Dia 26 de dezembro publiquei um post sobre o calvário que é ter que carregar uma bicicleta escadarias acima, por muitos andares, só porque o Metrô não deixa os ciclistas usarem as escadas rolantes. Desde então muita coisa aconteceu e merece ser registrada:
Enviei o link do texto para a Ouvidoria do Metrô, que prontamente me respondeu com um e-mail péssimo, inconclusivo e com erros de concordância. Basicamente dizia que bicicleta é um equipamento e que as escadas rolantes eram de uso exclusivo dos usuários.
Sem entender a relação entre uma informação e outra, e ainda na esperança de continuar sendo usuário (uma vez que, inclusive, eu pago passagem quando entro com a bicicleta), fiz uma reclamação via Twitter. Rapidamente responderam pedindo o número do protocolo.
Me ligaram da Ouvidoria, dessa vez pedindo desculpas pelo e-mail anterior, mostrando-se bastante abertos ao diálogo. Dei várias sugestões de possíveis saídas – como instalação de canaletas, liberação de uma única escada, liberação dos elevadores. A moça disse que me mandaria um e-mail e pediu para que eu respondesse com todas essas sugestões. Ela mandou, eu respondi.
Além de enviar ao assessor do presidente, divulgamos essa carta nas redes e eu enviei também à Ouvidoria. Me ligaram no mesmo dia perguntando se eu topava ir lá pessoalmente bater um papo. A presidência do Metrô também se manifestou abrindo espaço para diálogo pessoalmente.
Anteontem, aniversário de São Paulo, a ViaQuatro, administradora da linha 4 – Amarela, liberou o uso das escadas rolantes pelos milhares de ciclistas que pegaram suas bicicletas novas em um megaevento promovido anualmente pudessem voltar para casa. Ao que consta, não ocorreram incidentes com as escadas.
Hoje no fim do dia chega a notícia de que a partir de sábado que vem, 4/2, Metrô, CPTM e ViaQuatro passarão a permitir o uso de bicicletas nas escadas rolantes nos trechos de subida (que são muito mais do que os de descida). A descida ainda rola no muque.
O que aprendemos com essa história?
Que com coerência, espírito propositivo e de diálogo, é possível conquistar coisas. Parabéns, Ciclo Liga.
Que há pessoas e entidades dispostas a esse diálogo. Parabéns, Metrô, CPTM e ViaQuatro (e todas as instâncias envolvidas).
Que com vontade política (ou ausência de má-vontade), pequenas atitudes podem beneficiar muitos.
Que há mudanças em que ninguém sai perdendo.
Que quem acha que órgãos públicos a priori são piores ou menos ágeis que órgãos privados pode morder a língua agora.
Que essa articulação civil da Ciclo Liga pode ter tido grande influência sobre essa decisão, mas que não é menos importante do que os esforços de todos os ciclistas que já reclamaram anteriormente pelas vias oficiais ou dos funcionários do Metrô que contribuíram para esse parecer. Parabéns pra essa galera também.
Que é bizarro ver sua própria panturrilha num vídeo.
Agora é fazer uso adequado das escadas para que o caráter de teste se torne definitivo. Parabéns e obrigado aos envolvidos!
Não sou muito de fazer resoluções para o ano novo, porque não sou muito de enxergar o tempo da minha vida dividido em blocos de 360 e tantos dias iniciando no dia primeiro. Acho que o tempo faz mais sentido quando você o enxerga em fases, em blocos de acontecimentos, em etapas da vida.
Nesse contexto, meu “ano novo” começou com a viagem de setembro, em que pude ficar praticamente um mês comigo mesmo, sozinho, caminhando por lugares que me interessavam, dedicando todo o meu tempo a descobrir lugares/pessoas novas e pensar na vida. E tinha muita coisa pra pensar.
Nesse contexto, acabou rolando um balanço não só de um ano, mas de uma etapa da minha vida. Uma etapa bem sem-graça, em que dei uma pausa na loucura que estava sendo minha vida até 2009 e dediquei quase que todo o meu tempo ao trabalho.
Hoje rola uma angústia e um desespero para retomar esse tempo que antes era ocupado com coisas que eram construídas por muitas mãos e que faziam sentido para muita gente – e quero me dar de volta esse tempo. Mas para isso, é preciso abrir mão de outras coisas, deixar de fazer coisas que me consomem o tempo sem me dar nada em troca.
No fundo, toda a angústia vem do que eu faço ou deixo de fazer do meu tempo. Porque é dele que é composta minha vida, e quando percebo estou com quase 28 anos e passei os últimos 2 em banho-maria. Para voltar a sentir que o tempo está fluindo de uma forma bacana, vai ser preciso fazer alguns sacrifícios. Dedicar mais tempo às coisas que merecem, menos tempo àquilo que não me faz sentir bem ou criativo ou vivo.
E isso implica em escolhas, em tomadas de decisão, em sacrifícios. Porque senão, quem se sacrifica sou eu em nome de coisas, pessoas e projetos que não fazem sentido para mim, apenas me consomem tempo.
