‘Cem Mil’ Category

Inhotim

February 22nd, 2012

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A primeira vez que ouvi falar do Instituto Inhotim foi há uns dois anos, quando um amigo francês comentava sobre os museus mais interessantes que ele conhecia, juntamente com o Centre Pompidou e a Tate Modern (ou era o MoMA? – não me lembro). Fato é que eu achei curioso ver uma instituição brasileira, até então desconhecida pra mim, entre alguns dos museus mais fantásticos que já visitei.

A partir de então comecei a prestar mais atenção ao que se falava daquela instituição quase insólita que ficava no município de Brumadinho, a poucos quilômetros de Belo Horizonte. Despertava minha curiosidade (leia-se: desconfiança) o fato de todos os relatos serem praticamente unânimes, carregados de elogios admirados. O último depoimento que ouvi antes de visitar imaginava que “o paraíso deve ser mais ou menos daquele jeito”.

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Foi com meu grande interesse por arte moderna e contemporânea (sobretudo a segunda), a resolução de conhecer o instituto ainda no começo do ano, a recomendação de amigos para não esquecer de levar traje de banho e a dica de reservar dois dias (e não apenas um) para a visita, que embarquei para Minas Gerais para passar um carnaval bem diferente daquele que fervia nas cidades históricas ali perto.

Era grande a excitação e o entusiasmo para conhecer aquela disneylândia da arte contemporânea (e eu estava animado como uma criança prestes a embarcar para os parques de Orlando) – assim como também era grande o medo de me decepcionar, tamanhas eram as expectativas. Fato é que voltei tão apaixonado pelo lugar que já estou me programando para voltar e levar meus pais, quando tiverem sido inauguradas as duas novas galerias que devem ser abertas esse ano.

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Inhotim é um imenso e impressionante jardim botânico (inspirado por Burle Marx), salpicado por galerias de arte (todas com uma arquitetura fabulosa) e por esculturas a céu aberto – de forma que não dá pra dizer que é um museu, está mais para um grande parque de arte contemporânea. As instalações e obras expostas impressionam pela qualidade e pela forma como surpreendentemente se integram com a arquitetura e com a natureza de uma forma harmônica, e ao visitar pode-se sempre contar com os monitores e funcionários sempre sorridentes, atenciosos e bem informados.

A vontade aqui é a de relatar a visita galeria a galeria, obra a obra, sensação por sensação – mas prefiro deixar a mais profunda recomendação: pegue um fim de semana, vá para Brumadinho e confira pessoalmente. É sério. Eu diria que é um dos lugares mais bonitos que já vi na vida, sem medo de estar exagerando (isso se não for o lugar mais bonito). Em vez de relatar a visita, deixo algumas dicas que foram valiosas para meus dois dias de visita:

  • Em um dia até dá pra passar por tudo, mas é corrido demais. Você já foi até lá pra visitar, não é? Então faça direito, sem precisar sair correndo de uma galeria a outra. Curta as obras, assista os filmes, ouça as sessões envolventes de áudio da Janet Cardiff, sente-se na grama e aprecie a paisagem entre uma galeria e outra.
  • Ao pegar o mapa, vá marcando o que você já viu, porque é muita coisa. Um funcionário me disse que se perder faz parte da fruição do espaço, mas você não vai querer correr o risco de deixar de ver alguma galeria ou obra bacana por desorganização, vai?
  • Ao dividir a visita em dois dias, pegue um deles para ir até as obras mais distantes (como as galerias Doug Aitken, Matthew Barney e Miguel Rio Branco, assim como as obras do Chris Burden) – para esse dia, recomendo pagar R$ 10 a mais para ter acesso aos carrinhos de golfe. Para o outro dia, dá pra conferir a pé todas as galerias e obra ao redor dos lagos, sem a necessidade de “carona”.
  • Leve traje de banho, você pode querer entrar em uma das Cosmococas do Hélio Oiticica (dica: eles oferecem toalha e vestiário, só precisa levar um traje adequado mesmo).

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Uma conquista

January 27th, 2012

Dia 26 de dezembro publiquei um post sobre o calvário que é ter que carregar uma bicicleta escadarias acima, por muitos andares, só porque o Metrô não deixa os ciclistas usarem as escadas rolantes. Desde então muita coisa aconteceu e merece ser registrada:

  • Enviei o link do texto para a Ouvidoria do Metrô, que prontamente me respondeu com um e-mail péssimo, inconclusivo e com erros de concordância. Basicamente dizia que bicicleta é um equipamento e que as escadas rolantes eram de uso exclusivo dos usuários.
  • Sem entender a relação entre uma informação e outra, e ainda na esperança de continuar sendo usuário (uma vez que, inclusive, eu pago passagem quando entro com a bicicleta), fiz uma reclamação via Twitter. Rapidamente responderam pedindo o número do protocolo.
  • Me ligaram da Ouvidoria, dessa vez pedindo desculpas pelo e-mail anterior, mostrando-se bastante abertos ao diálogo. Dei várias sugestões de possíveis saídas – como instalação de canaletas, liberação de uma única escada, liberação dos elevadores. A moça disse que me mandaria um e-mail e pediu para que eu respondesse com todas essas sugestões. Ela mandou, eu respondi.
  • Sabrina Duran, da Época SP, entrevistou Sérgio Avelleda, presidente do Metrô, que afirmou haver um estudo em andamento e que estaria aberto ao diálogo.
  • Nesse meio período, a Ciclo Liga, agrupamento de coletivos de ciclistas (entre esses o Coletivas, projeto do qual faço parte) preparou um vídeo ilustrativo desse cenário, juntamente com uma carta aberta ao presidente do Metrô, trazendo referências, ideias e proposições.
  • Além de enviar ao assessor do presidente, divulgamos essa carta nas redes e eu enviei também à Ouvidoria. Me ligaram no mesmo dia perguntando se eu topava ir lá pessoalmente bater um papo. A presidência do Metrô também se manifestou abrindo espaço para diálogo pessoalmente.
  • Anteontem, aniversário de São Paulo, a ViaQuatro, administradora da linha 4 – Amarela, liberou o uso das escadas rolantes pelos milhares de ciclistas que pegaram suas bicicletas novas em um megaevento promovido anualmente pudessem voltar para casa. Ao que consta, não ocorreram incidentes com as escadas.
  • Hoje no fim do dia chega a notícia de que a partir de sábado que vem, 4/2, Metrô, CPTM e ViaQuatro passarão a permitir o uso de bicicletas nas escadas rolantes nos trechos de subida (que são muito mais do que os de descida). A descida ainda rola no muque.

O que aprendemos com essa história?

  • Que com coerência, espírito propositivo e de diálogo, é possível conquistar coisas. Parabéns, Ciclo Liga.
  • Que há pessoas e entidades dispostas a esse diálogo. Parabéns, Metrô, CPTM e ViaQuatro (e todas as instâncias envolvidas).
  • Que com vontade política (ou ausência de má-vontade), pequenas atitudes podem beneficiar muitos.
  • Que há mudanças em que ninguém sai perdendo.
  • Que quem acha que órgãos públicos a priori são piores ou menos ágeis que órgãos privados pode morder a língua agora.
  • Que essa articulação civil da Ciclo Liga pode ter tido grande influência sobre essa decisão, mas que não é menos importante do que os esforços de todos os ciclistas que já reclamaram anteriormente pelas vias oficiais ou dos funcionários do Metrô que contribuíram para esse parecer. Parabéns pra essa galera também.
  • Que é bizarro ver sua própria panturrilha num vídeo.

Agora é fazer uso adequado das escadas para que o caráter de teste se torne definitivo. Parabéns e obrigado aos envolvidos!

Dois documentários para entender São Paulo

January 2nd, 2012

Feliz ano novo!

Malhação no Metrô

December 26th, 2011

Metro

Contexto: Natal, família, essa coisa toda. Como em várias outras vezes, ontem fui para a casa dos meus pais de bicicleta (pouco mais de 20Km). Perto da casa deles, tive um problema com a corrente, que rompeu-se. Na impossibilidade de voltar pedalando, hoje trouxe a bicicleta pra casa de metrô – como faço muitas vezes quando está tarde, ou estou muito cansado.

Meu trajeto: meu pai me deixou na estação Artur Alvim (Linha 3 – Vermelha), e eu moro a 2 quadras da estação Consolação (Linha 2 – Verde). Para ir do ponto A ao ponto B, tenho de fazer baldeação na estação República e pegar a moderníssima (e privatizadíssima) Linha 4 – Amarela. Desço na estação Paulista, que é integrada com a estação Consolação, meu destino final.

A questão: Dos milhões de passageiros que diariamente veem a mensagem de que “aqui sua bicicleta é bem-vinda” (ai que lindo!), são poucos os que sentem na pele as restrições impostas pelas regras estabelecidas. Muitas são em função das próprias limitações da nossa frágil rede metroviária. Mas há outras que simplesmente dificultam absurdamente a integração do modal bicicleta + metrô, sem grandes justificativas.

A pior delas sem dúvida é a impossibilidade de trafegar nas escadas rolantes. Isso significa que ciclista tem que subir de escada fixa, tendo de levar a bike NA LOMBA, mesmo havendo formas mais práticas à disposição. Quem pega as cômodas escadas rolantes do metrô todo dia muitas vezes não percebe o perrengue que seria se essas escadas rolantes não existissem. Pois bem, no meu trajeto de hoje contei todos os degraus:

 

Artur Alvim

  • Subi 10 degraus para ter acesso à rampa
  • Desci 36 degraus para chegar à plataforma (descida é mais fácil, mas não muito)

República

  • Subi 71 degraus pra chegar à Linha Amarela

Paulista

  • Subi 23 degraus para sair da plataforma
  • Subi 19 degraus pra ter acesso à Linha Verde

Consolação

  • Subi 63 degruas pra chegar à linha de bloqueios
  • Subi 48 degraus para chegar à rua

 Total: 270 degraus

 

Para um efeito comparativo, ao chegar em casa contei quantos degraus tem cada andar do prédio onde moro (que tem um pé direito bem alto, por sinal). Cada andar tem 18 degraus. 270/18 = o equivalente a exatos 15 andares com a bicicleta nas costas.

Mas sua bicicleta é de alumínio, é levinha, não é? Sim, ela é de alumínio, mas pesa 16 Kg. Sem contar a bolsa que acoplo no bagageiro, que hoje pesava mais 7Kg. No total, são 23 Kg que mal se sentem quando equilibrados sobre duas rodas, mas que são terríveis quando se tem de tirar essas duas rodas do chão para subir 15 andares de um prédio.

Para uma comparação, 23 Kg é o limite de peso permitido por várias empresas aéreas para a bagagem despachada. Ou seja,15 andares carregando uma mala grande de viagem quando havia, em todas essas circunstâncias, mais de uma escada rolante à disposição. Desnecessário dizer que escrevo esse texto com dor nas costas.

