Arte pra quê?

Meu retrato de La Gioconda de la Mona Lisa, no Louvre.
Essa semana um amigo postou no Twitter uma afirmação provocativa: “Se você parar pra pensar, a arte não serve pra merda nenhuma”. Acontece que ela ao mesmo tempo não é verdade, mas também não é mentira.
Não é mentira porque, a priori, a arte não precisa ser (e muitas vezes não é) feita pra ter alguma serventia prática. Não serve pra calçar no pé, não serve para agilizar o trabalho, não serve para alimentar as pessoas. Qual a serventia do pneu de bicicleta no banquinho do Duchamp? E do teto da Capela Sistina? E das finadas peças do Gerald Thomas? E qual a finalidade da obra de Beethoven, ou dos filmes de Chaplin, das fotografias de Bresson, ou de um videoclipe que, ao mesmo tempo em que é gravado para promover mercadologicamente uma banda, álbum ou música, pode trazer experimentações artísticas fudidas de pertinentes? E o sertanejo, o brega, o tecno-brega, e as coisas estranhas que devem estar tocando em todos os cantos em Hong Kong?
Pensando nisso, já dá pra separar “serventia” de “importância”. Particularmente, ainda que não “sirvam pra merda nenhuma”, tem um punhado de bandas, cineastas, escritores e outros artistas que, se não existissem, possivelmente (ou certamente) eu – Maurício – teria uma personalidade diferente, atitudes diferentes. Isso pode ser um indício de que a arte interfere na sociedade e em seu tempo (e pode ter – ou não – relevância para sua posteridade também).
Por esse lado, fica claro que a inaplicabilidade prática da arte é muito similar à inaplicabilidade prática da filosofia ou das ciências sociais – que ainda que não tenham finalidades materiais muito definidas, concretas, têm um papel importantíssimo: o de definir seu tempo, interferir criativamente nele e ajudar a historicizá-lo.
E não vamos esquecer da grande intersecção que há entre a arte e o entretenimento (nem tudo que é arte é entretenimento, assim como nem tudo o que é entretenimento é arte), que – essa sim – serve pra algo muito bem definido: entreter, agradar, divertir. E, claro, produzir dinheiro (também não dá pra ser ingênuo de ignorar que a arte, sobretudo essa que se mescla com o entretenimento – e até mesmo coisas pouco divertidas como o urinol de Duchamp, apesar de não ter serventia “prática” por si próprio – numa sociedade capitalista também serve pra gerar valor, produzir dinheiro, movimentar um mercado que uns alemães por aí decidiram chamar de indústria cultural).
Também é essencial pensar no quanto a arte também é definidora de identidades locais, como é parte da cultura de um povo (atenção: arte e cultura são coisas MUITO distintas!). Quanto da identidade local do Rio de Janeiro não se deve, entre milhares de outras coisas, ao surgimento do samba e da bossa nova? Quanto da identidade da periferia de São Paulo não se molda pela existência do Hip Hop, um ritmo estrangeiro que se transforma e dá conta de estimular um denominador comum local muito mais potente do que muitas outras produções artísticas que, para aqueles indivíduos, muitas vezes não servem pra merda nenhuma de verdade?
Mas pensar que a arte SERVE SIM para alguma coisa, ainda que intangível, não resolve automaticamente o papel do artista na sociedade. É revelador pensar em como esse cara encara seu trabalho e a interferência dele no mundo: qual o grau de alienação e de consciência com relação a essas milhares de “finalidades inúteis” de seu trabalho? E pior ainda: se sua arte tem, afinal, alguma serventia, qual é seu papel, o de artista, nesse mundo? E se ele tem um papel, quem deve bancá-lo?