Nessa nova etapa, preciso abrir janelas de tempo para que as coisas se arejem. E pra isso, preciso estar bastante consciente do que eu quero pra vida. E preciso ser coerente, justo e honesto comigo mesmo – senão continuarei na onda de auto-sabotagem em que eu me encontrava nessa fase temporal que eu julgo ter terminado em setembro.
Contexto: Natal, família, essa coisa toda. Como em várias outras vezes, ontem fui para a casa dos meus pais de bicicleta (pouco mais de 20Km). Perto da casa deles, tive um problema com a corrente, que rompeu-se. Na impossibilidade de voltar pedalando, hoje trouxe a bicicleta pra casa de metrô – como faço muitas vezes quando está tarde, ou estou muito cansado.
Meu trajeto: meu pai me deixou na estação Artur Alvim (Linha 3 – Vermelha), e eu moro a 2 quadras da estação Consolação (Linha 2 – Verde). Para ir do ponto A ao ponto B, tenho de fazer baldeação na estação República e pegar a moderníssima (e privatizadíssima) Linha 4 – Amarela. Desço na estação Paulista, que é integrada com a estação Consolação, meu destino final.
A questão: Dos milhões de passageiros que diariamente veem a mensagem de que “aqui sua bicicleta é bem-vinda” (ai que lindo!), são poucos os que sentem na pele as restrições impostas pelas regras estabelecidas. Muitas são em função das próprias limitações da nossa frágil rede metroviária. Mas há outras que simplesmente dificultam absurdamente a integração do modal bicicleta + metrô, sem grandes justificativas.
A pior delas sem dúvida é a impossibilidade de trafegar nas escadas rolantes. Isso significa que ciclista tem que subir de escada fixa, tendo de levar a bike NA LOMBA, mesmo havendo formas mais práticas à disposição. Quem pega as cômodas escadas rolantes do metrô todo dia muitas vezes não percebe o perrengue que seria se essas escadas rolantes não existissem. Pois bem, no meu trajeto de hoje contei todos os degraus:
Artur Alvim
Subi 10 degraus para ter acesso à rampa
Desci 36 degraus para chegar à plataforma (descida é mais fácil, mas não muito)
República
Subi 71 degraus pra chegar à Linha Amarela
Paulista
Subi 23 degraus para sair da plataforma
Subi 19 degraus pra ter acesso à Linha Verde
Consolação
Subi 63 degruas pra chegar à linha de bloqueios
Subi 48 degraus para chegar à rua
Total: 270 degraus
Para um efeito comparativo, ao chegar em casa contei quantos degraus tem cada andar do prédio onde moro (que tem um pé direito bem alto, por sinal). Cada andar tem 18 degraus. 270/18 = o equivalente a exatos 15 andares com a bicicleta nas costas.
Mas sua bicicleta é de alumínio, é levinha, não é? Sim, ela é de alumínio, mas pesa 16 Kg. Sem contar a bolsa que acoplo no bagageiro, que hoje pesava mais 7Kg. No total, são 23 Kg que mal se sentem quando equilibrados sobre duas rodas, mas que são terríveis quando se tem de tirar essas duas rodas do chão para subir 15 andares de um prédio.
Para uma comparação, 23 Kg é o limite de peso permitido por várias empresas aéreas para a bagagem despachada. Ou seja,15 andares carregando uma mala grande de viagem quando havia, em todas essas circunstâncias, mais de uma escada rolante à disposição. Desnecessário dizer que escrevo esse texto com dor nas costas.
O que os ciclistas fazem, hoje, frente a essa situação? Basicamente, ou se sujeitam a essa situação que chega a ser desnecessariamente humilhante, ou dão uma de joão-sem-braço e enfrentam as escadas rolantes, sempre com a iminência de receber uma advertência dos funcionários do metrô. Já ouvi as desculpas mais criativas que vários amigos dão aos seguranças quando eles são abordados.
Queria muito que o Metrô fosse igualmente criativo na busca por soluções. Que podem ser tão simples como abrir mão dessa regra, ou de definir uma escada rolante “bike friendly” em todos os trechos.
Vez ou outra me pego olhando para minhas próprias fotos de viagens e pensando nas cidades retratadas, no que eu estava pensando quando notei aquele detalhe ou quando cruzei aquela esquina. Às vezes essas memórias são super ricas, me lembro que música estava tocando no meu fone naquele instante, ou ainda o que eu comi imediatamente antes ou depois de registrar aquele momento.
Mas uma coisa curiosa que esse resgate da memória traz é a relação que se estabeleceu entre o visitante e o local visitado. Há lugares por onde você passa, gosta, registra, mas não relembra com sentimentos maiores do que “ah, verdade, passei por esse lugar, era lindo”, mas esses lugares não despertam uma angústia de ver novamente aquele canto tão cedo. Na minha mais recente viagem, foi o que ocorreu na maioria das cidades espanholas por onde passei (Sevilha, Madri, Toledo, Segóvia) e ainda no Porto e Coimbra (embora essas duas já tenham despertado uma simpatia maior pela familiaridade do idioma, dos sotaques, das comidas). É mais ou menos essa mesma sensação que eu sinto com o Rio e Janeiro ou com Montevidéu. São todas cidades que visitaria novamente com gosto, mas não é uma prioridade voltar rápido.
