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Cordilheira dos Andes e a dilatação do tempo

May 3rd, 2012

Ano passado, depois de uma maratona de um mês visitando dez cidades, dezenove museus e quatro países, percebi que era injusto demais passar tanto tempo no ano pra fazer só uma vez o que eu mais gosto na vida, que é viajar. Decidi que aproveitaria todas as chances de fazer as malas e passar um tempo fora, mesmo que esse tempo fosse o de um fim de semana – até porque agora que voltei a estudar, minhas férias têm meses predefinidos e as desse ano já estão programadas, serão totalmente diferentes das demais, e estão sendo preparadas com bastante antecipação.

Nesse contexto, além de conhecer Inhotim no carnaval, nesse ano já tenho passagens reservadas pra finalmente conhecer Brasília e já fiz minha visita anual à capital argentina – viagem em que, além de conhecer um lado totalmente inédito da cidade (sobre o qual escrevo qualquer dia), também tive tempo de reler meu caderno de viagens e ver o que eu venho pensando da vida desde 2009, quando substituí o caderno antigo pelo atual.

De novo a constatação óbvia de que eu preciso me resolver com relação ao que eu faço de meu tempo. Em períodos alternados, pulo de momentos em que faço coisas demais (trabalho, estudos, ensaios, projetos) a momentos em que apenas o trabalho consome meu tempo e vem a angústia de não estar fazendo nada que realmente fizesse sentido para minha vida pessoal, afinal sempre gostei de estar envolvido com muitas coisas. Às vésperas dos 28 anos, aumenta a sensação de desperdício, de perda de tempo, de prioridades erradas.

Foi então que percebi duas questões a serem resolvidas. Uma é com relação à forma como o trabalho consome meu tempo, e a que tipo de trabalho eu quero que consuma esse tempo, afinal “é preciso morrer de alguma coisa”, como escreveu Júlio Cortázar. Grande novidade. A outra questão, inédita, foi a que me deixou mais inquieto, porque vai contra tudo o que eu sempre fiz para aproveitar esse tempo.

Minha concepção de aproveitar (ou “ganhar”) tempo sempre foi a de conseguir fazer o máximo de coisas dentro de frações de tempo que não mudam. Portanto, sempre consegui conciliar ensaios na periferia, trabalho, encontros com amigos, idas ao teatro e ao cinema, estudos, leituras, saídas fotográficas, programas familiares, projetos diversos e vida pessoal em um tempo que eu achava que eu estava dilatando, fazendo render ao máximo.

Eis que então eu percebi que se trata, na verdade, do contrário. Tudo isso comprime meu tempo, não aumenta. Toda cerveja “encaixada”, todo encontro planejado no calendário, toda participação em algum projeto pela metade é uma forma de perder tempo, de dedicar a coisas que, sim, são importantes, um tempo que eu não tenho, que não é adequado, e que depois faz falta para mim. Comecei a perceber o quanto eu preciso de um movimento inverso, de abrir mão de coisas para conseguir respirar, para conseguir dedicar tempo ao descanso, para conseguir dar às atividades que ficam a fração correta para que possa fruir delas.

E é justamente nas viagens, períodos em que eu me distancio de tudo para fazer coisas totalmente diferentes com um tempo próprio que isso fica mais evidente. Tirar um domingo para pedalar 100Km rumo a uma cidade qualquer ajuda a entender a importância do tempo como algo a ser curtido, e não encurtado. Dedicar tempo não ao que se espera dele, mas a janelas de oportunidades que se abrem ao acaso (que não acontece em agendas lotadas) é um exercício que precisa ser praticado em nome de minha sanidade e de um pouco mais de paz de espírito.

É a isso que me refiro sempre que algum amigo em comum vem comentar sobre a viagem do Fabrício – sempre digo que o que eu acho mais inspirador nesse projeto foda não é com relação ao trajeto, nem com relação ao ritmo das pedaladas, nem com relação à distância a ser superada. O que há de mais bonito é a dedicação integral de mais do que dias de folga ou semanas de férias, mas de meses, mais de ano para colocar a vida no eixo. Dinheiro, trabalho, carreira, essas merdas todas no fundo a gente sempre resolve. Mas se pensar só nisso não fica espaço para pensar no que não depende disso.

Então entra a Cordilheira dos Andes nessa história. Nesse fim de semana fiz mais uma viagem dessas curtas, que não queria mais adiar. Com uma promoção de milhas fui conhecer a lindíssima capital chilena. Mais do que isso, estava com uma vontade inexplicável de ir para as montanhas, ver os Andes de perto, ficar um tempo em um lugar sem gente, sem prédio, sem metrô, sem barulho. Colocar a cabeça no lugar em algum cenário de encher os olhos.

No último dia de viagem, o único em que fez sol e não havia nuvens no céu, peguei então um ônibus que me deixaria sozinho no meio do nada e me forçaria a pegar carona, dar mais corda à curiosidade e deslumbramento com a paisagem do que à racionalidade. O que me levou a conhecer gente incrível e a estar no lugar mais bonito onde já estive em toda a minha vida, com toda a austeridade e a beleza brutal de uma das maiores falhas tectônicas do mundo, entre vulcões e quilômetros e mais quilômetros de montanhas cobertas pela neve.

A 1800 metros de altitude, no meio da cordilheira, quase na fronteira com a Argentina, com neve até a canela, ao lado de uma fonte de água quente que saia de dentro das rochas vulcânicas, com a roupa totalmente inadequada para aquele ambiente e sem saber ao certo como eu voltaria a Santiago, eu me vi feliz olhando a paisagem, não pensando na vida e nem no que eu precisaria fazer para sair dali, sem me preocupar com o voo que sairia algumas horas mais tarde e nem com os compromissos que teria no dia seguinte. Não pensava no trabalho, não pensava nos problemas, não pensava no meu pé congelando, não pensava no almoço que não tive para poder chegar cedo ali. Naquela tarde o tempo parou e se dilatou de uma forma que eu não me lembro de nunca na vida ter me sentido tão tranquilo, satisfeito, em paz, sem pressa.

E desde então estou convencido de que, se quero fazer as pazes com o tempo e parar de sofrer com ele, preciso ter essa sensação mais vezes. Porque felicidade é bem por aí.

Das pessoas que admiro

January 29th, 2012

Faz 10 anos que conheci o Fabrício, na faculdade – mas foram grandes as chances de termos nos esbarrado antes, porque ambos fizemos os mesmos cursos no ensino médio, durante os mesmos anos, em duas escolas muito específicas, muito semelhantes entre si, muito próximas uma da outra e com vários alunos em comum.

Mas calhou da gente se conhecer em 2002, iniciando um curso para o qual ambos teríamos várias ressalvas nos anos seguintes – e que perduram até hoje. Estudamos juntos por dois anos, mas acabamos ficando amigos depois disso e por interesses muito mais nobres do que aqueles relacionados a um curso de comunicação.

Participamos de dois grupos de teatro (um na faculdade, outro profissional), criamos (com diversos outros amigos) projetos tão diversos como a Bacante (de crítica teatral) e o Coletivas (de empréstimo colaborativo de bicicletas), trabalhamos juntos em 2005 e depois em 2011. Com tantas atividades, vieram muitos amigos em comum, incontáveis cervejas, muitas histórias e momentos legais, muita inspiração e muito aprendizado.

Hoje ele parte pra uma travessia e tanto. Junto com o Affonso, amigo dos tempos do colégio, ficará mais de um ano percorrendo as Américas sobre suas bicicletas. De São Paulo até a região mais austral do continente americano, na Terra do Fogo, e do extremo sul até o extremo norte, no Alasca. Não tenho muitas palavras pra dizer o quão foda é esse projeto. Não apenas pelo roteiro escolhido ou pela decisão de fazê-lo sobre duas rodas, mas principalmente pela coragem de romper com o peso do tempo que se repete (rotina, família, amigos, emprego, etc) para viver uma experiência que não se obtém com um mísero mês de férias, que não se compra com nenhum dinheiro acumulado, e que não se reproduz seguindo um guia de viagem. Uma experiência que não pode ser degustada, tem que ser devorada.

Um projeto que só aumenta a admiração e o orgulho que tenho desse grande amigo que mal parte e já desperta a vontade de encontrá-lo em breve, em algum trecho desse percurso (se tudo der certo, eu e minha bicicleta embarcamos para acompanhá-los em Cuba, mais pro fim do ano). Que os bons ventos acompanhem esses malucos nessa travessia.

Update: agora é oficial, esse ano começo minha segunda graduação, na USP. E como bem observou o Fabrício, isso significa que, quando ele voltar, mais uma vez seremos colegas de faculdade: eu fazendo ciências sociais, ele filosofia.

Para um ano que já começou (ou mais uma vez sobre o tempo)

December 30th, 2011

Não sou muito de fazer resoluções para o ano novo, porque não sou muito de enxergar o tempo da minha vida dividido em blocos de 360 e tantos dias iniciando no dia primeiro. Acho que o tempo faz mais sentido quando você o enxerga em fases, em blocos de acontecimentos, em etapas da vida.

Nesse contexto, meu “ano novo” começou com a viagem de setembro, em que pude ficar praticamente um mês comigo mesmo, sozinho, caminhando por lugares que me interessavam, dedicando todo o meu tempo a descobrir lugares/pessoas novas e pensar na vida. E tinha muita coisa pra pensar.

Nesse contexto, acabou rolando um balanço não só de um ano, mas de uma etapa da minha vida. Uma etapa bem sem-graça, em que dei uma pausa na loucura que estava sendo minha vida até 2009 e dediquei quase que todo o meu tempo ao trabalho.