Conheço algumas dezenas de artistas que com certeza não sabem responder essas perguntas. Muitos porque nunca pararam pra pensar nisso; outros porque acham que “fazer arte” deve ser encarado com a mesma importância social (e numa mesma relação de valores) do que exercer a medicina, o magistério (e, por exemplo, com mais importância do que promover a remoção do lixo urbano); tem ainda os que estão mais preocupados com a auto-realização (e a arte nada mais é do que uma terapia meio escrota que em geral as outras pessoas são obrigadas a engolir); e tem ainda os deslumbrados, que acham tão “mágico” (ou se acham tão especiais por) exercerem o papel de artistas que se esquecem que seu trabalho deveria ser, em alguma medida, social – principalmente quando é bancado (como na maioria das vezes é) por uma estrutura pública. Lembrando que “trabalho social” nada tem a ver com caridade, benevolência, cuidem dos pobres e salvem as baleias: é qualquer trabalho feito pensando na sociedade com quem ele deverá obrigatoriamente dialogar de alguma forma.
A questão de “pra que serve a arte” deveria, nesse caso, nos projetar a outras questões: “pra que diabos servem os artistas, então?”, e uma mais urgente: “pra que serve o dinheiro público que é destinado à produção artística?” (lembrando mais uma vez que, no Brasil, quase toda produção artística financiada por recursos que não são do próprio artista têm grandes chances de serem, em alguma instância, financiadas pelo contribuinte público).
Essas perguntas não devem ser feitas de forma alguma com o intuito de abrir mão de termos artistas e obras de arte sendo produzidas e financiadas – muito pelo contrário. Só é essencial que a fruição dessa arte e sobretudo sua produção e financiamento aconteça de forma mais crítica.
Mas essa manga ainda tem muito pano pela frente.
PS: Melhor de tudo é que, terminando esse post (assim como Paulo Coelho ao cabo de sua viagem pela Sibéria ao lado de Glória Maria), saio com mais perguntas do que respostas na cabeça – e isso é bom. Fazia tempo que não me empolgava para escrever esses fluxos confusos de raciocínio aqui no blog, e isso deve acontecer com mais frequência daqui pra frente.
2009-10-16 at 12.24 pm
Sessão descarrego! Isso mesmo!
Super questionamentos hein…
Agora tenho uma pergunta…”o que se faz com a arte”?
Passando do nível de produtor pro de receptor…
bjs!
2009-10-19 at 3.26 pm
Fabi, antes de pensar em uma resposta com “o que fazer com a arte”, tem uma questão anterior que o Paulo Bio, que também escreve na Bacante, questionou muito bem num e-mail que mandou em resposta a esse post: DE QUE ARTE EXATAMENTE ESTAMOS FALANDO?
Se olharmos no Houaiss, há 25 definições diferentes para a palavra “arte”. E olhe que o dicionário sequer dá conta de diferenciar a diferença da arte rupestre, da medieval, da renascentista, da moderna, da contemporânea… Há ainda contextos políticos, geográficos, sociais pra botar nesse bolo todo.
No e-mail do Paulo ele também comenta ainda como o Ói Nóis, grupo de teatro do Rio Grande do Sul, que eles encaram seu trabalho como MEIO para a transformação social. Acho que também pode ser um bom papel para que a arte “sirva” para algo – ainda que em uma perspectiva utópica.
Agora, não sei como responder essa sua pergunta sobre nível do produtor pro receptor. É pra aumentar ainda mais o nó, se considerarmos SE a produção DEVE OU NÃO ter essa premissa assim tão hierarquizada. A troca entre ambos os papeis é (ou deveria ser) fundamental, mas pensando melhor, prefiro encarar esses papéis compartilhados, de uma forma que todos criam e recebem.
Aí caio numa outra questão, que é a da produção/criação coletiva de CULTURA. A pergunta que fica é: e por que diabos a arte sofre uma cisão, é vista como algo apartado, independente e catalogável, quando a língua e a comida, por exemplo, são absolutamente encarados como fatores naturais, inerentes de uma cultura?
É de dar nó mesmo…
Bjs