O que os ciclistas fazem, hoje, frente a essa situação? Basicamente, ou se sujeitam a essa situação que chega a ser desnecessariamente humilhante, ou dão uma de joão-sem-braço e enfrentam as escadas rolantes, sempre com a iminência de receber uma advertência dos funcionários do metrô. Já ouvi as desculpas mais criativas que vários amigos dão aos seguranças quando eles são abordados.

Queria muito que o Metrô fosse igualmente criativo na busca por soluções. Que podem ser tão simples como abrir mão dessa regra, ou de definir uma escada rolante “bike friendly” em todos os trechos.

Ativismos

November 15th, 2011

Update: esse post estava armazenado há 4 meses como draft, rascunho em meu WordPress. Reli e achei uma pena não ter sido publicado, então publico agora. Detalhe engraçado: não me lembro exatamente qual foi a discussão que acarretou esse meu e-mail.

Tudo começou com uma discussão sobre gêneros em um grupo de emails de que participo. Comentários que geraram polêmica, reações imediatas e uma longa discussão acerca dos comentários e dessas consequentes reações. Uma prosa que iniciou-se inflamada com argumentos de igualdade de gêneros e de anti-sexismo, e que migrou para um contexto mais amplo.

Acho que essa introdução dá conta de esclarecer o ponto de partida para esse post. Não entrarei em mais detalhes porque não vou expor pessoas ou discussões que ocorrem em um âmbito (de certa forma) privado. O que quero expor aqui foi um texto que postei no meio desse furdunço, pois gostaria de ouvir as opiniões de gente que não faz parte do círculo a quem foi destinado originalmente esse e-mail que aqui transcrevo:

Sabem do que eu mais gosto na bicicletada? A diversidade a que ela se propõe. Por mais que a lista reflita um pouco menos essa diversidade do que o evento das sextas-feiras em si, é uma diversidade que me interessa sobretudo porque se engaja em prol de uma causa com a qual eu me identifico. Gosto da definição da “coincidência organizada”, que é o que define a massa crítica em sua forma. Mas do ponto de vista das idéias, mais do que uma coincidência, acaba rolando também uma convergência de pensamentos que apontam para uma mesma direção, para muito além da causa da bicicleta.

Essa discussão de gêneros reflete isso. Porque a luta por uma cidade com mais respeito e espaço às bicicletas é reflexo de um modelo econômico e político opressor pra caralho, e que não oprime apenas os ciclistas. Oprimem tudo o que vai contra essa hegemonia que transcende as dimensões sociais, políticas e econômicas. E contra essa opressão, surgem os mais diversos movimentos contra-hegemônicos que, apesar de fragmentados em causas diferentes (bicicletas, feminismo, movimento negro, diversidade sexual, habitação, direito à terra, meio ambiente, proteção animal, vegetarianismo, legalização das drogas, direitos humanos, software livre, transparência política), todos lutam por uma sociedade mais justa e humana. Por isso foi tão linda a Marcha pela Liberdade que rolou há pouco na Paulista, porque não era um movimento de partidos políticos, não era um encontro de gente que lutava por uma única causa isolada, mas um monte de movimentos que se juntaram autonomamente para unir vozes numa mesma direção. E a bicicletada estava lá, claro, e foi emocionante pra caralho descer a Consolação de bike, furando o cordão de isolamento que a polícia havia estabelecido, com os gritos de aprovação da galera que estava concentrada pra dentro do cercadinho militar.

Uma vez uma amiga comentava sobre pessoas que não se conhecem por acaso. É raro você ficar amigo de alguém porque passou pela pessoa na rua e disse “oi, gostei de você, quer ser meu amigo?”. Mas é mais fácil se aproximar de alguém que tem alguma crença, algum gosto, alguma característica em comum. Não à toa, quando comecei a classificar amigos nos círculos do Google+, percebi que tem vários que estão em vários círculos diferentes ao mesmo tempo, e que nenhum deles eu conheci aleatoriamente. Também não foi à toa que a bicicletada já rendeu amizades incríveis (inclusive gente que não mora no Brasil, e que só nos esbarramos graças à bicicleta).

O que quero dizer é que essa lista traz mais do que apenas contatos de gente interessada em pedalar pela cidade. Enxergo a bicicletada como um ponto de encontro pra pessoas que usam (conscientemente ou não) a bicicleta como sua principal arma de luta política. Leve, elegante, divertida, não-poluente, simpática, fluída, que pode ser usada para lazer – mas não deixa de ser uma arma poderosa. E esse é o denominador comum dessa nossa livre associação de indivíduos chamada de bicicletada. Mas serve de ponto de partida para encontrar, nesse mesmo meio, muita gente que projeta para outros âmbitos esse mesmo espírito livre e de igualdade que esperamos nas nossas ruas.

Por isso acho tão fundamental que essa discussão ocorra. Não como forma de repressão ao pensamento X ou Y, mas como forma de debate, de discussão de idéias. Assim como curto quando vejo discussões que fujam do tema “bicicleta”, acho importante quando há a insistência em debater SIM um assunto ou outro, ainda que sempre haja alegações de fugir do tema, os “zzzzzz”, os “foda-se” e os “caguei”. Discute-se tanta coisa de tão menos importância por aqui, acho fundamental que também destine-se tempo e energia para discutir assuntos como esse, e fico feliz quando acontece. (…)

Enfim, enquanto nessa lista houver espaço e disposição para prolongar, sim, debates como esse, com argumentações, exposições de pontos de vista, dá gosto de continuar acompanhando a prosa. A partir do momento em que o assunto se pasteurizar só no “menos carros, mais bicicletas”, sem agregar nada além disso, será o momento de cair fora dessa lista… talvez encontrando eventualmente as pessoas legais que essa lista me permitiu conhecer.

Cortázar e as bicicletas

October 18th, 2011

Paris 2011

Vietato Introdurre Biciclette

Nos bancos e nas casas de comércio deste mundo ninguém se incomoda a mínima que alguém entre com um repolho debaixo do braço, ou com um tucano, ou soltando da boca como um barbantinho as canções que minha mãe ensinou, ou trazendo pela mão um chipanzé com uma camiseta listrada. Mas basta uma pessoa entrar com uma bicicleta para que seja expulso com violência para a rua enquanto o proprietário recebe advertências violentas dos empregados da casa.

Para uma bicicleta, ser dócil e de comportamento modesto, constitui uma humilhação e um escárnio a presença de cartazes que a fazem parar, altivos, diante das belas portas de vidro da cidade. Sabe-se que as bicicletas procuram por todos os meios modificar sua triste condição social. Mas absolutamente em todos os países da terra é proibido entrar com bicicletas. Alguns acrescentam: “e cachorros”, o que duplica nas bicicletas e nos cães seu complexo de inferioridade. Um gato, uma lebre, uma tartaruga podem em princípio entrar na casa Bunge & Born ou nos escritórios dos advogados da Rua San Martín sem provocar mais do que uma surpresa, grande deslumbramento entre telefonistas ansiosas, ou no máximo uma ordem ao porteiro para que ponha na rua os mencionados animais. Isto pode acontecer mas não é humilhante, primeiro porque só representa uma probabilidade entre muitas, e depois porque nasce como efeito de uma causa e não de uma fria maquinação preestabelecida, horrendamente impressa em chapas de bronze ou de esmalte, tábuas de lei inexorável que esmagam a simples espontaneidade das bicicletas, criaturas inocentes.

De qualquer maneira, cuidado, gerentes! Também as rosas são ingênuas e doces, mas talvez vocês saibam que numa guerra de duas rosas morreram príncipes que eram como raios negros, cegados por pétalas de sangue. Não vá acontecer que as bicicletas amanheçam um dia cobertas de espinhos, que as hastes de seus guidões cresçam e ataquem, que encouraçadas de furor elas arremetam em legião contra as vitrines das companhias de seguros e que o dia aziago se encerre com uma baixa geral de ações, com um luto de vinte e quatro horas, com pêsames mandados em cartões.

Júlio Cortázar, História de Cronópios e de Famas

Sem os carros

July 3rd, 2011

A avenida fica tão mais interessante…

Skate

Pulo

Os olhos dos outros

June 30th, 2011

Acabo de ler alguns textos de um texano que inesperadamente descobriu que São Paulo é a cidade onde ele queria viver. Conheço alguns franceses que fizeram a mesma escolha, e inclusive semana passada um deles comentava sobre o quanto é desagradável ficar justificando suas razões aos brasileiros incrédulos com sua atitude de sair da França para viver por aqui. Ao ler o blog do americano, fiquei fascinado com a descrição que ele fez da cidade – parcial e apaixonada, sem deixar de ser precisa e crítica. Talvez se eu lesse esse texto sem morar aqui ou sem conhecer a cidade descrita, faria questão absoluta de conhecer e fazer um enorme esforço para também me mudar para lá.

O que mais me impressionou foi a riqueza de detalhes, da minúcia das constatações do olhar estrangeiro para falar da comida, das pessoas, do caos urbano, da desigualdade, dos ritmos, da arquitetura, da concepção do espaço público, das contradições, do contraste. Claro que aponta para características que estamos cansados de conhecer, mas traz também um olhar de ineditismo que desperta a atenção para detalhes que nós, de tão acostumados, ignoramos. Me impressiona toda vez que alguém de fora daqui me mostra algo que eu não sabia sobre minha própria cidade, me traz algum dado novo sobre um edifício, um bairro, um estilo musical já conhecidos daqui. Me impressiona, por exemplo, ler alguém descrevendo a cidade como uma provável capital mundial do graffiti e da arte de rua, que aqui é cheia de personalidade e que está por toda parte, apesar de estar bem longe de todo seu potencial. Me impressiona ver alguém constatando, com olhar de novidade, sobre nossos hábitos sociais que não reparamos porque, né, nos são naturais desde sempre.

Eu, que adoro essa cidade e sou um grande observador de seus espaços, fico espantado quando esse tipo de coisa acontece, sinto-me um impostor. Daí me lembro que com a diversidade e as dimensões dessa cidade, por mais especialista que uma pessoa possa ser, sempre haverá a sensação de que a cidade é infinitamente maior do que seu conhecimento sobre ela. Porque é mesmo, e isso é fascinante.

Na época da faculdade, quando eu trabalhava no estúdio fotográfico de lá, surgiu a ideia de experimentar sair como um turista em minha própria cidade. Ir a locais que não costumamos visitar por morarmos aqui, visitar museus, parques, igrejas, edifícios que são importantes ou iconográficos para a identidade e história da cidade – e pesquisar sobre, buscar informações que não nos interessariam simplesmente porque não trazem nenhuma novidade prática para nosso dia a dia. Descobrir lugares com o mesmo afinco e interesse que procuramos descobrir quando viajamos para outro país, outra cultura.

Semana passada passei uma tarde inteira caminhando por um bairro pelo qual costumo somente passar e ir nos mesmos lugares e me espantei com a diversidade de coisas que existem por ali, e que nunca parei para observar porque tinha outros objetivos, tinha mais o que fazer.

Isso tudo me dá uma vontade imensa de retomar a antiga ideia de olhar para a cidade com os olhos dos outros.

