, divulgamos essa carta nas redes e eu enviei também à Ouvidoria. Me ligaram no mesmo dia perguntando se eu topava ir lá pessoalmente bater um papo. A presidência do Metrô também se manifestou abrindo espaço para diálogo pessoalmente.</li>
<li>Anteontem, aniversário de São Paulo, a ViaQuatro, administradora da linha 4 &#8211; Amarela, liberou o uso das escadas rolantes pelos milhares de ciclistas que pegaram suas bicicletas novas em um megaevento promovido anualmente pudessem voltar para casa. Ao que consta, não ocorreram incidentes com as escadas.</li>
<li>Hoje no fim do dia <a href="http://colunas.revistaepocasp.globo.com/nabike/2012/01/27/metro-e-cptm-liberam-uso-parcial-das-escadas-rolantes-pelos-ciclistas-em-regime-de-teste/" target="_blank">chega a notícia</a> de que a partir de sábado que vem, 4/2, Metrô, CPTM e ViaQuatro passarão a permitir o uso de bicicletas nas escadas rolantes nos trechos de subida (que são muito mais do que os de descida). A descida ainda rola no muque.</li>
</ul>
<p>O que aprendemos com essa história?</p>
<ul>
<li>Que com coerência, espírito propositivo e de diálogo, é possível conquistar coisas. Parabéns, Ciclo Liga.</li>
<li>Que há pessoas e entidades dispostas a esse diálogo. Parabéns, Metrô, CPTM e ViaQuatro (e todas as instâncias envolvidas).</li>
<li>Que com vontade política (ou ausência de má-vontade), pequenas atitudes podem beneficiar muitos.</li>
<li>Que há mudanças em que ninguém sai perdendo.</li>
<li>Que quem acha que órgãos públicos a priori são piores ou menos ágeis que órgãos privados pode morder a língua agora.</li>
<li>Que essa articulação civil da Ciclo Liga pode ter tido grande influência sobre essa decisão, mas que não é menos importante do que os esforços de todos os ciclistas que já reclamaram anteriormente pelas vias oficiais ou dos funcionários do Metrô que contribuíram para esse parecer. Parabéns pra essa galera também.</li>
<li>Que é bizarro ver sua própria panturrilha num vídeo.</li>
</ul>
<p>Agora é fazer uso adequado das escadas para que o caráter de teste se torne definitivo. Parabéns e obrigado aos envolvidos!</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Dois documentários para entender São Paulo</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Jan 2012 21:49:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mau Alcântara</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cem Mil]]></category>

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		<description><![CDATA[Feliz ano novo!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><iframe width="560" height="315" src="http://www.youtube.com/embed/Fwh-cZfWNIc" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p><iframe src="http://player.vimeo.com/video/32513151?title=0&amp;byline=0&amp;portrait=0&amp;color=b21111" width="400" height="225" frameborder="0" webkitAllowFullScreen mozallowfullscreen allowFullScreen></iframe></p>
<p>Feliz ano novo!</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Para um ano que já começou (ou mais uma vez sobre o tempo)</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Dec 2011 04:04:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mau Alcântara</dc:creator>
				<category><![CDATA[Um]]></category>

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		<description><![CDATA[Não sou muito de fazer resoluções para o ano novo, porque não sou muito de enxergar o tempo da minha vida dividido em blocos de 360 e tantos dias iniciando no dia primeiro. Acho que o tempo faz mais sentido quando você o enxerga em fases, em blocos de acontecimentos, em etapas da vida. Nesse [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.maucantara.com/blog/wp-content/uploads/2011/12/card2883.jpeg"><img class="alignnone  wp-image-1866" title="card2883" src="http://www.maucantara.com/blog/wp-content/uploads/2011/12/card2883.jpeg" alt="" width="538" height="338" /></a></p>