Hoje rola uma angústia e um desespero para retomar esse tempo que antes era ocupado com coisas que eram construídas por muitas mãos e que faziam sentido para muita gente – e quero me dar de volta esse tempo. Mas para isso, é preciso abrir mão de outras coisas, deixar de fazer coisas que me consomem o tempo sem me dar nada em troca.

No fundo, toda a angústia vem do que eu faço ou deixo de fazer do meu tempo. Porque é dele que é composta minha vida, e quando percebo estou com quase 28 anos e passei os últimos 2 em banho-maria. Para voltar a sentir que o tempo está fluindo de uma forma bacana, vai ser preciso fazer alguns sacrifícios. Dedicar mais tempo às coisas que merecem, menos tempo àquilo que não me faz sentir bem ou criativo ou vivo.

E isso implica em escolhas, em tomadas de decisão, em sacrifícios. Porque senão, quem se sacrifica sou eu em nome de coisas, pessoas e projetos que não fazem sentido para mim, apenas me consomem tempo.

Nessa nova etapa, preciso abrir janelas de tempo para que as coisas se arejem. E pra isso, preciso estar bastante consciente do que eu quero pra vida. E preciso ser coerente, justo e honesto comigo mesmo – senão continuarei na onda de auto-sabotagem em que eu me encontrava nessa fase temporal que eu julgo ter terminado em setembro.

Balanço sentimental (e visual) de uma viagem

November 16th, 2011

Vez ou outra me pego olhando para minhas próprias fotos de viagens e pensando nas cidades retratadas, no que eu estava pensando quando notei aquele detalhe ou quando cruzei aquela esquina. Às vezes essas memórias são super ricas, me lembro que música estava tocando no meu fone naquele instante, ou ainda o que eu comi imediatamente antes ou depois de registrar aquele momento.

Mas uma coisa curiosa que esse resgate da memória traz é a relação que se estabeleceu entre o visitante e o local visitado. Há lugares por onde você passa, gosta, registra, mas não relembra com sentimentos maiores do que “ah, verdade, passei por esse lugar, era lindo”, mas esses lugares não despertam uma angústia de ver novamente aquele canto tão cedo. Na minha mais recente viagem, foi o que ocorreu na maioria das cidades espanholas por onde passei (Sevilha, Madri, Toledo, Segóvia) e ainda no Porto e Coimbra (embora essas duas já tenham despertado uma simpatia maior pela familiaridade do idioma, dos sotaques, das comidas). É mais ou menos essa mesma sensação que eu sinto com o Rio e Janeiro ou com Montevidéu. São todas cidades que visitaria novamente com gosto, mas não é uma prioridade voltar rápido.

Sevilha 2011

Sevilha 2011

Madri 2011

Madri 2011

Segovia 2011

Toledo 2011

Porto 2011

Porto 2011

Porto 2011

Coimbra 2011

Há as cidades que te provocam, que fazem você querer voltar, jogam na sua cara que você não viu tudo o que ela tem pra te oferecer: os pormenores, a diversidade, a quantidade maluca de coisas e lugares diferentes a descobrir – e que como turista você sempre estará em desvantagem, sempre estará aproveitando aquém do que o que a cidade oferece – e seria necessário ficar ao menos alguns meses para que seja possível sentir que a cidade começa a ser “domada”. Era o que eu já sentia com relação a Londres e Berlim, e que na segunda visita Paris também me despertou, assim como Barcelona. Quanto a Nova York, nem se fala. É uma cidade infinita – na horizontal e na vertical.

Paris 2011

Paris 2011

Paris 2011

Barcelona 2011

NY 2011

NY 2011

NY 2011

NY 2011

NY 2011

NY 2011

Mas foi Lisboa a cidade que despertou algo que até então eu só havia sentido com relação a Buenos Aires: uma vontade diferente da de visitar ou de passear, mas de ficar, viver, habitar, permanecer na cidade. Estabelecer vínculos, criar raízes, fazer amigos. Há uma beleza indescritível na diferença entre cada bairro, na arquitetura tão familiar, nas nuances da língua. É de uma poesia imensa a decadência da cidade baixa, ou a Alfama que parou no tempo. Não consegui ficar mais do que algumas horas na região moderna da cidade, mas no último dia fiquei uma tarde inteira em um dos inúmeros miradouros – tomando uma cerveja, observando o movimento da praça, pensando nas pessoas amabilíssimas que eu havia conhecido na noite anterior, olhando o Tejo ao fundo e sentindo com um aperto no coração de quem não queria ir embora.

Lisboa 2011

Lisboa 2011

Lisboa 2011

Lisboa 2011

Lisboa 2011

Lisboa 2011

Lisboa 2011

Lisboa 2011

Balanço de mais um ano completado

June 30th, 2011

Mais um post estritamente pessoal. No fundo, pra variar, uma análise sobre um recorte no tempo.

Há pouco mais de um ano comecei, sem perceber, a abandonar algumas das coisas que faziam (e ainda fazem) muito sentido para mim. Primeiro fui parando de escrever sobre teatro, fazendo isso apenas esporadicamente, quando convinha. Foi mais ou menos na época em que eu também parei de fazer teatro. A fotografia também foi uma coisa que foi, aos poucos perdendo espaço no meu dia a dia, e as experiências com design já faz um bom tempo que não pratico, com nada. Desde que mudei para a frente do cinema, foram pouquíssimas as vezes que atravessei a rua e entrei no estabelecimento com intuito diferente de sacar dinheiro no caixa eletrônico que tem lá dentro. Os estudos sobre sociologia e urbanismo continuaram, ainda que bastante rarefeitos, dividindo um pouco de espaço com um pouquinho de literatura latina e arte em geral – mas não o suficiente para evitar a frustração intelectual por boa parte desse período. Não consegui iniciar a segunda graduação que pretendia, postergando o projeto para uma nova tentativa esse ano. No entanto, avancei um bocado com meu quarto idioma, com a certeza de que esse tem sido o aprendizado mais eficiente e prazeroso dentre todos os outros. Teatro eu continuo vendo muito, mas sem mais a dedicação de fazê-lo como crítico ou fotógrafo e com critérios muito mais seletivos na escolha da programação. Assisti a peças que mudaram meu referencial do bom teatro que me interessa. Poucas boas porém curtas viagens, sem muito dinheiro livre para prolongá-las em tempo ou distância. Bicicleta, parceira inseparável, assumida como transporte primário e revela-se uma incrível e inesperada ferramenta de resistência política. Tudo isso num momento em que acabo me afastando mais de meus amigos, dedicando muito p0uco do meu tempo à minha vida social e muito desse tempo à introspecção. Bom para garantir um pouco de distanciamento crítico para analisar minha vida até então, ruim por deixar tudo um tanto mais melancólico e solitário. Muita coisa se relativiza nesse período, muitos valores e conceitos são revistos, alguns minimizados, outros radicalmente potencializados.

E inicio mais um ano com vontade de retomar muita coisa, de iniciar muita coisa. Revisando o equipamento fotográfico, rabiscando ideias que ainda não estão prontas para se transformar em nada concreto, articulando outras ideias num recém-iniciado projeto que tem grandes chances de me orgulhar muito de ter participado de sua criação coletiva. Montando e customizando pacientemente minha terceira bicicleta. Preparativos para iniciar uma vida acadêmica de verdade, preparativos para uma grande viagem logo mais. Reconstrução das prioridades, dos limites e dos espaços no meu tempo – afinal é dele que se compõe todo o resto. Ansioso pra voltar a não ter tempo para nada, de tanta coisa legal que resulta do que eu faço com meu tempo.

Buenos Aires

December 26th, 2010

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Como muitos amigos vivem pedindo sugestões do que fazer em Buenos Aires, e toda vez tenho de vasculhar meus e-mails em busca das dicas que já dei a outros amigos, decidi organizar tudo num post pra facilitar a vida de todos, principalmente a minha toda vez que me pedem esse material.

Claro que essa lista é bastante pessoal e tem um viés bastante turístico, afinal todas as vezes que fui pra lá não tinha nenhum outro objetivo que não fosse passear pela cidade. No entanto, como conheço muita gente que foi pra lá num esquema city-tour e detestou a cidade, resolvi juntar num documento só os motivos pelos quais gosto tanto de lá. Afinal, Buenos Aires é mais uma cidade “slow travel” do que uma cidade “city-tour” – na verdade, acho que qualquer cidade no mundo é assim, mas enfim.

Antes de qualquer coisa, respondo definitivamente à pergunta que sempre ouço: por que diabos eu gosto tanto daquela cidade? Afinal, com tanto lugar pra conhecer no mundo, acabo dando um jeito de sempre passar pelo menos uma semaninha por ano na capital portenha, e só de revisar essas dicas todas já dá vontade de pesquisar preços de passagens pra ir pra lá novamente.

Update em 25/2/11: Ops! Fui pra lá de novo, num bate-volta de fim de semana. Os comentários em vermelho são um update do post original. Há novas fotos ao longo do post também.

Sunset

Pois bem, a maioria dos amigos sabe o quanto eu gosto de urbanismo, de observar a forma como as cidades se auto-organizam e a forma como as pessoas lidam com o espaço público – e Buenos Aires tem uma pulsação especial nesse sentido, de uma cidade que preserva sua identidade cultural e histórica e que, ao mesmo tempo, cada vez parece mais plural e moderna (nesse aspecto, a impressão que me dá com relação a São Paulo é que a prefeitura – sobretudo as últimas gestões – está louca para desligar os aparelhos deixar a cidade em coma).