Diários de Bicicleta, Parte 4: Da bicicletada do pequeno Artur

March 4th, 2011

Hoje tinha um garoto de 8 anos de idade pedalando uma pequena bicicleta no meio da Avenida Paulista, entre ônibus, carros e motos. Com um capacete que quase escondia seus olhos assustados e uma capa de chuva que vez ou outra enroscava em sua corrente (chovia o tempo todo), ele foi pedalando da esquina da Paulista com a Consolação até a alameda Campinas e voltou, também pedalando, também no meio da rua.

Acompanhando (e protegendo) o pequeno Artur, um grupo de uns 20 e poucos ciclistas que estavam ali para uma concentração simbólica que ocorria simultaneamente em várias cidades do continente. O pai de Artur decidiu levá-lo à bicicletada que ocorria exatamente uma semana após um assassino atentar contra a vida de dezenas de ciclistas em Porto Alegre, em uma manifestação política similar àquela de que o garoto participava hoje (talvez sem ter consciência disso). “Ele precisa sentir o que é isso aqui”, dizia o pai que o escoltava por todo o caminho, com a ajuda dos demais.

Quase todo mundo que eu conheço certamente chamaria aquele pai de louco, irresponsável, inconsequente. Eu, até pouco tempo atrás, diria a mesma coisa. Acharia um absurdo ver uma criança tão pequena, ainda ziguezagueando com o guidão, se esforçando pra manter o equilíbrio na segunda faixa da Paulista, entre a faixa de ônibus e uma faixa com carros que, apesar estarem com o trânsito livre, faziam questão de passar buzinando ou xingando.

Os ciclistas de Porto Alegre não estavam passeando, estavam participando de um movimento mundial chamado Massa Crítica (que traduzimos aqui para “bicicletada”, embora também haja patins, patinetes, skates e pedestres participando sempre). Trata-se, basicamente, de um movimento que reivindica o uso público do espaço público, a apropriação do espaço das ruas pela multidão que, ao mesmo tempo, é todo mundo e não se materializa como ninguém em específico. Isso acontece uma vez por mês, na última sexta-feira, e não tem trajeto predefinido, tampouco liderança. Isso para os olhos racionais e burocráticos de quem enfrenta hierarquias e o mundo da ordem, do controle e da disciplina diariamente pode soar surreal e utópico. Em termos políticos, eu definiria o encontro como uma “livre associação de pessoas sem a intermediação de mecanismos formais do capital”.

Aquele pai não estava levando seus filhos de oito e dez anos pra um passeio de bicicleta numa noite de chuva pelo meio de uma avenida movimentadíssima, mas dando a eles uma lição de política (ainda que subliminar). Estava mostrando a seus filhos que existe uma outra forma de se movimentar pela cidade além do carro que os levou até a Praça do Ciclista, mostrando pra eles que tem um monte de gente legal que também faz isso, que fica feliz por vê-lo ali, que ajuda a protegê-lo para que nada de ruim aconteça com ele. Na verdade, fica mais claro que proteção não precisa ser somente aquela promovida por seguranças, carros blindados e ambientes privados de esterilidade controlada. Espero que aquele molequinho cresça com mais e mais exemplos de que, se ele mora no meio da cidade, é a cidade que deve protegê-lo. E por isso, ele precisa estar NO MEIO dessa cidade, vivendo sua realidade – e não fugindo dela. Também precisa saber que é importante lutar para garantir que a cidade seja cada vez mais aberta à pluralidade – pois é isso que faz com que ela seja mais interessante e ofereça menos perigos.

Espero que o mini-ciclista cresça com a consciência de que, mesmo que ele tenha um carro, isso não garante qualquer supremacia a ele sobre qualquer outra forma de transporte. Espero que ele saiba que o IPVA não é pago para bancar a infra-estrutura viária, muito menos para garantir privilégios privados bancados pela máquina pública a quem o paga – na verdade é o contrário, é um imposto que se paga para compensar o transtorno causado por um bem individual ao espaço público, e que vai (ou deveria ir) diretamente ao cofre público sem qualquer predestinação de retorno exclusivo a quem pagou. Tomara que ele saiba a diferença entre o que é privado (logo, o que ele paga para ter um benefício exclusivo em retorno), e o que é público (o que ele paga para gerar caixa para a cidade, que aplica esse dinheiro de forma que beneficie igualmente a todos os contribuintes, e não somente aqueles que pagam mais).

Na verdade, tomara que ele encontre daqui pra frente governos que assumam essa postura mais democrática, de responder a interesses da sociedade como um todo, e não apenas aos interesses privados de uma elite (se em seus oito anos de vida ele sempre viveu em São Paulo, ele definitivamente ainda não viu isso acontecendo). Tomara que daqui a 10 anos seu pai possa lhe contar essa história de sua primeira bicicletada como uma curiosidade, de uma época em que São Paulo vivia o auge de sua crise estrutural, mas que ele, ainda pequeno, participou de uma forma de resistência que daqui a dez anos não será mais necessária. Tomara que Artur ande de bicicleta todos os dias se quiser, ande a pé se quiser, ande de carro se quiser. Mas que saiba que sua escolha não deve, de forma alguma, oferecer uma ameaça à segurança e ao direito ao espaço público das demais pessoas. Tomara que Artur não seja visto como um excêntrico se não quiser obedecer a um pensamento hegemônico que prejudique todos a seu redor e a si próprio em nome de uma falsa sensação de segurança e bem estar (e que na verdade só aumenta a insegurança, a intolerância, o sedentarismo e o estresse).

Mais que isso, tomara que Artur não tenha acesso a tudo isso só porque ele é o Artur, garoto possivelmente de classe média que morava na vila Mariana quando criança e que teve acesso a tudo que seu pai pôde lhe oferecer – mas porque ele é uma pessoa como qualquer outra, um anônimo que se beneficia de todas as vantagens de uma cidade mais humana, que é agradável e justa a todos, independente de qualquer aspecto social, político ou econômico. É por essa cidade mais humana e mais igualitária que é preciso resistir, ainda que de forma quixotesca, utópica, desorganizada, barulhenta e divertida. Por isso que faz tanto sentido fazer parte hoje dessa massa disforme e heterogênea que, ao menos uma vez por mês, vai às ruas questionar o porquê de tão poucas pessoas autoritariamente se autoproclamarem mais merecedoras de um bem público do que outras. Ainda que, vez ou outra, essa afronta seja respondida com atos de barbárie que evidenciam uma sociedade em colapso.

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Cortázar. De novo.

January 22nd, 2011

Dessa vez não é ficção, é um texto de 1976 em que ele comenta sobre como é morar na França, tirado do livro Papéis Inesperados – compilado de fragmentos inéditos do escritor, encontrados em 2006 em seu apartamento em Paris por sua viúva.

(…) Neste país e em qualquer outro país, a execução legal não é um ato de justiça e sim de medo. Não do executado, é claro, mas de qualquer disrupção que comece para além da porta da rua; medo do vizinho, medo de tudo aquilo que vive e que se agita na cidade e no país e no mundo. Um medo que quase sempre se ignora como medo e que se manifesta no plano consciente como vontade de ordem, de disciplina, de respeito a valores axiomáticos. O homem é o lobo do homem, e o homem tem medo do lobo e seu medo o leva a ser lobo, leva-o a uivar em francês ou em italiano ou em espanhol e a reivindicar com perfeita racionalidade, com total sujeição às leis e aos direitos humanos, que um assassino seja decapitado ou enforcado para que essa noite a cidade durma mais tranquila, mais segura, mais fascista. (…)

- Julio Cortázar

Buenos Aires

December 26th, 2010

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Como muitos amigos vivem pedindo sugestões do que fazer em Buenos Aires, e toda vez tenho de vasculhar meus e-mails em busca das dicas que já dei a outros amigos, decidi organizar tudo num post pra facilitar a vida de todos, principalmente a minha toda vez que me pedem esse material.

Claro que essa lista é bastante pessoal e tem um viés bastante turístico, afinal todas as vezes que fui pra lá não tinha nenhum outro objetivo que não fosse passear pela cidade. No entanto, como conheço muita gente que foi pra lá num esquema city-tour e detestou a cidade, resolvi juntar num documento só os motivos pelos quais gosto tanto de lá. Afinal, Buenos Aires é mais uma cidade “slow travel” do que uma cidade “city-tour” – na verdade, acho que qualquer cidade no mundo é assim, mas enfim.

Antes de qualquer coisa, respondo definitivamente à pergunta que sempre ouço: por que diabos eu gosto tanto daquela cidade? Afinal, com tanto lugar pra conhecer no mundo, acabo dando um jeito de sempre passar pelo menos uma semaninha por ano na capital portenha, e só de revisar essas dicas todas já dá vontade de pesquisar preços de passagens pra ir pra lá novamente.

Update em 25/2/11: Ops! Fui pra lá de novo, num bate-volta de fim de semana. Os comentários em vermelho são um update do post original. Há novas fotos ao longo do post também.

Sunset

Pois bem, a maioria dos amigos sabe o quanto eu gosto de urbanismo, de observar a forma como as cidades se auto-organizam e a forma como as pessoas lidam com o espaço público – e Buenos Aires tem uma pulsação especial nesse sentido, de uma cidade que preserva sua identidade cultural e histórica e que, ao mesmo tempo, cada vez parece mais plural e moderna (nesse aspecto, a impressão que me dá com relação a São Paulo é que a prefeitura – sobretudo as últimas gestões – está louca para desligar os aparelhos deixar a cidade em coma).

Uma boa definição de Buenos Aires é a descrita por Thiago Benicchio:

(…)

Buenos Aires é uma cidade de arquitetura racional. Prédios de poucos andares cuja fachada dá direto para a rua, quase todos com varandas, quase nenhum com quadras, piscinas, playgrounds ou bosques particulares que desperdiçam o espaço urbano e espalham a cidade.

Nas ruas largas, as calçadas também são espaçosas e geralmente tem cinco metros de largura ou mais. A capital argentina tem centenas de praças e parques, cheios de bancos, gramados, áreas verdes, monumentos e brinquedos para crianças.

Taxis baratos (e velhos) circulam por toda a cidade, que foi também a primeira da América do Sul a construir uma linha de metrô.

Em uma recente viagem ao Chile, fiquei impressionado com a quantidade e com a qualidade dos espaços públicos de Santiago: todos bem cuidados e cheios de gente.

O chileno Claudio, do Arriba e’la Chancha, ficou surpreso com a minha admiração e retrucou: “Você está enganado: aqui as classes altas estão se encastelando em condomínios fechados, fugindo do centro, criando distâncias e abandonando a cidade, estabelecendo um clima de segregação e medo. Espaços públicos abundantes, bem cuidados e cheios de gente você vai encontrar em Buenos Aires”.