<p><object id="gsSong1210716420" width="250" height="40" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="wmode" value="window" /><param name="allowScriptAccess" value="always" /><param name="flashvars" value="hostname=cowbell.grooveshark.com&amp;songIDs=12107164&amp;style=metal&amp;p=0" /><param name="src" value="http://grooveshark.com/songWidget.swf" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><embed id="gsSong1210716420" width="250" height="40" type="application/x-shockwave-flash" src="http://grooveshark.com/songWidget.swf" wmode="window" allowScriptAccess="always" flashvars="hostname=cowbell.grooveshark.com&amp;songIDs=12107164&amp;style=metal&amp;p=0" allowscriptaccess="always" /><img src="http://www.maucantara.com/blog/wp-includes/js/tinymce/themes/advanced/img/trans.gif" class="mceItemMedia mceItemFlash" width="250" height="40" data-mce-json="{'video':{},'params':{'wmode':'window','allowScriptAccess':'always','flashvars':'hostname=cowbell.grooveshark.com&amp;songIDs=12107164&amp;style=metal&amp;p=0','src':'http://grooveshark.com/songWidget.swf'},'object_html':'&lt;span&gt;Ora\u00e7\u00e3o ao tempo by &lt;a href=\&quot;http://grooveshark.com/artist/Caetano+Veloso/3894\&quot; title=\&quot;Caetano Veloso\&quot;&gt;Caetano Veloso&lt;/a&gt; on Grooveshark&lt;/span&gt;'}" alt="" /></object></p>
<p>Não sou muito de fazer resoluções para o ano novo, porque não sou muito de enxergar o tempo da minha vida dividido em blocos de 360 e tantos dias iniciando no dia primeiro. Acho que o tempo faz mais sentido quando você o enxerga em fases, em blocos de acontecimentos, em etapas da vida.</p>
<p>Nesse contexto, meu &#8220;ano novo&#8221; começou com a viagem de setembro, em que pude ficar praticamente um mês comigo mesmo, sozinho, caminhando por lugares que me interessavam, dedicando todo o meu tempo a descobrir lugares/pessoas novas e pensar na vida. E tinha muita coisa pra pensar.</p>
<p>Nesse contexto, acabou rolando um balanço não só de um ano, mas de uma etapa da minha vida. Uma etapa bem sem-graça, em que dei uma pausa na loucura que estava sendo minha vida até 2009 e dediquei quase que todo o meu tempo ao trabalho.</p>
<p>Hoje rola uma angústia e um desespero para retomar esse tempo que antes era ocupado com coisas que eram construídas por muitas mãos e que faziam sentido para muita gente &#8211; e quero me dar de volta esse tempo. Mas para isso, é preciso abrir mão de outras coisas, deixar de fazer coisas que me consomem o tempo sem me dar nada em troca.</p>
<p>No fundo, toda a angústia vem do que eu faço ou deixo de fazer do meu tempo. Porque é dele que é composta minha vida, e quando percebo estou com quase 28 anos e passei os últimos 2 em banho-maria. Para voltar a sentir que o tempo está fluindo de uma forma bacana, vai ser preciso fazer alguns sacrifícios. Dedicar mais tempo às coisas que merecem, menos tempo àquilo que não me faz sentir bem ou criativo ou vivo.</p>
<p>E isso implica em escolhas, em tomadas de decisão, em sacrifícios. Porque senão, quem se sacrifica sou eu em nome de coisas, pessoas e projetos que não fazem sentido para mim, apenas me consomem tempo.</p>
<p>Nessa nova etapa, preciso abrir janelas de tempo para que as coisas se arejem. E pra isso, preciso estar bastante consciente do que eu quero pra vida. E preciso ser coerente, justo e honesto comigo mesmo &#8211; senão continuarei na onda de auto-sabotagem em que eu me encontrava nessa fase temporal que eu julgo ter terminado em setembro.</p>
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		<title>Malhação no Metrô</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Dec 2011 02:14:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mau Alcântara</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cem Mil]]></category>

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		<description><![CDATA[Contexto: Natal, família, essa coisa toda. Como em várias outras vezes, ontem fui para a casa dos meus pais de bicicleta (pouco mais de 20Km). Perto da casa deles, tive um problema com a corrente, que rompeu-se. Na impossibilidade de voltar pedalando, hoje trouxe a bicicleta pra casa de metrô &#8211; como faço muitas vezes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/2059021020/" title="Metro by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm3.staticflickr.com/2095/2059021020_0d9e3fe1fc.jpg" width="500" height="333" alt="Metro"></a></p>
<p><strong>Contexto:</strong> Natal, família, essa coisa toda. Como em várias outras vezes, ontem fui para a casa dos meus pais de bicicleta (pouco mais de 20Km). Perto da casa deles, tive um problema com a corrente, que rompeu-se. Na impossibilidade de voltar pedalando, hoje trouxe a bicicleta pra casa de metrô &#8211; como faço muitas vezes quando está tarde, ou estou muito cansado.</p>