Uma boa definição de Buenos Aires é a descrita por Thiago Benicchio:

(…)

Buenos Aires é uma cidade de arquitetura racional. Prédios de poucos andares cuja fachada dá direto para a rua, quase todos com varandas, quase nenhum com quadras, piscinas, playgrounds ou bosques particulares que desperdiçam o espaço urbano e espalham a cidade.

Nas ruas largas, as calçadas também são espaçosas e geralmente tem cinco metros de largura ou mais. A capital argentina tem centenas de praças e parques, cheios de bancos, gramados, áreas verdes, monumentos e brinquedos para crianças.

Taxis baratos (e velhos) circulam por toda a cidade, que foi também a primeira da América do Sul a construir uma linha de metrô.

Em uma recente viagem ao Chile, fiquei impressionado com a quantidade e com a qualidade dos espaços públicos de Santiago: todos bem cuidados e cheios de gente.

O chileno Claudio, do Arriba e’la Chancha, ficou surpreso com a minha admiração e retrucou: “Você está enganado: aqui as classes altas estão se encastelando em condomínios fechados, fugindo do centro, criando distâncias e abandonando a cidade, estabelecendo um clima de segregação e medo. Espaços públicos abundantes, bem cuidados e cheios de gente você vai encontrar em Buenos Aires”.

(…)

Calle

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À primeira vista, ali tem muita coisa que costuma nos deslumbrar quando vamos a cidades “desenvolvidas” (organizada, bonita, arborizada, com um enorme senso de preservação de seus edifícios e sua história, praças enormes com gramados, restaurantes, cafés, sorveterias e bares todos com mesas nas calçadas, etc). Ao mesmo tempo e contraditoriamente, os problemas sociais e econômicos do país o tempo todo aparecem para nos lembrar que estamos em um país de terceiro mundo sim, senhor. Para mim esse contraste, além de sufocar qualquer deslumbramento, ajuda a lembrar que uma cidade grande e caótica de terceiro mundo pode, sim, ser muito mais humana do que a São Paulo que conhecemos.

Mas então, o que fazer por lá?

Se você for o estilo turistão (daqueles que pulam de ponto turístico em ponto turístico sem saber sequer o nome do bairro onde cada um fica), bom, melhor procurar um guia ou um pacote de agência de viagem, não sei se conseguirei ajudar muito, não tenho dica dos melhores outlets da cidade (talvez a Vejinha tenha). Na verdade, eu sugeriria até pra procurar outra cidade pra conhecer, porque o mais legal de Buenos Aires definitivamente não é o eixo Casa Rosada – Obelisco – Caminito.

A primeira dica que dou é ir com tempo. Muita gente diz que 4 dias é um tempo bom pra conhecer Buenos Aires, mas isso é suficiente apenas para conhecer um pot-pourri do que é a cidade. Não que a cidade seja tão grande assim, mas sobretudo porque o tempo lá é diferente. É uma cidade que, além de acordar tarde, dormir tarde e funcionar mais tarde que o padrão (dificilmente se encontra um restaurante aberto antes das 9 da noite por lá), estimula um uso diferente de seus espaços. É comum que as pessoas fiquem horas dentro de um café conversando ou lendo um livro – e por isso mesmo há tantos cafés e mesinhas nas calçadas e praças.

Osos

Por falar nas calçadas e praças, o mais comum é ver, no meio de um dia comum, as pessoas sentadas, deitadas, tomando sol, passeando com o cachorro. Lá as praças têm gramados e bancos e estão à disposição das pessoas – que usam esse espaço. Parece óbvio, mas basta olhar para as praças de São Paulo para ver que, enquanto lá o espaço público é um espaço de todo mundo, que está ali para ser usado, por aqui o espaço público é terra de ninguém, de passagem, onde ninguém quer estar e não faz questão alguma de permanecer. Em Buenos Aires é muito comum, por exemplo, ver um engravatado deitado em um gramado ou num banco no meio da semana, em plena hora do almoço, fazendo uma siesta rápida antes de voltar para o batente.

Nap Time

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Falo tudo isso porque deitar num gramado para tomar sol é uma coisa que nunca aparece num roteiro-turistada de 3 dias, mas é algo que realmente recomendo que seja feito naquela cidade, de preferência pra despressurizar a correria de viagem e se acostumar com os aires portenhos.

(Desta última vez que estive lá, uma de minhas praças preferidas, a Plaza Palermo Viejo estava mais uma vez lotada de gente. Crianças no playground, velhinhos, casais namorando, gente dando comida aos pombos, pessoas passeando com os cachorros (que, naquela cidade, são invariavelmente imensos). Tudo estava lindo como todas as vezes que visito a praça, a não ser pela presença daquela marca de iogurte dos gases e acúmulo intestinal fazendo poluição visual e sonora com um imenso balão inflável enfeiando o espaço público.)

Tá, mas então o que fazer por lá tanto tempo?

Se eu tivesse que resumir a duas coisas, responderia: caminhar pelas ruas e comer. Muito. No meu caso, caminhar pelas ruas envolve também fotografar (todas as fotos desse post ilustram bem isso, hehe), e da próxima vez que for pra lá, levo alguma de minhas bicicletas, porque a cidade é toda plana e convida muito a dar uma volta – ainda que o trânsito não pareça muito diferente do de São Paulo (mas a esse eu já estou acostumado) (#FAIL, não levei a bicicleta dessa vez, e fiquei um fim de semana inteiro morrendo de vontade de pedalar). Mais abaixo comento um pouco sobre os bairros principais da cidade – e por onde dar uma paradinha.

Buenos Aires

Transporte

Se locomover por lá é algo muito simples, com os quarteirões quadradinhos e com numeração regular (cada quadra tem exatamente 100 números, ou seja, para ir do número 400 ao 900, andam-se exatamente 5 quadras), com os taxis baratos e abundantes (sempre dê como referência a esquina mais próxima, por exemplo: Azcuénaga y Beruti, ou Pueyrredón y Santa Fé). Ônibus funcionam a noite toda, as linhas são muito bem distribuídas pela cidade (lembre-se de comprar um Multiguía em alguma banca de jornal), e o Subte, como eles chamam o metrô, apesar de velho e sujo, é eficiente e ridiculamente barato (1,10 peso, ou 55 centavos de real das últimas vezes em que estive lá). Vale dar uma volta na linha do metrô sob a Av. de Mayo, que é a linha mais antiga da América do Sul (da década de 20 – para se ter uma ideia, o metrô em São Paulo começou a funcionar só na década de 70) e por onde ainda circulam trens de madeira.

Mujeres de Agüero

Pink Subte

Old Subte

San Telmo

San Telmo

Talvez o bairro mais legal, é a área boêmia da cidade, onde a bebedeira começa meio tarde, mas vai longe, com as pessoas migrando de bar em bar atrás do que fazer nos estabelecimentos que têm como epicentro a plaza Dorrego. Durante o dia, a principal atração são os antiquários e a arquitetura daquelas ruas de paralelepípedo que (felizmente) parecem ter parado no tempo, e aos domingos rola a tradicional feira de San Telmo, na própria plaza Dorrego. Mas quem caminhar pelo pequenino bairro com mais calma encontra pequenas preciosidades, como restaurantes descolados, livrarias de arte, lojas de design e, claro, a estátua da Mafalda (recém-inaugurada, é clichê mas é sensacional, ali sentadinha em frente à casa onde Quino a criou).

San Telmo

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San Telmo

San Telmo

Ano passado, num impulso de me perder por San Telmo atrás de novos lugares para explorar, descobri uma livraria descoladinha especializada em livros de arte (onde acabei gastando uma bela duma grana com edições que eu só encontraria ali) e, logo ao lado, um restaurante simpático onde comi um delicioso frango ao malbec por um preço ridiculamente barato no almuerzo ejecutivo. Putíssimo por não ter anotado o nome do local ou ao menos a rua, para poder voltar e indicar aos amigos, dessa vez encontrei novamente tais estabelecimentos e anotei nome e endereço. Trata-se da livraria Asunto Impreso (Peru 1064) e do simpático Las Mazorcas Bistro (Peru 1024).

Palermo

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Meu segundo bairro preferido, este é imenso. Possui uma infinidade de parques, jardins e praças, mas o mais legal é a região do Palermo Viejo (que alguns frescos gostam de chamar de Palermo Soho ou Palermo Hollywood – update: Palermo Hollywood fica do outro lado da linha do trem e é igualzinho ao Soho – só que em vez de lojas de roupas, tem baladas, bares e restaurantes), que certamente foi um dos motivos por Buenos Aires ter entrado no circuito internacional do design. Ruas de paralelepípedo e casas das décadas de 30 e 40 abrigam ateliês, lojas de roupas, design e decoração – tanto de criadores locais como de grifes internacionais. Aos fins de semana rola a feira ao redor da plazoleta Cortázar (que os locais conhecem como plaza Serrano, nome antigo da praça) – e há uma porção de lojas coletivas de jovens estilistas locais vendendo roupas muito legais a preços realmente bons. Recomendo ainda passar na Papelera Palermo, na calle Honduras. É uma papelaria que vende… papel. Livros, cadernos, presentes, todos artesanais. Toda vez que vou lá saio carregado de coisas.

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(Update: da outra vez só fotografei a placa, mas dessa vez recomendo entrar nessa Paul French Gallery. Loja mega legal de artigos de decoração, nos fundos de um corredor.)