(…)

Calle

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À primeira vista, ali tem muita coisa que costuma nos deslumbrar quando vamos a cidades “desenvolvidas” (organizada, bonita, arborizada, com um enorme senso de preservação de seus edifícios e sua história, praças enormes com gramados, restaurantes, cafés, sorveterias e bares todos com mesas nas calçadas, etc). Ao mesmo tempo e contraditoriamente, os problemas sociais e econômicos do país o tempo todo aparecem para nos lembrar que estamos em um país de terceiro mundo sim, senhor. Para mim esse contraste, além de sufocar qualquer deslumbramento, ajuda a lembrar que uma cidade grande e caótica de terceiro mundo pode, sim, ser muito mais humana do que a São Paulo que conhecemos.

Mas então, o que fazer por lá?

Se você for o estilo turistão (daqueles que pulam de ponto turístico em ponto turístico sem saber sequer o nome do bairro onde cada um fica), bom, melhor procurar um guia ou um pacote de agência de viagem, não sei se conseguirei ajudar muito, não tenho dica dos melhores outlets da cidade (talvez a Vejinha tenha). Na verdade, eu sugeriria até pra procurar outra cidade pra conhecer, porque o mais legal de Buenos Aires definitivamente não é o eixo Casa Rosada – Obelisco – Caminito.

A primeira dica que dou é ir com tempo. Muita gente diz que 4 dias é um tempo bom pra conhecer Buenos Aires, mas isso é suficiente apenas para conhecer um pot-pourri do que é a cidade. Não que a cidade seja tão grande assim, mas sobretudo porque o tempo lá é diferente. É uma cidade que, além de acordar tarde, dormir tarde e funcionar mais tarde que o padrão (dificilmente se encontra um restaurante aberto antes das 9 da noite por lá), estimula um uso diferente de seus espaços. É comum que as pessoas fiquem horas dentro de um café conversando ou lendo um livro – e por isso mesmo há tantos cafés e mesinhas nas calçadas e praças.

Osos

Por falar nas calçadas e praças, o mais comum é ver, no meio de um dia comum, as pessoas sentadas, deitadas, tomando sol, passeando com o cachorro. Lá as praças têm gramados e bancos e estão à disposição das pessoas – que usam esse espaço. Parece óbvio, mas basta olhar para as praças de São Paulo para ver que, enquanto lá o espaço público é um espaço de todo mundo, que está ali para ser usado, por aqui o espaço público é terra de ninguém, de passagem, onde ninguém quer estar e não faz questão alguma de permanecer. Em Buenos Aires é muito comum, por exemplo, ver um engravatado deitado em um gramado ou num banco no meio da semana, em plena hora do almoço, fazendo uma siesta rápida antes de voltar para o batente.

Nap Time

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Falo tudo isso porque deitar num gramado para tomar sol é uma coisa que nunca aparece num roteiro-turistada de 3 dias, mas é algo que realmente recomendo que seja feito naquela cidade, de preferência pra despressurizar a correria de viagem e se acostumar com os aires portenhos.

(Desta última vez que estive lá, uma de minhas praças preferidas, a Plaza Palermo Viejo estava mais uma vez lotada de gente. Crianças no playground, velhinhos, casais namorando, gente dando comida aos pombos, pessoas passeando com os cachorros (que, naquela cidade, são invariavelmente imensos). Tudo estava lindo como todas as vezes que visito a praça, a não ser pela presença daquela marca de iogurte dos gases e acúmulo intestinal fazendo poluição visual e sonora com um imenso balão inflável enfeiando o espaço público.)

Tá, mas então o que fazer por lá tanto tempo?

Se eu tivesse que resumir a duas coisas, responderia: caminhar pelas ruas e comer. Muito. No meu caso, caminhar pelas ruas envolve também fotografar (todas as fotos desse post ilustram bem isso, hehe), e da próxima vez que for pra lá, levo alguma de minhas bicicletas, porque a cidade é toda plana e convida muito a dar uma volta – ainda que o trânsito não pareça muito diferente do de São Paulo (mas a esse eu já estou acostumado) (#FAIL, não levei a bicicleta dessa vez, e fiquei um fim de semana inteiro morrendo de vontade de pedalar). Mais abaixo comento um pouco sobre os bairros principais da cidade – e por onde dar uma paradinha.

Buenos Aires

Transporte

Se locomover por lá é algo muito simples, com os quarteirões quadradinhos e com numeração regular (cada quadra tem exatamente 100 números, ou seja, para ir do número 400 ao 900, andam-se exatamente 5 quadras), com os taxis baratos e abundantes (sempre dê como referência a esquina mais próxima, por exemplo: Azcuénaga y Beruti, ou Pueyrredón y Santa Fé). Ônibus funcionam a noite toda, as linhas são muito bem distribuídas pela cidade (lembre-se de comprar um Multiguía em alguma banca de jornal), e o Subte, como eles chamam o metrô, apesar de velho e sujo, é eficiente e ridiculamente barato (1,10 peso, ou 55 centavos de real das últimas vezes em que estive lá). Vale dar uma volta na linha do metrô sob a Av. de Mayo, que é a linha mais antiga da América do Sul (da década de 20 – para se ter uma ideia, o metrô em São Paulo começou a funcionar só na década de 70) e por onde ainda circulam trens de madeira.

Mujeres de Agüero

Pink Subte

Old Subte

San Telmo

San Telmo

Talvez o bairro mais legal, é a área boêmia da cidade, onde a bebedeira começa meio tarde, mas vai longe, com as pessoas migrando de bar em bar atrás do que fazer nos estabelecimentos que têm como epicentro a plaza Dorrego. Durante o dia, a principal atração são os antiquários e a arquitetura daquelas ruas de paralelepípedo que (felizmente) parecem ter parado no tempo, e aos domingos rola a tradicional feira de San Telmo, na própria plaza Dorrego. Mas quem caminhar pelo pequenino bairro com mais calma encontra pequenas preciosidades, como restaurantes descolados, livrarias de arte, lojas de design e, claro, a estátua da Mafalda (recém-inaugurada, é clichê mas é sensacional, ali sentadinha em frente à casa onde Quino a criou).

San Telmo

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San Telmo

San Telmo

Ano passado, num impulso de me perder por San Telmo atrás de novos lugares para explorar, descobri uma livraria descoladinha especializada em livros de arte (onde acabei gastando uma bela duma grana com edições que eu só encontraria ali) e, logo ao lado, um restaurante simpático onde comi um delicioso frango ao malbec por um preço ridiculamente barato no almuerzo ejecutivo. Putíssimo por não ter anotado o nome do local ou ao menos a rua, para poder voltar e indicar aos amigos, dessa vez encontrei novamente tais estabelecimentos e anotei nome e endereço. Trata-se da livraria Asunto Impreso (Peru 1064) e do simpático Las Mazorcas Bistro (Peru 1024).

Palermo

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Meu segundo bairro preferido, este é imenso. Possui uma infinidade de parques, jardins e praças, mas o mais legal é a região do Palermo Viejo (que alguns frescos gostam de chamar de Palermo Soho ou Palermo Hollywood – update: Palermo Hollywood fica do outro lado da linha do trem e é igualzinho ao Soho – só que em vez de lojas de roupas, tem baladas, bares e restaurantes), que certamente foi um dos motivos por Buenos Aires ter entrado no circuito internacional do design. Ruas de paralelepípedo e casas das décadas de 30 e 40 abrigam ateliês, lojas de roupas, design e decoração – tanto de criadores locais como de grifes internacionais. Aos fins de semana rola a feira ao redor da plazoleta Cortázar (que os locais conhecem como plaza Serrano, nome antigo da praça) – e há uma porção de lojas coletivas de jovens estilistas locais vendendo roupas muito legais a preços realmente bons. Recomendo ainda passar na Papelera Palermo, na calle Honduras. É uma papelaria que vende… papel. Livros, cadernos, presentes, todos artesanais. Toda vez que vou lá saio carregado de coisas.

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(Update: da outra vez só fotografei a placa, mas dessa vez recomendo entrar nessa Paul French Gallery. Loja mega legal de artigos de decoração, nos fundos de um corredor.)

Palermo

Palermo Soho

Palermo Viejo

Recoleta

É um dos bairros tradicionais de classe média-alta da cidade, uma espécie de Leblon ou Higienópolis portenhos. Foi fundado quando a elite fugiu da peste que dizimava a galera em San Telmo (muito semelhante com o que ocorreu com a região do Bixiga em São Paulo, com a turma rica fugindo e ocupando o Higienópolis – aliás, há muita semelhança entre San Telmo e o Bixiga). Fato é que se Manuel Carlos fizesse novelas argentinas, certamente aconteceriam na Recoleta, com as ruas arborizadas, as senhorinhas laqueadas, dos paseoperros passeando com uma dúzia de cachorros imensos cada, dos cafés por toda parte. Foi ali onde fiquei todas as vezes que fui pra lá, nas imediações da Santa Fé com a Pueyrredón. Das próximas vezes, pretendo ficar mais em San Telmo ou Palermo. Na verdade, da próxima vez não quero sair desses dois bairros. (#FAIL, fiquei na Recoleta de novo. Como levei meu pai para conhecer a cidade, preferi ficar em uma região que eu já sabia que seria legal.)

Recoleta

Recoleta

Puerto Madero

Com 20 anos de existência, é o bairro mais novo e caro da cidade, único pedaço com prédios modernos e espelhados – vai desde o canal onde antes funcionava o antigo porto, até um pouco além, onde antes era um imenso aterro de lixo. O canal me parece uma tentativa frustrada de ser tipo o bankside do Tâmisa – se for isso mesmo, não deu muito certo, e acaba parecendo mais uma coisa meio Brooklin/Vila Olímpia, só que mais bonito. Além de passear pelo canal, um bom programa ali é comer uma boa carne nos restaurantes ao redor – mas prepare-se pa pagar preço pra turista, caríssimo (para os padrões portenhos, nada de exorbitante para os padrões paulistanos).

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Ventanas y una chica

Plaza de Mayo e Avenida de Mayo

Av. de Mayo -->

Toda a parte “turístico-histórica” da cidade fica relativamente concentrada próxima a essa praça, onde fica a casa rosada (tem um tour gratuito de hora em hora, mas é chato), a catedral, o banco central e os protestos políticos (sempre vai ter algum furdunço rolando, seja do protesto das mães da Plaza de Mayo, seja o acampamento dos mutilados da guerra das Malvinas, seja algum protesto da ocasião – da última vez que fui, a polêmica da vez era a votação do casamento gay).

Protest

Dali daquela praça segue a Avenida de Mayo, que liga o palácio do governo ao congresso, e há quem diga que é a avenida mais francesa fora da França. Essa avenida é o eixo principal da cidade, notem que é a partir dela que os bairros se dividem no mapa. Recomendo passear com calma por ela, de ponta a ponta, porque é realmente muito bonita e cheia de marcos importantes da cidade, como o edifício Barolo e o café Tortoni (pico máximo da turistada na cidade, se quiser pagar caríssimo e em dólares pra ver gente dançando tango, esse é o lugar. Eu sempre passo longe – é Hopi Hari demais pra mim, e se é pra ouvir tango, continue lendo que tenho uma dica muito melhor).