<p><strong>Meu trajeto:</strong> meu pai me deixou na estação Artur Alvim (Linha 3 &#8211; Vermelha), e eu moro a 2 quadras da estação Consolação (Linha 2 &#8211; Verde). Para ir do ponto A ao ponto B, tenho de fazer baldeação na estação República e pegar a moderníssima (e privatizadíssima) Linha 4 &#8211; Amarela. Desço na estação Paulista, que é integrada com a estação Consolação, meu destino final.</p>
<p><strong>A questão:</strong> Dos milhões de passageiros que diariamente veem a mensagem de que &#8220;aqui sua bicicleta é bem-vinda&#8221; (ai que lindo!), são poucos os que sentem na pele as restrições impostas pelas regras estabelecidas. Muitas são em função das próprias limitações da nossa frágil rede metroviária. Mas há outras que simplesmente dificultam absurdamente a integração do modal bicicleta + metrô, sem grandes justificativas.</p>
<p>A pior delas sem dúvida é a impossibilidade de trafegar nas escadas rolantes. Isso significa que ciclista tem que subir de escada fixa, tendo de levar a bike NA LOMBA, mesmo havendo formas mais práticas à disposição. Quem pega as cômodas escadas rolantes do metrô todo dia muitas vezes não percebe o perrengue que seria se essas escadas rolantes não existissem. Pois bem, no meu trajeto de hoje contei todos os degraus:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Artur Alvim</strong></p>
<ul>
<li>Subi 10 degraus para ter acesso à rampa</li>
<li>Desci 36 degraus para chegar à plataforma (descida é mais fácil, mas não muito)</li>
</ul>
<p><strong>República</strong></p>
<ul>
<li>Subi 71 degraus pra chegar à Linha Amarela</li>
</ul>
<p><strong>Paulista</strong></p>
<ul>
<li>Subi 23 degraus para sair da plataforma</li>
<li>Subi 19 degraus pra ter acesso à Linha Verde</li>
</ul>
<p><strong>Consolação</strong></p>
<ul>
<li>Subi 63 degruas pra chegar à linha de bloqueios</li>
<li>Subi 48 degraus para chegar à rua</li>
</ul>
<p><span style="color: #ff0000;"><strong> Total: 270 degraus</strong></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para um efeito comparativo, ao chegar em casa contei quantos degraus tem cada andar do prédio onde moro (que tem um pé direito bem alto, por sinal). Cada andar tem 18 degraus. 270/18 = o equivalente a exatos <strong>15 andares com a bicicleta nas costas.</strong></p>
<p>Mas sua bicicleta é de alumínio, é levinha, não é? Sim, ela é de alumínio, mas pesa 16 Kg. Sem contar a bolsa que acoplo no bagageiro, que hoje pesava mais 7Kg. No total, são 23 Kg que mal se sentem quando equilibrados sobre duas rodas, mas que são terríveis quando se tem de tirar essas duas rodas do chão para subir 15 andares de um prédio.</p>
<p>Para uma comparação, 23 Kg é o limite de peso permitido por várias empresas aéreas para a bagagem despachada. Ou seja,<strong>15 andares carregando uma mala grande de viagem quando havia, em todas essas circunstâncias, mais de uma escada rolante à disposição</strong>. Desnecessário dizer que escrevo esse texto com dor nas costas.</p>
<p>O que os ciclistas fazem, hoje, frente a essa situação? Basicamente, ou se sujeitam a essa situação que chega a ser desnecessariamente humilhante, ou dão uma de joão-sem-braço e enfrentam as escadas rolantes, sempre com a iminência de receber uma advertência dos funcionários do metrô. Já ouvi as desculpas mais criativas que vários amigos dão aos seguranças quando eles são abordados.</p>
<p>Queria muito que o Metrô fosse igualmente criativo na busca por soluções. Que podem ser tão simples como abrir mão dessa regra, ou de definir uma escada rolante &#8220;bike friendly&#8221;  em todos os trechos.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Balanço sentimental (e visual) de uma viagem</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Nov 2011 03:08:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mau Alcântara</dc:creator>
				<category><![CDATA[Um]]></category>

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		<description><![CDATA[Vez ou outra me pego olhando para minhas próprias fotos de viagens e pensando nas cidades retratadas, no que eu estava pensando quando notei aquele detalhe ou quando cruzei aquela esquina. Às vezes essas memórias são super ricas, me lembro que música estava tocando no meu fone naquele instante, ou ainda o que eu comi [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vez ou outra me pego olhando para minhas próprias fotos de viagens e pensando nas cidades retratadas, no que eu estava pensando quando notei aquele detalhe ou quando cruzei aquela esquina. Às vezes essas memórias são super ricas, me lembro que música estava tocando no meu fone naquele instante, ou ainda o que eu comi imediatamente antes ou depois de registrar aquele momento.</p>