Palermo

Palermo Soho

Palermo Viejo

Recoleta

É um dos bairros tradicionais de classe média-alta da cidade, uma espécie de Leblon ou Higienópolis portenhos. Foi fundado quando a elite fugiu da peste que dizimava a galera em San Telmo (muito semelhante com o que ocorreu com a região do Bixiga em São Paulo, com a turma rica fugindo e ocupando o Higienópolis – aliás, há muita semelhança entre San Telmo e o Bixiga). Fato é que se Manuel Carlos fizesse novelas argentinas, certamente aconteceriam na Recoleta, com as ruas arborizadas, as senhorinhas laqueadas, dos paseoperros passeando com uma dúzia de cachorros imensos cada, dos cafés por toda parte. Foi ali onde fiquei todas as vezes que fui pra lá, nas imediações da Santa Fé com a Pueyrredón. Das próximas vezes, pretendo ficar mais em San Telmo ou Palermo. Na verdade, da próxima vez não quero sair desses dois bairros. (#FAIL, fiquei na Recoleta de novo. Como levei meu pai para conhecer a cidade, preferi ficar em uma região que eu já sabia que seria legal.)

Recoleta

Recoleta

Puerto Madero

Com 20 anos de existência, é o bairro mais novo e caro da cidade, único pedaço com prédios modernos e espelhados – vai desde o canal onde antes funcionava o antigo porto, até um pouco além, onde antes era um imenso aterro de lixo. O canal me parece uma tentativa frustrada de ser tipo o bankside do Tâmisa – se for isso mesmo, não deu muito certo, e acaba parecendo mais uma coisa meio Brooklin/Vila Olímpia, só que mais bonito. Além de passear pelo canal, um bom programa ali é comer uma boa carne nos restaurantes ao redor – mas prepare-se pa pagar preço pra turista, caríssimo (para os padrões portenhos, nada de exorbitante para os padrões paulistanos).

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Ventanas y una chica

Plaza de Mayo e Avenida de Mayo

Av. de Mayo -->

Toda a parte “turístico-histórica” da cidade fica relativamente concentrada próxima a essa praça, onde fica a casa rosada (tem um tour gratuito de hora em hora, mas é chato), a catedral, o banco central e os protestos políticos (sempre vai ter algum furdunço rolando, seja do protesto das mães da Plaza de Mayo, seja o acampamento dos mutilados da guerra das Malvinas, seja algum protesto da ocasião – da última vez que fui, a polêmica da vez era a votação do casamento gay).

Protest

Dali daquela praça segue a Avenida de Mayo, que liga o palácio do governo ao congresso, e há quem diga que é a avenida mais francesa fora da França. Essa avenida é o eixo principal da cidade, notem que é a partir dela que os bairros se dividem no mapa. Recomendo passear com calma por ela, de ponta a ponta, porque é realmente muito bonita e cheia de marcos importantes da cidade, como o edifício Barolo e o café Tortoni (pico máximo da turistada na cidade, se quiser pagar caríssimo e em dólares pra ver gente dançando tango, esse é o lugar. Eu sempre passo longe – é Hopi Hari demais pra mim, e se é pra ouvir tango, continue lendo que tenho uma dica muito melhor).

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Barolo

Congreso

Malba

Buenos Aires

Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires, é definitivamente o meu lugar preferido na cidade. Um museu pequeno, moderno, sem cara de mausoléu. Abriga a coleção particular de arte latina do século XX de Eduardo Costantini, o homem mais rico da Argentina (e, olhe só, dono do museu). Tudo ali vale a pena, desde a coleção permanente (que inclui, por exemplo, o Abaporu de Tarsila do Amaral); as exposições temporárias, sempre muito legais; a livraria especializada em livros de arte; a lojinha com bugigangas descoladas (desde souvernirs do museu até câmeras Lomo – aquelas soviéticas de plástico feitas na China); o café-restaurante e a programação fenomenal de cinema, que é sempre de dar água na boca. Dica: estudante entra de graça no museu, só apresentar carteirinha. Saindo dali, recomendo dar uma volta pelos bosques de Palermo.

MALBA

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MALBA

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El Ateneo Grand Splendid

El Ateneo Grand Splendid

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Considerada uma das livrarias mais bonitas do mundo, na Av. Santa Fé, essa filial da rede El Ateneo foi construída onde antes funcionava o teatro Grand Splendid. As cadeiras deram lugar às estantes e o palco abriga o café da livraria. Apesar de ser imensa, todas as vezes que fui lá, não encontrei os livros que buscava – mas lá a atração maior é outra, os livros parecem ser mero pretexto (na verdade, livraria é o que mais tem nas ruas daquela cidade). Há vários teatros nos mesmos moldes do Grand Splendid que ainda funcionam na cidade, como o Gran Rex – onde acontecem grandes shows musicais.

Club Atlético Fernández Fierro

Da última vez que fui, coincidiu de rolar um show da Orquesta Típica Fernández Fierro em sua casa. Só achei o lugar graças à numeração infalível das ruas – e ao chegar à única alma viva parada na rua e perguntar, timidamente, “Fernández Fierro?”, o cara abre o portão, indicando um corredor enorme e dizendo “bienvenidos al Club Atlético Fernández Fierro”. Bom, “club atlético” é como a banda, independente e auto-gerida, chama sua casa de shows num grande galpão no miolo de um quarteirão residencial, se não me engano, no bairro de Almagro.

Já havia visto o Fernández Fierro em São Paulo, mas vê-los tocando em casa dá uma dimensão totalmente diferente para o trabalho da banda (afinal o Auditório Ibirapuera é o lugar perfeito pra descaracterizar qualquer atração com sua arquitetura imponente, mas equivocada e caduca). Enfim, é uma orquestra completa (com 4 bandoneóns, 3 violinos, 1 viola, 1 violoncelo, 1 contrabaixo, 1 piano e 1 vocalista) que toca tangos clássicos e contemporâneos – mas com um detalhe: todos eles têm entre seus 20 ou 30 e poucos anos e assumem uma estética e uma postura totalmente diferente do que se imagina de uma “orquestra típica” de tango. E o som deles é FENOMENAL. Esse vídeo é de arrepiar:

Freddo

Rede de sorveterias espalhada pela cidade toda. O de dulce de leche granizado é o sorvete mais fantástico que já tomei na vida, sempre que vou a Buenos Aires tomo um desses todos os dias. Enfim, não tem muito como descrever, tem que tomar.

El Sanjuanino

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É um restaurante de empanadas, com três lojas na cidade – e pra mim aquele aquele é o sabor de Buenos Aires. Não se assuste com o ambiente escuro e o aspecto meio estranho do lugar (ao menos o da loja da Sánchez de Bustamante, com mais de 50 anos), as empanadas dali são fenomenais (minhas preferidas são a de cebola e queijo e a de frango).

Alfajores

Havanna é bom, mas é caro. Recomendo dar uma volta num supermercado, há muitas outras marcas. Dica: O Jorgito de dulce de leche é igualzinho ao Havanna, só que com o que você paga por 1 Havanna você compra uma bandeja com 6 Jorgitos no mercado (o Jorgito de mousse é ruim, fica a dica). Em compensação, na Havanna tem uma coisa que vale a pena (e muito): Havannets, uma espécie de dan-top com doce de leite em vez de marshmallow.

Medialunas

Croissants adocicados, com presunto e queijo (jamón y queso), são o café da manhã perfeito de Buenos Aires. Dá água na boca de pensar neles. O que mais gosto é o do café Martinez (uma rede que tem por toda a cidade, que equivaleria ao Fran’s Café daqui). (Curiosidade: “croissant”, em francês, refere-se à lua crescente devido ao seu formato. Logo, faz sentido que os croissants na Argentina chamem-se “medialunas” ou “meia-lua”.)

Doce de Leite

Doce de leite argentino é, via de regra, muito mais gostoso do que o doce de leite que temos por aqui. A diferença está no processo de fabricação, ele é feito, se não me engano, com o açúcar caramelado – por isso é mais escuro e bem mais doce. Comprei duas marcas deliciosas, Chimbote e La Salamandra – mas certamente deve haver muitos outros tão bons quanto ou ainda melhores.

Vinhos

Muito baratos, tanto nos restaurantes como no supermercado, porque é um produto nacional bastante consumido (diferente daqui, que consumimos esporadicamente, em geral em ocasiões específicas), sobretudo os malbecs.

Compras

Vamos falar das compras, então. Já foi muito mais barato comprar em BsAs, mas tem muita coisa que ainda vale a pena, sobretudo roupas. O ponto máximo das compras é a Calle Florida, calçadão que é um misto de rua Direita ou rua São Bento com a Oscar Freire. Multidão, muitas grifes e preço de turista. Tipo inferno na terra, manja? É lá onde ficam as Galerias Pacífico, o shopping mais famoso da cidade – que muitos acham lindo, mas eu acho o cúmulo do cafona, com seus corrimões dourados, fontes, afrescos e telhado de vidro que sempre me lembra um tender de natal. Dica: se quer um shopping quase com as mesmas lojas mas bem menos turístico, vá até o shopping de Abasto – que foi construído dentro de um antigo mercadão no naipe do mercado municipal de São Paulo).

A Av. Cordoba tem muitos outlets, mas não sei dizer qual altura ao certo. A Av. Santa Fé é um lugar bem bom pra fazer compras também. Mas prepare-se, porque todas as avenidas de BsAs são imensas.

Para compras, pra mim ainda fico com Palermo Viejo. Na rua Gurruchaga fica a Felix, loja de roupa masculina que eu adoro. Nessa última vez estava em liquidação, para minha felicidade.

Derecho

Passeios

Além das feiras de Palermo e de San Telmo, que já comentei e que são programas obrigatórios pra quem quer conhecer a cidade, tem também a feira de Mataderos – que é mais afastada, mas tem uma pegada mais de cultura regional dos pampas, a cultura “gaucha” (que sim, tem muito a ver com o gaúcho do Rio Grande do Sul).