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Barolo

Congreso

Malba

Buenos Aires

Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires, é definitivamente o meu lugar preferido na cidade. Um museu pequeno, moderno, sem cara de mausoléu. Abriga a coleção particular de arte latina do século XX de Eduardo Costantini, o homem mais rico da Argentina (e, olhe só, dono do museu). Tudo ali vale a pena, desde a coleção permanente (que inclui, por exemplo, o Abaporu de Tarsila do Amaral); as exposições temporárias, sempre muito legais; a livraria especializada em livros de arte; a lojinha com bugigangas descoladas (desde souvernirs do museu até câmeras Lomo – aquelas soviéticas de plástico feitas na China); o café-restaurante e a programação fenomenal de cinema, que é sempre de dar água na boca. Dica: estudante entra de graça no museu, só apresentar carteirinha. Saindo dali, recomendo dar uma volta pelos bosques de Palermo.

MALBA

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MALBA

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El Ateneo Grand Splendid

El Ateneo Grand Splendid

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Considerada uma das livrarias mais bonitas do mundo, na Av. Santa Fé, essa filial da rede El Ateneo foi construída onde antes funcionava o teatro Grand Splendid. As cadeiras deram lugar às estantes e o palco abriga o café da livraria. Apesar de ser imensa, todas as vezes que fui lá, não encontrei os livros que buscava – mas lá a atração maior é outra, os livros parecem ser mero pretexto (na verdade, livraria é o que mais tem nas ruas daquela cidade). Há vários teatros nos mesmos moldes do Grand Splendid que ainda funcionam na cidade, como o Gran Rex – onde acontecem grandes shows musicais.

Club Atlético Fernández Fierro

Da última vez que fui, coincidiu de rolar um show da Orquesta Típica Fernández Fierro em sua casa. Só achei o lugar graças à numeração infalível das ruas – e ao chegar à única alma viva parada na rua e perguntar, timidamente, “Fernández Fierro?”, o cara abre o portão, indicando um corredor enorme e dizendo “bienvenidos al Club Atlético Fernández Fierro”. Bom, “club atlético” é como a banda, independente e auto-gerida, chama sua casa de shows num grande galpão no miolo de um quarteirão residencial, se não me engano, no bairro de Almagro.

Já havia visto o Fernández Fierro em São Paulo, mas vê-los tocando em casa dá uma dimensão totalmente diferente para o trabalho da banda (afinal o Auditório Ibirapuera é o lugar perfeito pra descaracterizar qualquer atração com sua arquitetura imponente, mas equivocada e caduca). Enfim, é uma orquestra completa (com 4 bandoneóns, 3 violinos, 1 viola, 1 violoncelo, 1 contrabaixo, 1 piano e 1 vocalista) que toca tangos clássicos e contemporâneos – mas com um detalhe: todos eles têm entre seus 20 ou 30 e poucos anos e assumem uma estética e uma postura totalmente diferente do que se imagina de uma “orquestra típica” de tango. E o som deles é FENOMENAL. Esse vídeo é de arrepiar:

Freddo

Rede de sorveterias espalhada pela cidade toda. O de dulce de leche granizado é o sorvete mais fantástico que já tomei na vida, sempre que vou a Buenos Aires tomo um desses todos os dias. Enfim, não tem muito como descrever, tem que tomar.

El Sanjuanino

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É um restaurante de empanadas, com três lojas na cidade – e pra mim aquele aquele é o sabor de Buenos Aires. Não se assuste com o ambiente escuro e o aspecto meio estranho do lugar (ao menos o da loja da Sánchez de Bustamante, com mais de 50 anos), as empanadas dali são fenomenais (minhas preferidas são a de cebola e queijo e a de frango).

Alfajores

Havanna é bom, mas é caro. Recomendo dar uma volta num supermercado, há muitas outras marcas. Dica: O Jorgito de dulce de leche é igualzinho ao Havanna, só que com o que você paga por 1 Havanna você compra uma bandeja com 6 Jorgitos no mercado (o Jorgito de mousse é ruim, fica a dica). Em compensação, na Havanna tem uma coisa que vale a pena (e muito): Havannets, uma espécie de dan-top com doce de leite em vez de marshmallow.

Medialunas

Croissants adocicados, com presunto e queijo (jamón y queso), são o café da manhã perfeito de Buenos Aires. Dá água na boca de pensar neles. O que mais gosto é o do café Martinez (uma rede que tem por toda a cidade, que equivaleria ao Fran’s Café daqui). (Curiosidade: “croissant”, em francês, refere-se à lua crescente devido ao seu formato. Logo, faz sentido que os croissants na Argentina chamem-se “medialunas” ou “meia-lua”.)

Doce de Leite

Doce de leite argentino é, via de regra, muito mais gostoso do que o doce de leite que temos por aqui. A diferença está no processo de fabricação, ele é feito, se não me engano, com o açúcar caramelado – por isso é mais escuro e bem mais doce. Comprei duas marcas deliciosas, Chimbote e La Salamandra – mas certamente deve haver muitos outros tão bons quanto ou ainda melhores.

Vinhos

Muito baratos, tanto nos restaurantes como no supermercado, porque é um produto nacional bastante consumido (diferente daqui, que consumimos esporadicamente, em geral em ocasiões específicas), sobretudo os malbecs.

Compras

Vamos falar das compras, então. Já foi muito mais barato comprar em BsAs, mas tem muita coisa que ainda vale a pena, sobretudo roupas. O ponto máximo das compras é a Calle Florida, calçadão que é um misto de rua Direita ou rua São Bento com a Oscar Freire. Multidão, muitas grifes e preço de turista. Tipo inferno na terra, manja? É lá onde ficam as Galerias Pacífico, o shopping mais famoso da cidade – que muitos acham lindo, mas eu acho o cúmulo do cafona, com seus corrimões dourados, fontes, afrescos e telhado de vidro que sempre me lembra um tender de natal. Dica: se quer um shopping quase com as mesmas lojas mas bem menos turístico, vá até o shopping de Abasto – que foi construído dentro de um antigo mercadão no naipe do mercado municipal de São Paulo).

A Av. Cordoba tem muitos outlets, mas não sei dizer qual altura ao certo. A Av. Santa Fé é um lugar bem bom pra fazer compras também. Mas prepare-se, porque todas as avenidas de BsAs são imensas.

Para compras, pra mim ainda fico com Palermo Viejo. Na rua Gurruchaga fica a Felix, loja de roupa masculina que eu adoro. Nessa última vez estava em liquidação, para minha felicidade.

Derecho

Passeios

Além das feiras de Palermo e de San Telmo, que já comentei e que são programas obrigatórios pra quem quer conhecer a cidade, tem também a feira de Mataderos – que é mais afastada, mas tem uma pegada mais de cultura regional dos pampas, a cultura “gaucha” (que sim, tem muito a ver com o gaúcho do Rio Grande do Sul).

Pra quem quer dar uma fugidinha da cidade, tem o trem turístico que sai da estação Retiro (uma espécie de estação da Luz, mas bem maior que a nossa) e vai para o Delta do Tigre. Dá pra tirar o dia todo pra fazer esse passeio, porque você paga apenas uma passagem e pode descer nas estações que quiser e conhecer as cidadezinhas à margem do rio.

Se estiver com mais tempo e grana, dá ainda pra pegar o buque em Puerto Madero, atravessar o Rio da Prata e conhecer Colonia del Sacramento, cidade uruguaia (sim, atravessou o rio, tá no Uruguai) que foi colonizada por portugueses e foi motivo de arranca-rabo entre portugueses e espanhóis no período colonial. Se tiver tempo e quiser esticar o passeio, vale dar um pulo em Montevidéu, que fica a poucas horas dali e, com mais tempo ainda e já estando em Montevidéu, uma esticadinha a mais em Punta del Este. Quatro ou cinco dias são mais que suficientes para essa fugidinha para o Uruguai.

Chegando a Buenos Aires

Nem preciso dizer que prefiro comprar a passagem direto na companhia aérea do que com agência de turismo, né? A única coisa que recomendo, além de reservar com antecedência (Buenos Aires é o destino internacional favorito dos brasileiros) é ver em que aeroporto você vai desembarcar. O Aeroparque é o aeroporto doméstico, fica no meio da cidade, entre Palermo e o rio. Ezeiza, o aeroporto internacional, é longe. Já temos voos diretos de GRU para o AEP, embora a maioria vá para EZE. A proporção da distância de cada um é comparável com a diferença de Guarulhos e Congonhas com relação ao centro de São Paulo. (Fato: se der pra ir pro AEP, não pense duas vezes.)

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Dinheiro

Eu sempre levo alguns pesos (100 ou 200) só pra garantir, e deixo para sacar lá, direto no caixa eletrônico. É a melhor cotação possível, mas não sei as limitações de cada banco (afinal tenho conta em banco internacional). Se não quiser arriscar, uma alternativa às casas de câmbio é o Banco de la Nación Argentina, que tem na Avenida Paulista, em frente ao edifício São Luís, quase na Consolação. Da última vez, a cotação do peso para o real era de 2 pra 1, ou seja, 1 real = 2 pesos. (A cada vez que vou pra lá me fazem mais terrorismo com relação a notas falsas – orientando a anotar números de série e ficar paranoico a toda esquina. Acho exagerado, visto que jamais tive qualquer problema com isso – no entanto, eles realmente pegam as notas e conferem antes de aceitá-las. Por via das dúvidas, deixe pra comprar seus pesos em uma casa de câmbio de confiança, ou para sacar no banco.)

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Onde ficar

Todas as vezes que fui, aluguei um apartamento por uma semana no BYT. Desse jeito, tenho um apartamento mobiliado, confortável e completo à minha disposição, por um preço excelente (mais barato do que se eu fosse ficar em um hotel) e na localização que eu quiser. O bom é que você consegue escolher onde ficar, que tipo de apartamento se adequa ao que você está buscando e quanto você tá disposto a pagar. (Da última vez fiquei num flat do Temporary Apartments, que reservei pelo Booking.com – ótimo preço e o melhor apartamento onde fiquei até agora.)

Alguns amigos já ficaram em um hostel próximo à Avenida de Mayo, o Millhouse, mas não sei recomendar ou desrecomendar. Só sei que é um dos mais badalados da cidade, e que rola até mesmo balada dentro do hostel. Logo, se você busca um lugar mais tranquilo, talvez não seja uma opção.

Pra quem quiser se hospedar na faixa, sempre tem também o Couchsurfing, a rede de contatos pra quem topa ficar na casa de alguém que more na cidade – mas aqui recomendo pesquisar com bastante antecedência, pois amigos que utilizam a rede disseram ser bastante trabalhoso conseguir um couch na cidade.

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Dois lembretes importantes

1) Propina é a forma como eles chamam a gorjeta do garçom. Assim como aqui, ela é de 10% e não é obrigatória. No entanto, ao contrário daqui, ela não vem somada na conta – você tem que dar espontaneamente. Fica a dica.