<p>Mas uma coisa curiosa que esse resgate da memória traz é a relação que se estabeleceu entre o visitante e o local visitado. Há lugares por onde você passa, gosta, registra, mas não relembra com sentimentos maiores do que &#8220;ah, verdade, passei por esse lugar, era lindo&#8221;, mas esses lugares não despertam uma angústia de ver novamente aquele canto tão cedo. Na minha mais recente viagem, foi o que ocorreu na maioria das cidades espanholas por onde passei (Sevilha, Madri, Toledo, Segóvia) e ainda no Porto e Coimbra (embora essas duas já tenham despertado uma simpatia maior pela familiaridade do idioma, dos sotaques, das comidas). É mais ou menos essa mesma sensação que eu sinto com o Rio e Janeiro ou com Montevidéu. São todas cidades que visitaria novamente com gosto, mas não é uma prioridade voltar rápido.</p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6154445338/" title="Sevilha 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6085/6154445338_4661e7c461_z.jpg" width="500" height="333" alt="Sevilha 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6153916425/" title="Sevilha 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6193/6153916425_2b8ae521a0_z.jpg" width="500" height="333" alt="Sevilha 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6168808825/" title="Madri 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6164/6168808825_437cca0324_z.jpg" width="500" height="333" alt="Madri 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6169930131/" title="Madri 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6152/6169930131_205989436d_z.jpg" width="500" height="333" alt="Madri 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6171390408/" title="Segovia 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6152/6171390408_c99f133730_z.jpg" width="500" height="333" alt="Segovia 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6173810412/" title="Toledo 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6151/6173810412_0ae4d81061_z.jpg" width="427" height="640" alt="Toledo 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6228218175/" title="Porto 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6154/6228218175_36c522b3db_z.jpg" width="500" height="333" alt="Porto 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6228196017/" title="Porto 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6093/6228196017_a83b0de81d_z.jpg" width="500" height="333" alt="Porto 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6228159189/" title="Porto 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6052/6228159189_34c5594bd1_z.jpg" width="500" height="333" alt="Porto 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6228327497/" title="Coimbra 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6112/6228327497_55e915173b_z.jpg" width="500" height="333" alt="Coimbra 2011"></a></p>
<p>Há as cidades que te provocam, que fazem você querer voltar, jogam na sua cara que você não viu tudo o que ela tem pra te oferecer: os pormenores, a diversidade, a quantidade maluca de coisas e lugares diferentes a descobrir &#8211; e que como turista você sempre estará em desvantagem, sempre estará aproveitando aquém do que o que a cidade oferece &#8211; e seria necessário ficar ao menos alguns meses para que seja possível sentir que a cidade começa a ser &#8220;domada&#8221;. Era o que eu já sentia com relação a Londres e Berlim, e que na segunda visita Paris também me despertou, assim como Barcelona. Quanto a Nova York, nem se fala. É uma cidade infinita &#8211; na horizontal e na vertical.</p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6125437726/" title="Paris 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6069/6125437726_8955c04a4a_z.jpg" width="427" height="640" alt="Paris 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6124884707/" title="Paris 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6186/6124884707_f4b16d8b99_z.jpg" width="500" height="333" alt="Paris 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6125417030/" title="Paris 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6086/6125417030_6ba0ca5259_z.jpg" width="500" height="333" alt="Paris 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6160684088/" title="Barcelona 