Pra quem quer dar uma fugidinha da cidade, tem o trem turístico que sai da estação Retiro (uma espécie de estação da Luz, mas bem maior que a nossa) e vai para o Delta do Tigre. Dá pra tirar o dia todo pra fazer esse passeio, porque você paga apenas uma passagem e pode descer nas estações que quiser e conhecer as cidadezinhas à margem do rio.

Se estiver com mais tempo e grana, dá ainda pra pegar o buque em Puerto Madero, atravessar o Rio da Prata e conhecer Colonia del Sacramento, cidade uruguaia (sim, atravessou o rio, tá no Uruguai) que foi colonizada por portugueses e foi motivo de arranca-rabo entre portugueses e espanhóis no período colonial. Se tiver tempo e quiser esticar o passeio, vale dar um pulo em Montevidéu, que fica a poucas horas dali e, com mais tempo ainda e já estando em Montevidéu, uma esticadinha a mais em Punta del Este. Quatro ou cinco dias são mais que suficientes para essa fugidinha para o Uruguai.

Chegando a Buenos Aires

Nem preciso dizer que prefiro comprar a passagem direto na companhia aérea do que com agência de turismo, né? A única coisa que recomendo, além de reservar com antecedência (Buenos Aires é o destino internacional favorito dos brasileiros) é ver em que aeroporto você vai desembarcar. O Aeroparque é o aeroporto doméstico, fica no meio da cidade, entre Palermo e o rio. Ezeiza, o aeroporto internacional, é longe. Já temos voos diretos de GRU para o AEP, embora a maioria vá para EZE. A proporção da distância de cada um é comparável com a diferença de Guarulhos e Congonhas com relação ao centro de São Paulo. (Fato: se der pra ir pro AEP, não pense duas vezes.)

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Dinheiro

Eu sempre levo alguns pesos (100 ou 200) só pra garantir, e deixo para sacar lá, direto no caixa eletrônico. É a melhor cotação possível, mas não sei as limitações de cada banco (afinal tenho conta em banco internacional). Se não quiser arriscar, uma alternativa às casas de câmbio é o Banco de la Nación Argentina, que tem na Avenida Paulista, em frente ao edifício São Luís, quase na Consolação. Da última vez, a cotação do peso para o real era de 2 pra 1, ou seja, 1 real = 2 pesos. (A cada vez que vou pra lá me fazem mais terrorismo com relação a notas falsas – orientando a anotar números de série e ficar paranoico a toda esquina. Acho exagerado, visto que jamais tive qualquer problema com isso – no entanto, eles realmente pegam as notas e conferem antes de aceitá-las. Por via das dúvidas, deixe pra comprar seus pesos em uma casa de câmbio de confiança, ou para sacar no banco.)

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Onde ficar

Todas as vezes que fui, aluguei um apartamento por uma semana no BYT. Desse jeito, tenho um apartamento mobiliado, confortável e completo à minha disposição, por um preço excelente (mais barato do que se eu fosse ficar em um hotel) e na localização que eu quiser. O bom é que você consegue escolher onde ficar, que tipo de apartamento se adequa ao que você está buscando e quanto você tá disposto a pagar. (Da última vez fiquei num flat do Temporary Apartments, que reservei pelo Booking.com – ótimo preço e o melhor apartamento onde fiquei até agora.)

Alguns amigos já ficaram em um hostel próximo à Avenida de Mayo, o Millhouse, mas não sei recomendar ou desrecomendar. Só sei que é um dos mais badalados da cidade, e que rola até mesmo balada dentro do hostel. Logo, se você busca um lugar mais tranquilo, talvez não seja uma opção.

Pra quem quiser se hospedar na faixa, sempre tem também o Couchsurfing, a rede de contatos pra quem topa ficar na casa de alguém que more na cidade – mas aqui recomendo pesquisar com bastante antecedência, pois amigos que utilizam a rede disseram ser bastante trabalhoso conseguir um couch na cidade.

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Dois lembretes importantes

1) Propina é a forma como eles chamam a gorjeta do garçom. Assim como aqui, ela é de 10% e não é obrigatória. No entanto, ao contrário daqui, ela não vem somada na conta – você tem que dar espontaneamente. Fica a dica.

2) Segurança: já vi muitos apavoradinhos aí dizendo que a cidade é perigosa. No geral, me sinto muito mais seguro andando por lá do que andando perto da minha casa, nas imediações da Av. Paulista – mas eu tendo a romantizar aquela cidade porque gosto demais de lá. Fato é que conheço gente que deixou de aproveitar muita coisa de lá por medinho – e isso é, no mínimo, patético. A dica que dou é: tome cuidado com sua segurança como você tomaria em qualquer grande cidade. Não precisa de mais do que isso.

Porque há S. João onde o festejam

December 5th, 2010

Noite de domingo, prelúdio de mais uma semana de muito trabalho. Após um dia inteiro entre um filme, um pouco de música e um tanto de chuva, vem um aperto terrível no coração, um desespero, um pensamento súbito nos amigos, nos projetos, na tristeza, nas expectativas, na solidão. A cidade entra pela janela, indicando que lá fora tem gente, movimento, energia. Pego a bicicleta e vou pra lá, me encontrar com essa vida que acontece lá fora.

Referência para um projeto não iniciado

November 29th, 2010

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Diários de Bicicleta, Parte 3: Das perguntas de sempre

September 30th, 2010

Sim, mais um post sobre bicicleta, paciência. Nesse eu respondo às duas perguntas que mais ouço de quem não é ciclista. Elas tão em negrito lá em baixo, se você não quiser ler o papo introdutório.

Enfim.

Desde que troquei a combinação “morar longe + carro” pela combinação “morar perto + bicicleta + transporte público”, além da mudança absurda de hábitos e de estilo de vida, começo a perceber o quanto as pessoas ao meu redor são assustadoramente dependentes do carro pra qualquer coisa – e o quanto eu era, sem perceber. E o quanto as pessoas simplesmente não enxergam outra possibilidade de se locomover na cidade que não seja utilizando seu carro.

Bem, no começo eu ainda argumentava sobre o quanto muitas delas não precisam obrigatoriamente pegar trânsito todo dia, ou sofrer pra achar vaga na rua, ou ser extorquidas toda vez que forem parar o carro em um estacionamento, ainda que pra tomar um café. E não me refiro só à bicicleta não, tem muitas formas de se locomover que não sejam dependentes de um carro. Mas só ouvia coisas como “mas isso é uma fase, você está vendo isso com olhar romântico”, ou “mas não é tão simples assim, o transporte público é uma droga”, ou ainda qualquer outro argumento que invariavelmente estava na ponta da língua.

No começo, ficava puto, tentava contra-argumentar – depois me acostumei. Considerando que boa parte dessas pessoas sequer saem do centro expandido no dia a dia, e muitas delas até trabalham no mesmo bairro onde moram – percebi que qualquer argumentação é inútil.

Dane-se, cada um que fique com suas escolhas – e arque com as consequências delas. O ponto aqui é: pra mim, o mais importante é deliciosa a sensação de liberdade que essa escolha me traz HOJE, AGORA (e que cada vez menos eu sentia quando dirigia). Se vai durar mais 1 ano ou 10 ou 50, veremos. Se não durar, paciência (meu palpite é que durará muito). Em pouco mais de dois meses, completo 1 ano de pedaladas.

Fato é que é legal pra caralho chegar rapidíssimo aos lugares, não ter perrengue pra estacionar, não ter gastos absurdos de manutenção, seguro, combustível. Estou adorando fazer algum exercício físico que – literalmente – me leva a algum lugar. É ótimo saber exatamente em quanto tempo eu vou chegar a algum lugar, faça chuva ou sol, com ou sem congestionamento. É muito legal conhecer mais gente que também tenha feito a mesma opção e que é tão apaixonada (ou muito mais apaixonada) por essa história toda.

Mas a questão é que não, não é meu papel convencer ninguém a esse mundo, cada um faz o que quer da sua vida. Não esperem que eu use a hashtag #vadebike, até porque eu simplesmente detesto imperativos. Quer ir de carro? Vai, ué. Mas pare de reclamar das consequências – e aviso que as coisas só vão piorar. Como diz Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá (cidade considerada modelo da reestruturação dos transportes urbanos na América Latina), “quanto mais espaços tivermos dedicados aos carros, mais carros teremos”. E quanto mais carros, bem, todo mundo sabe o que acontece. Só peço a delicadeza de não atropelar o ciclista, tá bom? Brigadú! ;)

Claro que eu adoro quando algum amigo ou colega sinaliza que gostaria de experimentar, tem vontade de usar a bicicleta no dia a dia. Sempre me empolgo, dou o maior apoio do mundo, indico sites, me ofereço a ajudar na escolha da bicicleta, chamo pra dar uma volta. Gostaria que mais amigos me acompanhassem nessa história toda – e tento dar o mesmo incentivo que tive dos amigos ciclistas quando pensei em começar a pedalar. Queria que mais gente ao meu redor compartilhasse do prazer que é dar uma volta por São Paulo sobre duas rodas – ainda que em caráter de lazer. Às vezes, uma voltinha de uma, duas horas pelo centro é suficiente pra afastar qualquer estresse ou mal humor – além de você (re)descobrir a dimensão humana da cidade (o quanto você consegue se locomover com facilidade só com o esforço do seu corpo). Mas não vou indicar a ninguém. Meus relatos empolgados já valem como indicação pra quem quiser – minha vontade era a de ter duas bicicletas, uma só pra emprestar aos amigos e levá-los pra dar um rolê.

E aí vêm as duas perguntas que sempre ouço (pelo menos uma vez por semana cada uma delas).