2) Segurança: já vi muitos apavoradinhos aí dizendo que a cidade é perigosa. No geral, me sinto muito mais seguro andando por lá do que andando perto da minha casa, nas imediações da Av. Paulista – mas eu tendo a romantizar aquela cidade porque gosto demais de lá. Fato é que conheço gente que deixou de aproveitar muita coisa de lá por medinho – e isso é, no mínimo, patético. A dica que dou é: tome cuidado com sua segurança como você tomaria em qualquer grande cidade. Não precisa de mais do que isso.

Cortázar

October 7th, 2010

Preâmbulo às instruções para dar corda ao relógio

Pense nisto: quando te presenteiam com um relógio, te presenteiam com um pequeno inferno florido, uma cadeia de rosas, um calabouço de ar. Não te dão somente o relógio, muitos parabéns a você e esperamos que te dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não te presenteiam somente com esse pequeno quebra-pedras que prenderás a teu pulso e passeará contigo. Presenteiam-te – não sabem, o terrível é que não sabem -, presenteiam-te com um novo pedaço frágil e precário de ti mesmo, algo que é teu mas não é teu corpo, que tem que se prender a teu corpo como um bracinho desesperado pendurando-se no teu pulso. Te presenteiam com a necessidade de dar-lhe corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; te presenteiam com a obsessão de conferir a hora exata nas vitrines das joalherias, no anúncio pela rádio, no serviço telefônico. Tepresenteiam com o medo de perdê-lo, de que o roubem, de que caia no chão e se quebre. Presenteiam-te com sua marca, e a segurança de que é uma marca melhor que as outras, te presenteiam com a tendência de comparar seu relógio com os demais relógios. Não te presenteiam com um relógio, tu és o presente , a ti oferecem para o aniversário do relógio.

- Julio Cortázar, Historias de Cronopios y de Famas, minha tradução.

Diários de Bicicleta, Parte 3: Das perguntas de sempre

September 30th, 2010

Sim, mais um post sobre bicicleta, paciência. Nesse eu respondo às duas perguntas que mais ouço de quem não é ciclista. Elas tão em negrito lá em baixo, se você não quiser ler o papo introdutório.

Enfim.

Desde que troquei a combinação “morar longe + carro” pela combinação “morar perto + bicicleta + transporte público”, além da mudança absurda de hábitos e de estilo de vida, começo a perceber o quanto as pessoas ao meu redor são assustadoramente dependentes do carro pra qualquer coisa – e o quanto eu era, sem perceber. E o quanto as pessoas simplesmente não enxergam outra possibilidade de se locomover na cidade que não seja utilizando seu carro.

Bem, no começo eu ainda argumentava sobre o quanto muitas delas não precisam obrigatoriamente pegar trânsito todo dia, ou sofrer pra achar vaga na rua, ou ser extorquidas toda vez que forem parar o carro em um estacionamento, ainda que pra tomar um café. E não me refiro só à bicicleta não, tem muitas formas de se locomover que não sejam dependentes de um carro. Mas só ouvia coisas como “mas isso é uma fase, você está vendo isso com olhar romântico”, ou “mas não é tão simples assim, o transporte público é uma droga”, ou ainda qualquer outro argumento que invariavelmente estava na ponta da língua.

No começo, ficava puto, tentava contra-argumentar – depois me acostumei. Considerando que boa parte dessas pessoas sequer saem do centro expandido no dia a dia, e muitas delas até trabalham no mesmo bairro onde moram – percebi que qualquer argumentação é inútil.

Dane-se, cada um que fique com suas escolhas – e arque com as consequências delas. O ponto aqui é: pra mim, o mais importante é deliciosa a sensação de liberdade que essa escolha me traz HOJE, AGORA (e que cada vez menos eu sentia quando dirigia). Se vai durar mais 1 ano ou 10 ou 50, veremos. Se não durar, paciência (meu palpite é que durará muito). Em pouco mais de dois meses, completo 1 ano de pedaladas.

Fato é que é legal pra caralho chegar rapidíssimo aos lugares, não ter perrengue pra estacionar, não ter gastos absurdos de manutenção, seguro, combustível. Estou adorando fazer algum exercício físico que – literalmente – me leva a algum lugar. É ótimo saber exatamente em quanto tempo eu vou chegar a algum lugar, faça chuva ou sol, com ou sem congestionamento. É muito legal conhecer mais gente que também tenha feito a mesma opção e que é tão apaixonada (ou muito mais apaixonada) por essa história toda.

Mas a questão é que não, não é meu papel convencer ninguém a esse mundo, cada um faz o que quer da sua vida. Não esperem que eu use a hashtag #vadebike, até porque eu simplesmente detesto imperativos. Quer ir de carro? Vai, ué. Mas pare de reclamar das consequências – e aviso que as coisas só vão piorar. Como diz Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá (cidade considerada modelo da reestruturação dos transportes urbanos na América Latina), “quanto mais espaços tivermos dedicados aos carros, mais carros teremos”. E quanto mais carros, bem, todo mundo sabe o que acontece. Só peço a delicadeza de não atropelar o ciclista, tá bom? Brigadú! ;)

Claro que eu adoro quando algum amigo ou colega sinaliza que gostaria de experimentar, tem vontade de usar a bicicleta no dia a dia. Sempre me empolgo, dou o maior apoio do mundo, indico sites, me ofereço a ajudar na escolha da bicicleta, chamo pra dar uma volta. Gostaria que mais amigos me acompanhassem nessa história toda – e tento dar o mesmo incentivo que tive dos amigos ciclistas quando pensei em começar a pedalar. Queria que mais gente ao meu redor compartilhasse do prazer que é dar uma volta por São Paulo sobre duas rodas – ainda que em caráter de lazer. Às vezes, uma voltinha de uma, duas horas pelo centro é suficiente pra afastar qualquer estresse ou mal humor – além de você (re)descobrir a dimensão humana da cidade (o quanto você consegue se locomover com facilidade só com o esforço do seu corpo). Mas não vou indicar a ninguém. Meus relatos empolgados já valem como indicação pra quem quiser – minha vontade era a de ter duas bicicletas, uma só pra emprestar aos amigos e levá-los pra dar um rolê.

E aí vêm as duas perguntas que sempre ouço (pelo menos uma vez por semana cada uma delas).

Acontece que quando as pessoas comentam que têm vontade, invariavelmente a frase vem seguida do “mas eu tenho medo”. E muitas vezes esse medo é suficiente pra afastar a ideia e continuar não tendo mais uma opção de transporte (repare que estou falando de opção, alternativa, e não de uma escolha em detrimento de outra).

A questão é:

1) Mas não é perigoso andar de bicicleta em São Paulo?

Sim e não. Sim, é perigoso como também é andar de carro, de moto, a pé. Quando você sai de casa, você está exposto à rua (e aos motoristas malucos que nela vivem, assim como o crime, o acaso…). Mas a bicicleta tem um trunfo, que em geral o pedestre também tem: de bicicleta você dita seu ritmo e seus caminhos. Lembre-se que a bicicleta não tem um motor que te projeta, ela é movida pelo seu próprio esforço. Dificilmente você anda a mais que 30Km/h, e pode desacelerar e parar praticamente quando quiser, só frear e botar o pé no chão. Você pode desmontar quando quiser, e anda na calçada como pedestre. Você pode escolher um caminho mais tranquilo, menos movimentado. Dependendo do trajeto, há trechos que você ainda pode fazer pela calçada. Ok, poder, não pode. Mas se você está se acostumando e acha que está botando sua vida em risco ao pegar uma rua mais movimentada, não hesite e pegue a calçada – desde que você não represente (e nem demonstre) algum tipo de ameaça aos pedestres (que são os “donos” da calçada), por que não compartilhar esse espaço?

Com o tempo, adquirindo prática, você vai ver que pela calçada é pior (em geral o piso é ainda mais acidentado do que as ruas esburacadas, você vai muito mais devagar, você – ou ao menos eu – fica sempre com a sensação de que tá fazendo algo errado). Quando perceber que a calçada não tá ajudando, é hora de pegar a rua. Tomando alguns cuidados (sinalização adequada, comportamento previsível, segurança nos movimentos, bicicleta estável e regulada, estar acostumado com sua bicicleta, não querer competir com os carros e deixá-los passar pra deixar a pista livre pra você, não ficar muito próximo da sarjeta, respeitar seus limites e parar quando achar que deve, etc), o risco é pequeno. De verdade. Aí você percebe que os motoristas em geral são legais, a maioria é. Muita gente respeita o ciclista – e quer respeitá-lo. Claro que há as exceções, e dentro dessas exceções estão os taxistas e motoristas de ônibus. Mas eles em geral também têm ações previsíveis, então você previne estresse pedalando de uma forma mais preventiva. Conhecer o caminho também ajuda a saber os pontos críticos e os pontos mais tranquilos.

Ciclistas que pedalam há vários anos em São Paulo sempre dizem que as coisas estão melhorando muito em termos de segurança. E muito disso é reflexo também da quantidade de pessoas que decidem efetivamente usar a bicicleta na cidade, que não para de crescer. Enfim, a resposta é não, não é perigoso. O que não significa que você vá marcar bobeira e sair pedalando achando que está em Amsterdam.

2) Como você faz com suor, tem que tomar banho sempre que chega nos lugares?

Bom, aí é uma coisa que me deixa neurótico, porque transpiro muito. Foi uma das coisas que mais pesquisei quando comecei a pedalar. O ponto é: da mesma forma como você dita seu ritmo e seus trajetos pra garantir sua segurança, também pode escolher ritmos e trajetos pra reduzir a transpiração. Se você não tá apostando corrida com ninguém, não há necessidade de pedalar no talo da sua energia pra chegar mais rápido, a obsessão pela velocidade faz mal. Sair 10 minutos antes pra pedalar com mais tranquilidade já resolve boa parte do problema. Pense que tem uma galera que pedala vestida com a mesma roupa com que fica o dia todo, e não por isso deixam de lado higiene ou estilo. Basta procurar por aí por “cycle chic” que tem uma porrada de gente. Tem também o “slow bike”, que acaba englobando tudo isso que eu tô falando também.

Escolher um caminho sem muitas subidas também ajuda (meu caso, por exemplo: moro perto da Paulista e trabalho perto da Sumaré. De manhã, vou tranquilo pela Dr. Arnaldo, sem me esforçar muito pra não suar, e depois desço a Sumaré pela ciclovia. Sendo só descida, quase não há esforço).

Mas também tem uma série de cuidados que precisam ser tomados pra ajudar nesse processo todo. Nesse post, o Willian Cruz dá uma porrada de dicas boas que eu sigo, e ainda acrescento mais uma: sabonete antibacteriano (não sei se funciona de verdade, mas na dúvida não custa tomar um cuidado a mais).

No caso, eu até poderia tomar um banho no meu trabalho, mas com esses cuidados todos (trocar de roupa, lenços umedecidos, sabonete especial, etc), e sendo um trajeto de apenas 5 Km na descida, não existe essa necessidade. A volta sempre é mais chatinha, mas nesse caso, como em geral estou voltando pra casa, não há crise nenhuma em chegar e ir direto pro banho…

Cidade parada

June 29th, 2010

Uma câmera na mochila e uma volta de bicicleta pela cidade que para pra ver o primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo.