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6189/6160684088_2c8d6a001d_z.jpg" width="500" height="333" alt="Barcelona 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6281445359/" title="NY 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6049/6281445359_07627064cc_z.jpg" width="500" height="333" alt="NY 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6281950090/" title="NY 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6102/6281950090_1f71da8b29_z.jpg" width="500" height="333" alt="NY 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6281947378/" title="NY 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6053/6281947378_98208f239a_z.jpg" width="500" height="375" alt="NY 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6281401199/" title="NY 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6044/6281401199_b05af7024b_z.jpg" width="500" height="333" alt="NY 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6281385963/" title="NY 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6222/6281385963_005a30201a.jpg" width="500" height="333" alt="NY 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6281914608/" title="NY 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6103/6281914608_07125cfc16_z.jpg" width="427" height="640" alt="NY 2011"></a></p>
<p>Mas foi Lisboa a cidade que despertou algo que até então eu só havia sentido com relação a Buenos Aires: uma vontade diferente da de visitar ou de passear, mas de ficar, viver, habitar, permanecer na cidade. Estabelecer vínculos, criar raízes, fazer amigos. Há uma beleza indescritível na diferença entre cada bairro, na arquitetura tão familiar, nas nuances da língua. É de uma poesia imensa a decadência da cidade baixa, ou a Alfama que parou no tempo. Não consegui ficar mais do que algumas horas na região moderna da cidade, mas no último dia fiquei uma tarde inteira em um dos inúmeros miradouros &#8211; tomando uma cerveja, observando o movimento da praça, pensando nas pessoas amabilíssimas que eu havia conhecido na noite anterior, olhando o Tejo ao fundo e sentindo com um aperto no coração de quem não queria ir embora.</p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6258891905/" title="Lisboa 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6232/6258891905_248ecd09d7_z.jpg" width="500" height="333" alt="Lisboa 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6259406908/" title="Lisboa 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6177/6259406908_fe437e4561_z.jpg" width="427" height="640" alt="Lisboa 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6258881767/" title="Lisboa 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6237/6258881767_2d51bee8b2_z.jpg" width="500" height="333" alt="Lisboa 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6259403314/" title="Lisboa 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6047/6259403314_9dfda1fb71_z.jpg" width="427" height="640" alt="Lisboa 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6258867161/" title="Lisboa 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6176/6258867161_320eac960e_z.jpg" width="500" height="333" alt="Lisboa 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6258830443/" title="Lisboa 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6092/6258830443_ba3a858c9f_z.jpg" width="427" height="640" alt="Lisboa 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6258820681/" title="Lisboa 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6032/6258820681_9452cd1800_z.jpg" width="500" height="333" alt="Lisboa 2011"></a></p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6259350646/" title="Lisboa 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6166/6259350646_bbd477112d_z.jpg" width="500" height="333" alt="Lisboa 2011"></a></p>
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		<title>Ativismos</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Nov 2011 23:03:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mau Alcântara</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cem Mil]]></category>