Acontece que quando as pessoas comentam que têm vontade, invariavelmente a frase vem seguida do “mas eu tenho medo”. E muitas vezes esse medo é suficiente pra afastar a ideia e continuar não tendo mais uma opção de transporte (repare que estou falando de opção, alternativa, e não de uma escolha em detrimento de outra).

A questão é:

1) Mas não é perigoso andar de bicicleta em São Paulo?

Sim e não. Sim, é perigoso como também é andar de carro, de moto, a pé. Quando você sai de casa, você está exposto à rua (e aos motoristas malucos que nela vivem, assim como o crime, o acaso…). Mas a bicicleta tem um trunfo, que em geral o pedestre também tem: de bicicleta você dita seu ritmo e seus caminhos. Lembre-se que a bicicleta não tem um motor que te projeta, ela é movida pelo seu próprio esforço. Dificilmente você anda a mais que 30Km/h, e pode desacelerar e parar praticamente quando quiser, só frear e botar o pé no chão. Você pode desmontar quando quiser, e anda na calçada como pedestre. Você pode escolher um caminho mais tranquilo, menos movimentado. Dependendo do trajeto, há trechos que você ainda pode fazer pela calçada. Ok, poder, não pode. Mas se você está se acostumando e acha que está botando sua vida em risco ao pegar uma rua mais movimentada, não hesite e pegue a calçada – desde que você não represente (e nem demonstre) algum tipo de ameaça aos pedestres (que são os “donos” da calçada), por que não compartilhar esse espaço?

Com o tempo, adquirindo prática, você vai ver que pela calçada é pior (em geral o piso é ainda mais acidentado do que as ruas esburacadas, você vai muito mais devagar, você – ou ao menos eu – fica sempre com a sensação de que tá fazendo algo errado). Quando perceber que a calçada não tá ajudando, é hora de pegar a rua. Tomando alguns cuidados (sinalização adequada, comportamento previsível, segurança nos movimentos, bicicleta estável e regulada, estar acostumado com sua bicicleta, não querer competir com os carros e deixá-los passar pra deixar a pista livre pra você, não ficar muito próximo da sarjeta, respeitar seus limites e parar quando achar que deve, etc), o risco é pequeno. De verdade. Aí você percebe que os motoristas em geral são legais, a maioria é. Muita gente respeita o ciclista – e quer respeitá-lo. Claro que há as exceções, e dentro dessas exceções estão os taxistas e motoristas de ônibus. Mas eles em geral também têm ações previsíveis, então você previne estresse pedalando de uma forma mais preventiva. Conhecer o caminho também ajuda a saber os pontos críticos e os pontos mais tranquilos.

Ciclistas que pedalam há vários anos em São Paulo sempre dizem que as coisas estão melhorando muito em termos de segurança. E muito disso é reflexo também da quantidade de pessoas que decidem efetivamente usar a bicicleta na cidade, que não para de crescer. Enfim, a resposta é não, não é perigoso. O que não significa que você vá marcar bobeira e sair pedalando achando que está em Amsterdam.

2) Como você faz com suor, tem que tomar banho sempre que chega nos lugares?

Bom, aí é uma coisa que me deixa neurótico, porque transpiro muito. Foi uma das coisas que mais pesquisei quando comecei a pedalar. O ponto é: da mesma forma como você dita seu ritmo e seus trajetos pra garantir sua segurança, também pode escolher ritmos e trajetos pra reduzir a transpiração. Se você não tá apostando corrida com ninguém, não há necessidade de pedalar no talo da sua energia pra chegar mais rápido, a obsessão pela velocidade faz mal. Sair 10 minutos antes pra pedalar com mais tranquilidade já resolve boa parte do problema. Pense que tem uma galera que pedala vestida com a mesma roupa com que fica o dia todo, e não por isso deixam de lado higiene ou estilo. Basta procurar por aí por “cycle chic” que tem uma porrada de gente. Tem também o “slow bike”, que acaba englobando tudo isso que eu tô falando também.

Escolher um caminho sem muitas subidas também ajuda (meu caso, por exemplo: moro perto da Paulista e trabalho perto da Sumaré. De manhã, vou tranquilo pela Dr. Arnaldo, sem me esforçar muito pra não suar, e depois desço a Sumaré pela ciclovia. Sendo só descida, quase não há esforço).

Mas também tem uma série de cuidados que precisam ser tomados pra ajudar nesse processo todo. Nesse post, o Willian Cruz dá uma porrada de dicas boas que eu sigo, e ainda acrescento mais uma: sabonete antibacteriano (não sei se funciona de verdade, mas na dúvida não custa tomar um cuidado a mais).

No caso, eu até poderia tomar um banho no meu trabalho, mas com esses cuidados todos (trocar de roupa, lenços umedecidos, sabonete especial, etc), e sendo um trajeto de apenas 5 Km na descida, não existe essa necessidade. A volta sempre é mais chatinha, mas nesse caso, como em geral estou voltando pra casa, não há crise nenhuma em chegar e ir direto pro banho…

Dedicatória

August 19th, 2010

Dizia a primeira página do livro de poesia que comprei num sebo, na sensacional feira de Tristán Narvaja, em Montevidéu:

Lola,

Espero que você goste destes livros… Se você não gosta, você já tem folhas para dar a Pablo para que ele desenhe na missa. Não sei o que mais colocar (é a primeira dedicatória que escrevo em minha vida).

Te quiero mucho,

(Assinatura incompreensível)

Lógico que comprei na hora.

Imagens

June 15th, 2010

Achei sem querer, fuçando em umas pastas, revirando uns passados. Eram referência pra cenografia de um processo teatral antigo. Despertaram umas saudades, intensificaram umas vontades. Tô botando a mão num projeto pessoal novo, ainda disforme, ainda com apenas alguns rabiscos (literalmente). E que logo vou precisar da ajuda dos amigos para dar um sentido coletivo para esse embrião (por enquanto não passa de um monte de ideias individuais e, por isso, nada potentes). Tudo vai começar com um blog, e só falarei mais disso quando esse blog estiver funcionando.

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As pazes e o pôr-do-sol no Chá

May 30th, 2010

Hoje uma mulher com fortíssimo sotaque nordestino, cheia de malas (e acompanhada de outras mulheres igualmente carregadas) me pediu uma informação no metrô Sé, enquanto eu subia a escadaria carregando minha bicicleta. Após tê-la ajudado a se encontrar na cidade, me senti feliz ao receber seu agradecimento – nessa hora percebi que eu estava, de alguma forma, refazendo as pazes com essa minha cidade que ora amo, ora odeio. Foi nisso que pensava ao pedalar pela Rua Direita, já vazia, até que, ao chegar no viaduto do Chá, São Paulo retribuiu me dando essas cores:

Pôr-do-Sol em São Paulo

Um versus Cem mil

April 4th, 2010

Side+Walk

(esse post teria um parágrafo explicativo/introdutório e dedicado a algumas pessoas, mas preferi deixar pra lá)

  • Uma questão particular sempre é uma questão particular, muito menos potente do que questões coletivas, que envolvem as vidas de mais pessoas.
  • Uma questão coletiva não é a mesma coisa que uma questão individual de muitas pessoas; um coletivo não é um mero agrupamento de indivíduos.
  • Ignorar o coletivo pra pensar só no indivíduo isolado é desperdiçar tudo o que o indivíduo tem de mais potente (e o contrário também é verdadeiro: ignorar especificidades de cada indivíduo dentro do coletivo é desperdiçar o que o coletivo dem de mais potente).
  • Não se resolvem coisas complexas com interpretações simplórias.
  • É impossível pensar em coletividade sem pensar em relações políticas, de identidade e de poder.

S. João

March 24th, 2010

Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.

(Alberto Caeiro)

Esse Godot que não chega nunca

January 21st, 2010

Lembra ano passado que fiz a burrada de comprar uma bicicleta no Submarino, mas eles deram tanta mancada na entrega que cancelei a compra e comprei em um estabelecimento que cumpre com o mínimo de sua obrigação (que é entregar ao cliente aquilo que ele compra)? Pois vos digo: O PESADELO (AINDA) NÃO ACABOU. Eis a continuação da pequena novela:

Terça, 12/01/10, 1 mês e 1 dia após o cancelamento. Entro no chat para consultar o status do ressarcimento, e sou informado que eles estão “aguardando o retorno do produto ao estoque para dar baixa”. UM MÊS DEPOIS! Questiono essa demora, a moça pede um instante para verificar. Depois de um tempo, aparece a seguinte tela:

ajudaonline

Detalhe: neste momento, perdi o acesso a toda a troca de mensagens realizada no chat. Na avaliação do atendimento deixo muito claro que a inatividade do atendimento foi por culpa do atendente, e não minha. Na sequência, ligo para a central explicando todo o problema e me pedem um prazo de 3 dias úteis para resolver a questão. Recebo logo em seguida um e-mail:

Prezado Maurício.

Em atenção a reclamação direcionada a nossa central de relacionamento.

Informo que acionei nesta data o nosso setor de devoluções para que solicitem agilidade na mesma e finalizem para que possamos atendê-lo com a liberação do estorno.

O prazo para que o setor nos retorne o contato é de 24 a 48 hs úteis.

Sendo assim peço gentilmente que aguarde.

Pedimos desculpas pelo inconvenientes ocasionados.

Permaneço á Disposição de Seg á Sáb das 14:00 ás 20:00 hs.

Atenciosamente,

xxxxxx xxxxx

Tel:(11) 3305-3250 • ramal: xxxxx

Horário: segunda á sábado das 14:00 às 20:00 hrs.