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Um versus Cem mil

April 4th, 2010

Side+Walk

(esse post teria um parágrafo explicativo/introdutório e dedicado a algumas pessoas, mas preferi deixar pra lá)

  • Uma questão particular sempre é uma questão particular, muito menos potente do que questões coletivas, que envolvem as vidas de mais pessoas.
  • Uma questão coletiva não é a mesma coisa que uma questão individual de muitas pessoas; um coletivo não é um mero agrupamento de indivíduos.
  • Ignorar o coletivo pra pensar só no indivíduo isolado é desperdiçar tudo o que o indivíduo tem de mais potente (e o contrário também é verdadeiro: ignorar especificidades de cada indivíduo dentro do coletivo é desperdiçar o que o coletivo dem de mais potente).
  • Não se resolvem coisas complexas com interpretações simplórias.
  • É impossível pensar em coletividade sem pensar em relações políticas, de identidade e de poder.

Diários de Bicicleta, Parte 2: Primeiro esboço sobre cinismos e complexidades

February 27th, 2010

A mulher chata que gritava enfurecida do outro lado da rua para os ciclistas que atravessavam a faixa de pedestre, alegando que eles não eram pedestres e, portanto, não deveriam passar pela faixa, estava coberta de razão: o código de trânsito define que as bicicletas, quando montadas, são veículos – e têm de circular no espaço que a eles é destinado.

Mesmo que os ciclistas não estivessem ameaçando a integridade e a segurança de ninguém (nem mesmo dela, que já estava do outro lado da rua quando isso aconteceu), e que estivessem avançando além da faixa para, ao abrir o sinal, sair com maior segurança, certificados de que estão no campo de visão dos motoristas e garantindo um recuo mínimo de segurança para sua partida (que os carros fazem de imediato com uma leve pisada de acelerador, mas que o ciclista precisa fazer um esforço mais lento para definir seu ritmo), nos termos da lei aquela mulher tinha razão. Mas apelar ao código e às leis unicamente, ignorando fatores diversos envolvidos em situações prosaicas como essa é ignorar a complexidade da cidade – e o que faz dela ao mesmo tempo um espaço tão problemático e tão fascinante.

Imagino que seja um sonho de todo ciclista consciente de sua escolha por mobilidade que o código de trânsito seja respeitado por todos, que os espaços sejam garantidos para todos. Puxa, que bonito, flores pra ele. Mas ele não é um herói nem a única vítima dos problemas de mobilidade da cidade – na verdade, todo mundo (pedestres, motoristas engarrafados, motoqueiros, passageiros de ônibus…) tem esse sonho de um código de trânsito plenamente funcional e respeitado. Tá bom vai, flores pra todo mundo, então.

Mas é óbvio que é contraditório defender isso e realizar com plena consciência pequenas infrações cotidianas – como o fazem pedestres, ciclistas, motoristas e a caralhada toda. A questão é: o que complexifica o abismo entre as leis e seu cumprimento é que não se trata de um código para ser cumprido individualmente, mas em um âmbito coletivo e intensivo. E isso, lógico, tem a ver com o clichê “cada um faz sua parte”, mas não é tão simplório assim. É óbvio que cada indivíduo é responsável pelos seus atos, mas apenas o cumprimento de seus deveres individuais não significa que ele esteja garantindo sua fração de civilidade, porque ele não está numa bolha isolada.

Pensar o coletivo como mero plural de indivíduos é ignorar o que o coletivo tem de mais complexo, que é sua organicidade própria (um órgão do corpo humano, apesar de ser formado por milhões de células, não atua como uma célula gigantesca, dá pra entender?). Criminalizar o pedestre que atravessa fora da faixa sem pensar na posição da faixa, na disposição de estabelecimentos, no planejamento do tráfego de veículos e nos fluxos naturais e culturais que interferem na circulação local é jogar a culpa por todo um sistema sobre um único indivíduo que erra. É personificar o responsável por uma falha coletiva.

Em tese, para a lei, o pedestre que atravessa fora da faixa está tão errado quanto o ciclista que atravessa na faixa de pedestre, o motorista que para em fila dupla esperando o manobrista e o caminhoneiro que trava uma avenida movimentada. Mas o que motiva cada infração pode ser uma chave para interpretar os problemas da cidade (muito maiores que a infração por si própria, tanto que na maioria das vezes, não havendo uma infração perceptível a olho nu, são invisíveis sem uma observação mais analítica) – e isso não quer dizer que o responsável pela infração esteja isento de sua responsabilidade, é bom deixar claro.

No caso do ciclista que comuta entre a posição de veículo e pedestre, muitas vezes a infração ocorre para garantir sua segurança (mas não todas as vezes: também não podemos ser ingênuos e isentá-lo de cometer erros em benefício de seu individualismo, assim como qualquer outra pessoa). E essa garantia de segurança não ocorre apenas num momento pontual e crítico (como, por exemplo, o momento em que um taxista ou motorista de ônibus se joga sobre ele para garantir a soberania sobre a beira da calçada, onde estão os passageiros): muitas vezes é necessário criar artifícios não previstos na lei para sobreviver no dia-a-dia – alguns deles por meio de infrações cinicamente conscientes, mas visando uma condução defensiva (que os profissionais de tráfego e a própria lei exigem mas não possuem meios de garantir na prática a ninguém, muito menos aos ciclistas – mais frágeis que os automóveis e com condições de locomoção diferentes daqueles que estão com o motor engatado e roncando, prestes a avançar).

E na cidade onde o ciclista está num não-lugar por não pertencer nem ao espaço dos pedestres e nem ao espaço dominado pelos motoristas, as coisas são muito mais complexas do que simplesmente julgá-lo com base num código que não dá conta da organicidade. E isso não significa que suas atitudes sejam justificáveis, que ele esteja acima da lei (ou imune a ela), que não seja responsável pelos seus atos e que a mulher chatona esteja sem razão ao berrar do outro lado da rua evidenciando algo que não está certo. Mas considerando toda a complexidade desse ecossistema em colapso, QUALQUER ponto de vista (o da lei, o do ciclista, o do pedestre, o econômico) assumido individualmente como “o correto” não consegue dar conta do todo por ser terrivelmente ingênuo e simplista.

Diários de Bicicleta, Parte 1: Deslumbramento

December 30th, 2009

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Berlim e São Paulo. Adivinhem qual é qual.

Faz pouco mais de dois meses que não dirijo meu carro, que está na casa de meus pais e em pouco tempo deve ser vendido. E menos de um mês que assumi que, além do transporte coletivo (que é mais que suficiente em meu deslocamento cotidiano) e das atividades que faço a pé sem sacrifícios na casa nova, meu transporte também aconteceria sobre duas rodas.

Nada de papinho ecochato de menos poluição, ecobags e o escambau. A escolha foi por dois motivos, um prático e outro emocional. O prático é pela necessidade de praticar algum exercício físico minimamente agradável (o dia que alguém me ver puxando ferro numa academia ou jogando futebol, me interne). O emocional é pela busca de outra forma de relacionar com as ruas da cidade, uma frescura que, como deu pra notar pela maioria dos comentários em meu blog, pra mim é muito preciosa.

São Paulo não é uma cidade onde bicicletas seriam a solução para a humanidade, como acontece em Berlim ou Amsterdam – sobretudo porque aquelas cidades europeias não têm nem as dimensões e distâncias da capital paulista, nem o relevo diverso que temos aqui e, principalmente, não têm a densidade demográfica aliada à distribuição urbana que temos aqui. Sendo prático, não dá pra maioria dos paulistanos se deslocarem de bicicleta. Por outro lado, dá pra muita gente se virar sobre duas rodas por aqui – e como diz o movimento mundial pela adoção do ciclismo como alternativa para a mobilidade urbana, cada bicicleta é um carro a menos. Mas falei que não teria papo de ecochato, também não vou reproduzir o discurso ativista, vou falar de minha experiência.

As primeiras impressões são inevitavelmente as do vício de ter dirigido por quase sete anos. Pensar como ciclista e não como motorista é um exercício difícil. Bicicleta não tem retrovisor, não tem seta e, principalmente, não tem a estabilidade de um carro. Não dá pra mudar de faixa a hora que quiser, não dá pra se impor na frente dum motorista folgado que não dá passagem. Mas aí, você percebe que isso também é vício de motorista, porque você não precisa, na prática, se jogar na frente de ninguém, nem mudar de faixa. Aos poucos percebe que as conversões são mais fáceis (se você desmontar da bicicleta e for pela calçada, você automaticamente vira pedestre, e quando quiser voltar a ser “veículo”, basta montar e cair pra rua).

Aí vai aprendendo aos poucos que num semáforo, você sempre pode ser o primeiro a sair, sempre em vantagem com relação aos demais motoristas (porra, dá pra ir pela beirada, e não esperar o cara da frente começar a andar pra aí você sair). Percebe também, com o tempo, que o comportamento dos carros é muito similar ao de manadas de búfalos: é só esperar todos eles passarem que a rua ou avenida é sua, e não tem nenhum mala te acelerando por trás.

Aí você vê um carro chegando perto demais (graças à crescente quantidade de ciclistas blogueiros, você vai aprendendo aos poucos as manhas e macetes). Olha pro lado e adivinha: é um taxista se jogando em cima de você, olhando pra frente e achando que a rua e sobretudo a faixa da direita (aquela onde os ciclistas devem estar, segundo o código de trânsito) é deles. E acontece de novo, e de novo, e de novo. Uma, duas, cinco, dez vezes num trajeto de 5 quilômetros (o que acontece com esse povo, sério?). E vai percebendo o quanto o trânsito é hostil, e minhas primeiras experiências foram apenas nos dias em que a cidade está vazia. E percebe o quanto muitas vezes é forçado, por medo e inabilidade, a infrigir o código e pedalar na calçada – porque tudo é culturalmente habituado demais a pertencer aos carros.

Mas há as compensações. Estacionamentos gratuitos (poucos, alguns pateticamente inseguros, outros até com gente tomando conta de graça, bancados por seguradoras e ONGs), uma mobilidade absurdamente divertida (depois que você começa a ganhar alguma resistência e perceber que dá pra fazer caminhos maiores, você faz questão de perder uns minutos a mais pra pedalar mais um pouco), a possibilidade de estacionar na calçada que quiser caso precise fazer algo rápido como devolver filmes na locadora ou comprar água, redescobrir o mapa urbano a partir de seu relevo (pra mim isso é impagável). Tem a parte chata também: o desespero pra tomar um banho imediatamente, a vulnerabilidade ao clima, o transtorno de subir e descer até a rua, abrindo e fechando portas com um trambolho debaixo do braço, a impossibilidade de se locomover logo após uma refeição, carregar um capacete suado na mão toda vez que para em algum lugar, medo de parar em qualquer lugar, de ser assaltado etc, etc, etc. Mas basta lembrar das coisas legais, que fica tudo certo.