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		<description><![CDATA[Update: esse post estava armazenado há 4 meses como draft, rascunho em meu WordPress. Reli e achei uma pena não ter sido publicado, então publico agora. Detalhe engraçado: não me lembro exatamente qual foi a discussão que acarretou esse meu e-mail. Tudo começou com uma discussão sobre gêneros em um grupo de emails de que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color: #ff0000;"><strong>Update:</strong> esse post estava armazenado há 4 meses como <em>draft</em>, rascunho em meu WordPress. Reli e achei uma pena não ter sido publicado, então publico agora. Detalhe engraçado: não me lembro exatamente qual foi a discussão que acarretou esse meu e-mail.</span></p>
<p>Tudo começou com uma discussão sobre gêneros em um grupo de emails de que participo. Comentários que geraram polêmica, reações imediatas e uma longa discussão acerca dos comentários e dessas consequentes reações. Uma prosa que iniciou-se inflamada com argumentos de igualdade de gêneros e de anti-sexismo, e que migrou para um contexto mais amplo.</p>
<p>Acho que essa introdução dá conta de esclarecer o ponto de partida para esse post. Não entrarei em mais detalhes porque não vou expor pessoas ou discussões que ocorrem em um âmbito (de certa forma) privado. O que quero expor aqui foi um texto que postei no meio desse furdunço, pois gostaria de ouvir as opiniões de gente que não faz parte do círculo a quem foi destinado originalmente esse e-mail que aqui transcrevo:</p>
<blockquote><p>Sabem do que eu mais gosto na bicicletada? A diversidade a que ela se propõe. Por mais que a lista reflita um pouco menos essa diversidade do que o evento das sextas-feiras em si, é uma diversidade que me interessa sobretudo porque se engaja em prol de uma causa com a qual eu me identifico. Gosto da definição da “coincidência organizada”, que é o que define a massa crítica em sua forma. Mas do ponto de vista das idéias, mais do que uma coincidência, acaba rolando também uma convergência de pensamentos que apontam para uma mesma direção, para muito além da causa da bicicleta.</p>
<p>Essa discussão de gêneros reflete isso. Porque a luta por uma cidade com mais respeito e espaço às bicicletas é reflexo de um modelo econômico e político opressor pra caralho, e que não oprime apenas os ciclistas. Oprimem tudo o que vai contra essa hegemonia que transcende as dimensões sociais, políticas e econômicas. E contra essa opressão, surgem os mais diversos movimentos contra-hegemônicos que, apesar de fragmentados em causas diferentes (bicicletas, feminismo, movimento negro, diversidade sexual, habitação, direito à terra, meio ambiente, proteção animal, vegetarianismo, legalização das drogas, direitos humanos, software livre, transparência política), todos lutam por uma sociedade mais justa e humana. Por isso foi tão linda a Marcha pela Liberdade que rolou há pouco na Paulista, porque não era um movimento de partidos políticos, não era um encontro de gente que lutava por uma única causa isolada, mas um monte de movimentos que se juntaram autonomamente para unir vozes numa mesma direção. E a bicicletada estava lá, claro, e foi emocionante pra caralho descer a Consolação de bike, furando o cordão de isolamento que a polícia havia estabelecido, com os gritos de aprovação da galera que estava concentrada pra dentro do cercadinho militar.</p>
<p>Uma vez uma amiga comentava sobre pessoas que não se conhecem por acaso. É raro você ficar amigo de alguém porque passou pela pessoa na rua e disse “oi, gostei de você, quer ser meu amigo?”. Mas é mais fácil se aproximar de alguém que tem alguma crença, algum gosto, alguma característica em comum. Não à toa, quando comecei a classificar amigos nos círculos do Google+, percebi que tem vários que estão em vários círculos diferentes ao mesmo tempo, e que nenhum deles eu conheci aleatoriamente. Também não foi à toa que a bicicletada já rendeu amizades incríveis (inclusive gente que não mora no Brasil, e que só nos esbarramos graças à bicicleta).</p>
<p>O que quero dizer é que essa lista traz mais do que apenas contatos de gente interessada em pedalar pela cidade. Enxergo a bicicletada como um ponto de encontro pra pessoas que usam (conscientemente ou não) a bicicleta como sua principal arma de luta política. Leve, elegante, divertida, não-poluente, simpática, fluída, que pode ser usada para lazer – mas não deixa de ser uma arma poderosa. E esse é o denominador comum dessa nossa livre associação de indivíduos chamada de bicicletada. Mas serve de ponto de partida para encontrar, nesse mesmo meio, muita gente que projeta para outros âmbitos esse mesmo espírito livre e de igualdade que esperamos nas nossas ruas.</p>