Relacionamento Submarino

relacionamento@submarino.com.br

www.submarino.com.br

Observação irrelevante: Além de tudo, precisam URGENTE melhorar o português. Só nesse curto e-mail tem frase sem verbo, diversos erros de acentuação e crase, plural errado e nenhuma abreviação correta para “horas”.

Segunda, 18/01 , 1 mês e 7 dias depois do cancelamento. Ligo e novamente ouço a desculpa estapafúrdia de que estão aguardando o produto voltar ao estoque. Expliquei toda a história novamente, perguntei se estão esperando o produto (que nunca chegou a minha casa) dar uma volta pelo Brasil antes de voltar ao estoque. É aberto um chamado para solicitar a agilização (protocolo 86477138), e me pede 1 dia útil para entrar em contato em meu celular. Pergunto se esse contato será como todos os outros prometidos e nunca ocorridos, e ela diz que vai complementar o chamado com esta informação.

Continuo esperando pela “volta” de um produto que não faço a menor idéia de onde está, que jamais chegou às minhas mãos, e cujo valor foi debitado há 1 mês e meio de minha fatura de cartão de crédito, nunca voltou, e pela péssima qualidade do atendimento não vejo perspectivas de retorno próximo. Pegaram meu dinheiro, não entregaram o produto e estão enrolando pra devolver.

Quinta, 21/01, 1 mês e 10 dias depois do cancelamento. Percebo que o histórico de meu pedido desapareceu do site, dando sumiço nas incoerências que eles próprios evidenciavam nessa mesma tela antes (e ilustradas no post anterior). Mais uma vez o motivo do cancelamento que eles declaram é mentiroso: nenhum prazo de pagamento expirou – tanto que o valor foi debitado de minha fatura do cartão de crédito e é por isso que estou brigando com eles agora. Mais uma vez no sistema deles consta que o motivo do cancelamento teria sido por minha culpa. E o cancelamento não foi em 3/12 (data da compra), mas sim em 10/12. E o motivo mudou mais uma vez, notaram?

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Sem ter tido nenhum retorno desde o último contato (como já era esperado), ligo novamente e o atendente pede para ligar para a moça do e-mail acima reproduzido. Uma outra pessoa me atende e diz que cobrará uma nova posição até amanhã – e garante que desta vez eu terei um retorno, se comprometendo pessoalmente a resolver o caso. Alguns minutos depois (enquanto eu terminava de redigir esse post) ela me retorna dizendo que finalmente foi liberado o estorno, e que cairá em minha fatura em alguns dias. Agora é esperar para ver, só acredito vendo na minha fatura.

E continuo desrecomendando o Submarino com todas as minhas forças. NUNCA MAIS.

Diários de Bicicleta, Parte 1: Deslumbramento

December 30th, 2009

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Berlim e São Paulo. Adivinhem qual é qual.

Faz pouco mais de dois meses que não dirijo meu carro, que está na casa de meus pais e em pouco tempo deve ser vendido. E menos de um mês que assumi que, além do transporte coletivo (que é mais que suficiente em meu deslocamento cotidiano) e das atividades que faço a pé sem sacrifícios na casa nova, meu transporte também aconteceria sobre duas rodas.

Nada de papinho ecochato de menos poluição, ecobags e o escambau. A escolha foi por dois motivos, um prático e outro emocional. O prático é pela necessidade de praticar algum exercício físico minimamente agradável (o dia que alguém me ver puxando ferro numa academia ou jogando futebol, me interne). O emocional é pela busca de outra forma de relacionar com as ruas da cidade, uma frescura que, como deu pra notar pela maioria dos comentários em meu blog, pra mim é muito preciosa.

São Paulo não é uma cidade onde bicicletas seriam a solução para a humanidade, como acontece em Berlim ou Amsterdam – sobretudo porque aquelas cidades europeias não têm nem as dimensões e distâncias da capital paulista, nem o relevo diverso que temos aqui e, principalmente, não têm a densidade demográfica aliada à distribuição urbana que temos aqui. Sendo prático, não dá pra maioria dos paulistanos se deslocarem de bicicleta. Por outro lado, dá pra muita gente se virar sobre duas rodas por aqui – e como diz o movimento mundial pela adoção do ciclismo como alternativa para a mobilidade urbana, cada bicicleta é um carro a menos. Mas falei que não teria papo de ecochato, também não vou reproduzir o discurso ativista, vou falar de minha experiência.

As primeiras impressões são inevitavelmente as do vício de ter dirigido por quase sete anos. Pensar como ciclista e não como motorista é um exercício difícil. Bicicleta não tem retrovisor, não tem seta e, principalmente, não tem a estabilidade de um carro. Não dá pra mudar de faixa a hora que quiser, não dá pra se impor na frente dum motorista folgado que não dá passagem. Mas aí, você percebe que isso também é vício de motorista, porque você não precisa, na prática, se jogar na frente de ninguém, nem mudar de faixa. Aos poucos percebe que as conversões são mais fáceis (se você desmontar da bicicleta e for pela calçada, você automaticamente vira pedestre, e quando quiser voltar a ser “veículo”, basta montar e cair pra rua).

Aí vai aprendendo aos poucos que num semáforo, você sempre pode ser o primeiro a sair, sempre em vantagem com relação aos demais motoristas (porra, dá pra ir pela beirada, e não esperar o cara da frente começar a andar pra aí você sair). Percebe também, com o tempo, que o comportamento dos carros é muito similar ao de manadas de búfalos: é só esperar todos eles passarem que a rua ou avenida é sua, e não tem nenhum mala te acelerando por trás.

Aí você vê um carro chegando perto demais (graças à crescente quantidade de ciclistas blogueiros, você vai aprendendo aos poucos as manhas e macetes). Olha pro lado e adivinha: é um taxista se jogando em cima de você, olhando pra frente e achando que a rua e sobretudo a faixa da direita (aquela onde os ciclistas devem estar, segundo o código de trânsito) é deles. E acontece de novo, e de novo, e de novo. Uma, duas, cinco, dez vezes num trajeto de 5 quilômetros (o que acontece com esse povo, sério?). E vai percebendo o quanto o trânsito é hostil, e minhas primeiras experiências foram apenas nos dias em que a cidade está vazia. E percebe o quanto muitas vezes é forçado, por medo e inabilidade, a infrigir o código e pedalar na calçada – porque tudo é culturalmente habituado demais a pertencer aos carros.

Mas há as compensações. Estacionamentos gratuitos (poucos, alguns pateticamente inseguros, outros até com gente tomando conta de graça, bancados por seguradoras e ONGs), uma mobilidade absurdamente divertida (depois que você começa a ganhar alguma resistência e perceber que dá pra fazer caminhos maiores, você faz questão de perder uns minutos a mais pra pedalar mais um pouco), a possibilidade de estacionar na calçada que quiser caso precise fazer algo rápido como devolver filmes na locadora ou comprar água, redescobrir o mapa urbano a partir de seu relevo (pra mim isso é impagável). Tem a parte chata também: o desespero pra tomar um banho imediatamente, a vulnerabilidade ao clima, o transtorno de subir e descer até a rua, abrindo e fechando portas com um trambolho debaixo do braço, a impossibilidade de se locomover logo após uma refeição, carregar um capacete suado na mão toda vez que para em algum lugar, medo de parar em qualquer lugar, de ser assaltado etc, etc, etc. Mas basta lembrar das coisas legais, que fica tudo certo.

Próximo passo: sair pra pedalar com uma câmera fotográfica na mochila. :D

Diarinho: Balanço de 2009

December 28th, 2009

Putz, que ano. Comecei com a coragem de assumir um visual novo, que hoje curto muito. Projeto teatral fomentado pela prefeitura, projeto de crítica apoiado pelo governo do estado.  Confidências dos amigos, ficar feliz com pequenas demonstrações de confiança e de amizade. Voltar à Argentina com minha mãe, conhecer Londres e Paris ao lado de amigos de infância, rolezinho sozinho por Berlim. Apaixonar-se por Berlim. Decepcionar-se com pessoas, atitudes. Eventuais idas ao Rio de Janeiro (uma delas pra ver o show do Radiohead, que foi dos melhores de minha vida). Rever o Kraftwerk ao vivo duas vezes. Silêncios, angústias, cansaço, muito cansaço. Muita fotografia. Estreia. Decisão dolorosa de sair do grupo de teatro e voltar a ter fins de semana depois de 6 anos de dedicação a ensaios. Mudanças de rumos com relação ao mestrado – espera mais um pouco. Cidadania portuguesa. Casa nova, bicicleta nova, busca por novos hábitos. Ainda não acabou, mas foi ducaralho.

Esperando Godot

December 9th, 2009

Olá.

Envio este e-mail diretamente para atendimento@submarino.com.br pois minha reclamação não cabe nos ridículos 1000 caracteres que vocês delimitam no campo de atendimento no site. Mas tudo bem, vamos aos fatos:

- Quinta, 3/12: comprei uma bicicleta no Submarino com entrega prevista para 2 dias úteis (Pedido xxxxxxxxx).

- Sábado, 5/12: apareceu no rastreamento do site que havia sido entregue à transportadora (status que permanece até hoje)

- Segunda, 7/12, fim do prazo: não tendo recebido o produto, liguei pedindo uma posição (ficaram de me retornar com o status, protocolo xxxxxxxx, não retornaram). Liguei novamente, me disseram (rispidamente) que chegaria no dia seguinte sem falta, com prazo máximo até dia 9/12 (sem dar satisfações do motivo).