Próximo passo: sair pra pedalar com uma câmera fotográfica na mochila. :D

Da Augusta – Primeiras Impressões

November 30th, 2009

Há algum tempo transcrevi um trecho do livro de Jane Jacobs que me deu ainda mais tesão de observar os fluxos de pessoas na cidade (tema recorrente aqui nesse blog, não por coincidência). Lembro que fiquei emocionado ao lê-la descrever a rotina de sua rua em Nova York, e fiquei tentando encontrar onde em São Paulo seria possível ver movimento semelhante.

Mitte, Berlim

Há alguns meses, estive em Berlim e passeei muito pelo Mitte, bairro central no coração do antigo leste, e fiquei fascinado com aquela mistura de decadência, renovação e sobreposição. Eram prédios antigos, de arquitetura comunista, em ruas que acolhiam, nas mesmas calçadas e ao mesmo tempo, restaurantes étnicos, lojas de grifes mundiais, lojinhas de estilistas locais, ateliês e galerias de arte. Isso sem contar as pessoas que circulavam ali noite e dia, alemães, estrangeiros, turistas, moradores, prostitutas, pedestres e ciclistas – sim, havia ali um número inacreditável de bicicletas. Em comparação a São Paulo, arriscaria dizer que era uma inusitada mistura de Oscar Freire com baixo Augusta (mais para Augusta do que para os Jardins), e que ocupava um bairro inteiro (e não apenas uma rua e suas adjacências).

Mitte, Berlim

Voltando a São Paulo e observando a Augusta, a impressão que eu tinha é que isso aqui era tudo muito fake, forçado. A afetação dos modernos querendo provar que são modernos, a afetação das lojas descoladas tentando ser o mais descoladas que elas puderem provar que são, os culturetes se aglutinando em frente ao cinema ou aos mesmos botecos de sempre, as baladas da moda usando a localização em meio aos puteiros para fazer seu marketing… Ao mesmo tempo, via luz no fim do túnel ao perceber que na região acontecia o oposto do que no outro reduto moderno, a Vila Madalena. Ao contrário de lá, onde tudo tem cara de hippie chique com ambientes bem decorados e protegidos por cerquinhas e seguranças, na Augusta o caminho é inverso. Nos bares há disputa para ficar nas mesas da calçada, os bares mais cheios são os mais podres e as pessoas não se importam de ficarem em pé, na rua, desde que a calçada esteja cheia e haja cerveja. A impressão da forçação de barra permanece, mas há o atenuante das pessoas, de alguma forma, se apropriarem de fato da rua como um espaço público.

Acontece que faz uma semana que me mudei para a dita rua Augusta, e de meu apartamento há uma vista para um imenso trecho da rua, desde a avenida Paulista até onde começa o dito “baixo Augusta”, onde a rua faz uma curvinha e começam os puteiros e casas noturnas descoladas. Em frente, uma pizzaria fast-food que há anos conquistou esse povo “muderno” que circula pela região, e um dos mais importantes cinemas “de arte” da cidade. E um de meus novos esportes virou ficar observando o movimento, as pessoas que sobem e descem a rua, porque só olhando de cima dá pra ter uma real noção da quantidade de pessoas que passam por aqui o tempo todo.

Augusta

Não vou nem falar da diversidade porque isso todo mundo já tá cansado de ler nas matérias óbvias das vejinhas da vida (e é só lembrar que aqui tem cinema, boteco, restaurantes dos mais diversos, ônibus para várias regiões da cidade, puteiros, conexão do centro com a Paulista, lojas, metrô, teatros, edifícios comerciais e residenciais e os mais diversos estabelecimentos comerciais para atender a esse povo todo com os mais variados serviços. Acho que dá pra ter uma noção da mistura, né?). O que me agrada mais, na verdade, é a quantidade de gente mesmo, o número de pessoas que circulam pra cima e pra baixo, a qualquer hora do dia e da noite, fazendo com que a Augusta seja um espaço transitável na cidade. Mais do que um espaço de mera passagem, o que faz com que tanta gente passe por aqui é a grande diversidade de coisas para se FAZER, de dia e de noite.

Essa bagunça feiosa e barulhenta deveria servir de exemplo para os urbanistas e “revitalizadores” de plantão. Vida não se cria apenas com demolição do que é feio e imoral e construção de praças estéreis (e que necessitam de policiamento intenso) ou com estabelecimentos comerciais monumentais apenas para estimular a circulação de carros e de dinheiro. Vida nas ruas se cria com movimento das pessoas que reconhecem e legitimam regiões públicas na cidade como áreas de identidade, de lazer, de USO. E isso não garante à Augusta um índice zero de violência ou o status de um modelo a ser replicado para a cidade toda, de forma alguma. Mas com certeza me garante, por exemplo, uma sensação de segurança mínima necessária para que eu possa descer três quadras para comer algo, com tranquilidade, em plena madrugada de domingo para segunda, assim que terminar esse texto.

Arte pra quê?

October 16th, 2009

La Gioconda
Meu retrato de La Gioconda de la Mona Lisa, no Louvre.

Essa semana um amigo postou no Twitter uma afirmação provocativa: “Se você parar pra pensar, a arte não serve pra merda nenhuma”. Acontece que ela ao mesmo tempo não é verdade, mas também não é mentira.

Não é mentira porque, a priori, a arte não precisa ser (e muitas vezes não é) feita pra ter alguma serventia prática. Não serve pra calçar no pé, não serve para agilizar o trabalho, não serve para alimentar as pessoas. Qual a serventia do pneu de bicicleta no banquinho do Duchamp? E do teto da Capela Sistina? E das finadas peças do Gerald Thomas? E qual a finalidade da obra de Beethoven, ou dos filmes de Chaplin, das fotografias de Bresson, ou de um videoclipe que, ao mesmo tempo em que é gravado para promover mercadologicamente uma banda, álbum ou música, pode trazer experimentações artísticas fudidas de pertinentes? E o sertanejo, o brega, o tecno-brega, e as coisas estranhas que devem estar tocando em todos os cantos em Hong Kong?

Pensando nisso, já dá pra separar “serventia” de “importância”. Particularmente, ainda que não “sirvam pra merda nenhuma”, tem um punhado de bandas, cineastas, escritores e outros artistas que, se não existissem, possivelmente (ou certamente) eu – Maurício – teria uma personalidade diferente, atitudes diferentes. Isso pode ser um indício de que a arte interfere na sociedade e em seu tempo (e pode ter – ou não – relevância para sua posteridade também).

Por esse lado, fica claro que a inaplicabilidade prática da arte é muito similar à inaplicabilidade prática da filosofia ou das ciências sociais – que ainda que não tenham finalidades materiais muito definidas, concretas, têm um papel importantíssimo: o de definir seu tempo, interferir criativamente nele e ajudar a historicizá-lo.

E não vamos esquecer da grande intersecção que há entre a arte e o entretenimento (nem tudo que é arte é entretenimento, assim como nem tudo o que é entretenimento é arte), que – essa sim – serve pra algo muito bem definido: entreter, agradar, divertir. E, claro, produzir dinheiro (também não dá pra ser ingênuo de ignorar que a arte, sobretudo essa que se mescla com o entretenimento – e até mesmo coisas pouco divertidas como o urinol de Duchamp, apesar de não ter serventia “prática” por si próprio – numa sociedade capitalista também serve pra gerar valor, produzir dinheiro, movimentar um mercado que uns alemães por aí decidiram chamar de indústria cultural).

Também é essencial pensar no quanto a arte também é definidora de identidades locais, como é parte da cultura de um povo (atenção: arte e cultura são coisas MUITO distintas!). Quanto da identidade local do Rio de Janeiro não se deve, entre milhares de outras coisas, ao surgimento do samba e da bossa nova? Quanto da identidade da periferia de São Paulo não se molda pela existência do Hip Hop, um ritmo estrangeiro que se transforma e dá conta de estimular um denominador comum local muito mais potente do que muitas outras produções artísticas que, para aqueles indivíduos, muitas vezes não servem pra merda nenhuma de verdade?

Mas pensar que a arte SERVE SIM para alguma coisa, ainda que intangível, não resolve automaticamente o papel do artista na sociedade. É revelador pensar em como esse cara encara seu trabalho e a interferência dele no mundo: qual o grau de alienação e de consciência com relação a essas milhares de “finalidades inúteis” de seu trabalho? E pior ainda: se sua arte tem, afinal, alguma serventia, qual é seu papel, o de artista, nesse mundo? E se ele tem um papel, quem deve bancá-lo?

Conheço algumas dezenas de artistas que com certeza não sabem responder essas perguntas. Muitos porque nunca pararam pra pensar nisso; outros porque acham que “fazer arte” deve ser encarado com a mesma importância social (e numa mesma relação de valores) do que exercer a medicina, o magistério (e, por exemplo, com mais importância do que promover a remoção do lixo urbano); tem ainda os que estão mais preocupados com a auto-realização (e a arte nada mais é do que uma terapia meio escrota que em geral as outras pessoas são obrigadas a engolir); e tem ainda os deslumbrados, que acham tão “mágico” (ou se acham tão especiais por) exercerem o papel de artistas que se esquecem que seu trabalho deveria ser, em alguma medida, social – principalmente quando é bancado (como na maioria das vezes é) por uma estrutura pública. Lembrando que “trabalho social” nada tem a ver com caridade, benevolência, cuidem dos pobres e salvem as baleias: é qualquer trabalho feito pensando na sociedade com quem ele deverá obrigatoriamente dialogar de alguma forma.

A questão de “pra que serve a arte” deveria, nesse caso, nos projetar a outras questões: “pra que diabos servem os artistas, então?”, e uma mais urgente: “pra que serve o dinheiro público que é destinado à produção artística?” (lembrando mais uma vez que, no Brasil, quase toda produção artística financiada por recursos que não são do próprio artista têm grandes chances de serem, em alguma instância, financiadas pelo contribuinte público).

Essas perguntas não devem ser feitas de forma alguma com o intuito de abrir mão de termos artistas e obras de arte sendo produzidas e financiadas – muito pelo contrário. Só é essencial que a fruição dessa arte e sobretudo sua produção e financiamento aconteça de forma mais crítica.

Mas essa manga ainda tem muito pano pela frente.

PS: Melhor de tudo é que, terminando esse post (assim como Paulo Coelho ao cabo de sua viagem pela Sibéria ao lado de Glória Maria), saio com mais perguntas do que respostas na cabeça – e isso é bom. Fazia tempo que não me empolgava para escrever esses fluxos confusos de raciocínio aqui no blog, e isso deve acontecer com mais frequência daqui pra frente.

Mais calçada

September 29th, 2009

Dumont Adams

Uma citação divertida, do mesmo livro da Jane Jacobs.

Por que as crianças acham, com tanta frequência, que perambular por calçadas cheias de vida é mais interessante do que ficar nos quintais e parquinhos? Porque as calçadas são mais interessantes. É uma pergunta tão sensata quanto: por que os adultos acham as ruas cheias de vida mais interessantes que os parquinhos?