<p>Por isso acho tão fundamental que essa discussão ocorra. Não como forma de repressão ao pensamento X ou Y, mas como forma de debate, de discussão de idéias. Assim como curto quando vejo discussões que fujam do tema “bicicleta”, acho importante quando há a insistência em debater SIM um assunto ou outro, ainda que sempre haja alegações de fugir do tema, os “zzzzzz”, os “foda-se” e os “caguei”. Discute-se tanta coisa de tão menos importância por aqui, acho fundamental que também destine-se tempo e energia para discutir assuntos como esse, e fico feliz quando acontece. (&#8230;)</p>
<p>Enfim, enquanto nessa lista houver espaço e disposição para prolongar, sim, debates como esse, com argumentações, exposições de pontos de vista, dá gosto de continuar acompanhando a prosa. A partir do momento em que o assunto se pasteurizar só no “menos carros, mais bicicletas”, sem agregar nada além disso, será o momento de cair fora dessa lista&#8230; talvez encontrando eventualmente as pessoas legais que essa lista me permitiu conhecer.</p></blockquote>
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		<title>Cortázar e as bicicletas</title>
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		<pubDate>Tue, 18 Oct 2011 18:28:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mau Alcântara</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cem Mil]]></category>

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		<description><![CDATA[Vietato Introdurre Biciclette Nos bancos e nas casas de comércio deste mundo ninguém se incomoda a mínima que alguém entre com um repolho debaixo do braço, ou com um tucano, ou soltando da boca como um barbantinho as canções que minha mãe ensinou, ou trazendo pela mão um chipanzé com uma camiseta listrada. Mas basta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.flickr.com/photos/maucantara/6117909058/" title="Paris 2011 by Mau Alcântara, on Flickr"><img src="http://farm7.static.flickr.com/6069/6117909058_ef6ff556dd.jpg" width="500" height="333" alt="Paris 2011"></a></p>
<blockquote><p><strong>Vietato Introdurre Biciclette</strong></p>
<p>Nos bancos e nas casas de comércio deste mundo ninguém se incomoda a mínima que alguém entre com um repolho debaixo do braço, ou com um tucano, ou soltando da boca como um barbantinho as canções que minha mãe ensinou, ou trazendo pela mão um chipanzé com uma camiseta listrada. Mas basta uma pessoa entrar com uma bicicleta para que seja expulso com violência para a rua enquanto o proprietário recebe advertências violentas dos empregados da casa. </p>
<p>Para uma bicicleta, ser dócil e de comportamento modesto, constitui uma humilhação e um escárnio a presença de cartazes que a fazem parar, altivos, diante das belas portas de vidro da cidade. Sabe-se que as bicicletas procuram por todos os meios modificar sua triste condição social. Mas absolutamente em todos os países da terra <em>é proibido entrar com bicicletas</em>. Alguns acrescentam: &#8220;e cachorros&#8221;, o que duplica nas bicicletas e nos cães seu complexo de inferioridade. Um gato, uma lebre, uma tartaruga podem em princípio entrar na casa Bunge &#038; Born ou nos escritórios dos advogados da Rua San Martín sem provocar mais do que uma surpresa, grande deslumbramento entre telefonistas ansiosas, ou no máximo uma ordem ao porteiro para que ponha na rua os mencionados animais. Isto pode acontecer mas não é humilhante, primeiro porque só representa uma probabilidade entre muitas, e depois porque nasce como efeito de uma causa e não de uma fria maquinação preestabelecida, horrendamente impressa em chapas de bronze ou de esmalte, tábuas de lei inexorável que esmagam a simples espontaneidade das bicicletas, criaturas inocentes. </p>
<p>De qualquer maneira, cuidado, gerentes! Também as rosas são ingênuas e doces, mas talvez vocês saibam que numa guerra de duas rosas morreram príncipes que eram como raios negros, cegados por pétalas de sangue. Não vá acontecer que as bicicletas amanheçam um dia cobertas de espinhos, que as hastes de seus guidões cresçam e ataquem, que encouraçadas de furor elas arremetam em legião contra as vitrines das companhias de seguros e que o dia aziago se encerre com uma baixa geral de ações, com um luto de vinte e quatro horas, com pêsames mandados em cartões. </p></blockquote>
<p><em>Júlio Cortázar, História de Cronópios e de Famas</em></p>
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