- Terça, 8/12 (1 dia de atraso): ligo pedindo uma posição. Atendente diz que o problema foi na emissão da nota. Diz “essa eu também não entendi” quando questiono a desculpa da nota fiscal, visto que o produto já estava na transportadora e na segunda não haviam me informado nada relacionado a isso. (Protocolo xxxxxxxx)

- Quarta, 9/12 (2 dias de atraso, limite do novo prazo – aquele que não teria sido informado se eu não ligasse reclamando): atendente me informa que o produto está em rota de devolução pois o CLIENTE (no caso, eu) havia recusado o recebimento no dia 7. Não passou protocolo. Eu disse que EU não havia recusado, ele insistiu que “é o que consta”. Perguntei o que ele poderia fazer  para me ajudar, se ele poderia me dar alguma posição razoável, ele disse que não poderia fazer nada. Na dúvida de ter ficado esquizofrênico sem perceber, pedi para falar com outra pessoa. Meia hora de musiquinha. Desisti porque telefone custa caro e ligar para o atendimento do Submarino é por minha conta.

No momento, sinto-me absolutamente enganado. Não quero ficar mais tempo sem esse produto e estou disposto a comprá-lo em qualquer outro estabelecimento que não me faça sentir como um otário. Mesmo que pague um pouco mais, não tem problema. Só não queria ter perdido esses dias todos esperando uma entrega que nunca veio. E se tivesse comprado em outro lugar já na semana passada, estaria há 1 semana usufruindo de minha compra.

Tenho apenas três perguntas:
1) Como eu poderia ter cancelado o recebimento de um produto que eu paguei, e que ligo diariamente cobrando sua entrega?
2) Caso eu decida continuar esperando os dois dias úteis, quando efetivamente receberei meu produto, de verdade?
3) Qual o procedimento para cancelamento da compra e estorno do valor pago em meu cartão de crédito? Quanto tempo demora?

Sem mais, aguardo retorno, o mais rápido possível.

Maurício
(11) xxxx xxxx


UPDATE 1

Quinta, 10/12, 3 dias de atraso. Recebo o e-mail abaixo (aparentemente sem relação com o e-mail mandado ontem à noite).

Olá MAURICIO ALCANTARA,

Informamos que seu pedido xxxxxxxxx está em processo de devolução. Desta forma, retornará ao nosso Centro de Distribuição e após a confirmação de chegada em nosso estoque, providenciaremos o cancelamento e posteriormente o reembolso ou reenvio.

Pedimos gentilmente que aguarde a confirmação desta devolução através de seu e-mail.

Permanecemos a sua disposição para mais esclarecimentos.

Ter você a bordo será sempre um imenso prazer para nossa tripulação!

Atenciosamente,
Maysa xxxxxxxx
BackOffice Delivery Submarino
www.submarino.com.br
Tel: (11)xxxx-xxxx

Minha resposta:

Olá,

Gostaria de entender o real motivo da devolução, visto que o produto sequer chegou até minha casa. A central de atendimento de vocês alega que houve recusa do recebimento por parte do cliente, o que não procede (vocês ao menos têm o nome de quem teria recusado o recebimento?).

De qualquer maneira, como funcionam os próximos passos? Caso eu opte pelo cancelamento+reembolso, quanto tempo demora? E caso eu ainda opte por receber o produto (que comprei e estava esperando ansiosamente faz 1 semana), quando ele chegará? Como/quando/onde eu faço essa escolha?

Estou realmente muito decepcionado com o serviço do Submarino.

Obrigado,
Maurício

UPDATE 2

No site do Submarino, o status de minha encomenda volta para a etapa anterior, “Produto Liberado”. Ligo novamente. Descubro que, ao que parece, foi o atendente de ontem (9/12) que solicitou o cancelamento (que, repito, EU NÃO PEDI). O argumento foi que caiu a linha (eu desliguei porque cansei de ouvir musiquinha). Afinal, desligar o telefone significa cancelar o pedido, certo? Não?!?

Minhas escolhas: pedir o reenvio do produto (e aguardar mais supostos QUATRO DIAS – nem a pau, Juvenal) ou cancelar. Pedi para cancelar.

Para isso, fiquei um tempão aguardando ela CANCELAR O CANCELAMENTO ANTERIOR (que, ela informa, foi um erro operacional. Jura?) para, então, cancelar de verdade. A menina não consegue cancelar, diz que eu precisaria esperar o produto chegar para recusar pessoalmente a entrega. Eu disse que não faria isso porque não fazia sentido e porque quem receberia seria o porteiro. “Ele também pode recusar!”. E eu respondo que não, ele não pode. Insisti no cancelamento, e ela pede um momento para entrar em contato com a transportadora.

Ouço um surreal “senhor, eu estou vendo uma foto da esquina da sua casa, tem uma padaria!” (HEIN???), numa tentativa de provar que houve uma tentativa de entrega que foi recusada. Pergunto o nome da pessoa que recusou, então, e ela desconversa e pede pra aguardar mais um pouco.

Depois de aguardar MUITO TEMPO, consigo cancelar o pedido (mas a menina disse que talvez ainda houvesse uma tentativa de entrega, mesmo depois disso). Duração da ligação: 35 minutos pagos por mim.

Próximos passos: ligar sábado pra confirmar se eles receberam o produto de volta no estoque e ter certeza que eles deram baixa do meu estorno, que demora uma ou duas faturas do cartão de crédito pra chegar. Ou seja, além de tudo, me fuderam o orçamento por 2 meses. Aguardem próximos updates. E eu só queria uma bicicleta.

UPDATE 3

Sexta, 11/12, 1 dia após o cancelamento. A central de atendimento nunca respondeu meus e-mails (a mensagem automática prometia a resposta em até 1 dia útil). Minhas mensagens no Twitter também nunca foram respondidas, apesar do Submarino estar o dia todo usando aquela ferramenta para fazer promoções e vender ainda mais produtos. Na página do status da minha encomenda, já consta como pedido cancelado, mas o motivo que aparece é por “não confirmação do pagamento” (mesmo apesar de, na mesma tela, aparecer que o pagamento estava OK em 3/12):

submarino_tosco

Ou seja, mais uma MENTIRA do Submarino. Agora reparem numa coisa: só nesse pedido, há TRÊS equívocos graves (a da “recusa por parte do cliente”, a do “cliente pediu o cancelamento” e a do “cancelado por não pagamento”). Em todos os casos, a culpa seria minha se fosse verdade. Imagino que para fins de auditoria, defesa do consumidor, avaliação interna dos serviços ou qualquer coisa que o valha, constaria no registro deles que a venda não foi concretizada por falha do cliente, e não da empresa.

No fundo, além de ter confiado no esperado bom serviço deles (que já usei muitas vezes no passado, satisfatoriamente), pago, não recebido, me estressado e de ter de esperar de uma a duas faturas para ter meu dinheiro ressarcido, AINDA SAIO COMO O RESPONSÁVEL PELA SITUAÇÃO. A tentativa de me convencer a recusar pessoalmente a entrega somente quando chegasse em minha casa só reforça essa teoria. Será paranoia da minha parte?

Só espero receber meu dinheiro o quanto antes, e espero que não me enrolem aí também. Ainda estou pensando em levar essa história adiante em algum serviço de defesa do consumidor, porque é injusto demais acabar assim. E pelo que parece, não é um caso isolado: nessa saga absurda, junto com a solidariedade e apoio de várias pessoas (sobretudo no Twitter), descubro pelo menos meia dúzia de pessoas próximas a mim que também estão tendo problemas de entrega e de cancelamento indevido com o Submarino neste exato momento.

Que aconteceu, pessoal da B2W, tão vendendo mais do que conseguem entregar justo no Natal? Tava na hora de uma interdição igual à proibição de vendas do (igualmente porco) Speedy da (igualmente porca) Telefônica. Ou então de alguma lei da Tia Eda neles: entrega no prazo prometido ou produto de graça. Aí eu queria ver.

Mas pelo menos vou andar de bicicleta nova nesse fim de semana, e não será graças ao serviço imundo e ao atendimento com cheiro de má fé do Submarino. O que mais me revolta é que tudo seria muito diferente se ao menos eu tivesse sentido um mínimo de boa vontade por parte da empresa em todas as minhas (muitas) tentativas de ter meu problema resolvido (via telefone, via Twitter, via e-mail). Ou se tivessem a decência de assumir seus erros e pedir desculpas. Pelo contrário: não retornaram e só me ofenderam, irritaram e pior: me culparam pra encobrir o péssimo serviço deles. Agora eu quero é que eles se fodam.

Moleskine (outro post inútil e íntimo)

September 28th, 2009

Não é hábito anotar sonhos como não é hábito lembrar dos sonhos, muito menos é hábito expor sonhos aqui, mas tem dias em que o sonho é tão real, tão assustadoramente próximo, que é como se o subconsciente estivesse criando metáforas pra te jogar na cara o que está acontecendo. Tão assustadoras que deu vontade de botar aqui, tipo diarinho mesmo.

moleskine

Foda demais se preparar para partir, estabelecer o fim de algo em que você já acreditou – e muito. E que no fundo ainda acredita, ou quer, ou gostaria de acreditar. Mas há uma hora certa para pular do avião – enquanto ele ainda está na superfície e o assento flutuante ainda te serve de algo.

Inspira
Expira
Corre até a saída de emergência
Inspira
Expira
Gira o que tem que girar, aperta o que tem que apertar, empurra o que tem que empurrar
Pula no tobogã inflável e cai pra fora
(Sempre imaginei como seria fazer isso ao ver os desenhos dos cartões de segurança)

Imagens das Férias

August 20th, 2009

Bike

Gabi

Londres

Mais Londres aqui.

Reichstag

Mitte, Berlim

Berliner Mauer, East Side Gallery

Mais Berlim aqui.

Tour de France

Paris

Creep

Mais Paris aqui.