Há as cidades que te provocam, que fazem você querer voltar, jogam na sua cara que você não viu tudo o que ela tem pra te oferecer: os pormenores, a diversidade, a quantidade maluca de coisas e lugares diferentes a descobrir – e que como turista você sempre estará em desvantagem, sempre estará aproveitando aquém do que o que a cidade oferece – e seria necessário ficar ao menos alguns meses para que seja possível sentir que a cidade começa a ser “domada”. Era o que eu já sentia com relação a Londres e Berlim, e que na segunda visita Paris também me despertou, assim como Barcelona. Quanto a Nova York, nem se fala. É uma cidade infinita – na horizontal e na vertical.
Mas foi Lisboa a cidade que despertou algo que até então eu só havia sentido com relação a Buenos Aires: uma vontade diferente da de visitar ou de passear, mas de ficar, viver, habitar, permanecer na cidade. Estabelecer vínculos, criar raízes, fazer amigos. Há uma beleza indescritível na diferença entre cada bairro, na arquitetura tão familiar, nas nuances da língua. É de uma poesia imensa a decadência da cidade baixa, ou a Alfama que parou no tempo. Não consegui ficar mais do que algumas horas na região moderna da cidade, mas no último dia fiquei uma tarde inteira em um dos inúmeros miradouros – tomando uma cerveja, observando o movimento da praça, pensando nas pessoas amabilíssimas que eu havia conhecido na noite anterior, olhando o Tejo ao fundo e sentindo com um aperto no coração de quem não queria ir embora.
Update: esse post estava armazenado há 4 meses como draft, rascunho em meu WordPress. Reli e achei uma pena não ter sido publicado, então publico agora. Detalhe engraçado: não me lembro exatamente qual foi a discussão que acarretou esse meu e-mail.
Tudo começou com uma discussão sobre gêneros em um grupo de emails de que participo. Comentários que geraram polêmica, reações imediatas e uma longa discussão acerca dos comentários e dessas consequentes reações. Uma prosa que iniciou-se inflamada com argumentos de igualdade de gêneros e de anti-sexismo, e que migrou para um contexto mais amplo.
Acho que essa introdução dá conta de esclarecer o ponto de partida para esse post. Não entrarei em mais detalhes porque não vou expor pessoas ou discussões que ocorrem em um âmbito (de certa forma) privado. O que quero expor aqui foi um texto que postei no meio desse furdunço, pois gostaria de ouvir as opiniões de gente que não faz parte do círculo a quem foi destinado originalmente esse e-mail que aqui transcrevo:
Sabem do que eu mais gosto na bicicletada? A diversidade a que ela se propõe. Por mais que a lista reflita um pouco menos essa diversidade do que o evento das sextas-feiras em si, é uma diversidade que me interessa sobretudo porque se engaja em prol de uma causa com a qual eu me identifico. Gosto da definição da “coincidência organizada”, que é o que define a massa crítica em sua forma. Mas do ponto de vista das idéias, mais do que uma coincidência, acaba rolando também uma convergência de pensamentos que apontam para uma mesma direção, para muito além da causa da bicicleta.
Essa discussão de gêneros reflete isso. Porque a luta por uma cidade com mais respeito e espaço às bicicletas é reflexo de um modelo econômico e político opressor pra caralho, e que não oprime apenas os ciclistas. Oprimem tudo o que vai contra essa hegemonia que transcende as dimensões sociais, políticas e econômicas. E contra essa opressão, surgem os mais diversos movimentos contra-hegemônicos que, apesar de fragmentados em causas diferentes (bicicletas, feminismo, movimento negro, diversidade sexual, habitação, direito à terra, meio ambiente, proteção animal, vegetarianismo, legalização das drogas, direitos humanos, software livre, transparência política), todos lutam por uma sociedade mais justa e humana. Por isso foi tão linda a Marcha pela Liberdade que rolou há pouco na Paulista, porque não era um movimento de partidos políticos, não era um encontro de gente que lutava por uma única causa isolada, mas um monte de movimentos que se juntaram autonomamente para unir vozes numa mesma direção. E a bicicletada estava lá, claro, e foi emocionante pra caralho descer a Consolação de bike, furando o cordão de isolamento que a polícia havia estabelecido, com os gritos de aprovação da galera que estava concentrada pra dentro do cercadinho militar.
Uma vez uma amiga comentava sobre pessoas que não se conhecem por acaso. É raro você ficar amigo de alguém porque passou pela pessoa na rua e disse “oi, gostei de você, quer ser meu amigo?”. Mas é mais fácil se aproximar de alguém que tem alguma crença, algum gosto, alguma característica em comum. Não à toa, quando comecei a classificar amigos nos círculos do Google+, percebi que tem vários que estão em vários círculos diferentes ao mesmo tempo, e que nenhum deles eu conheci aleatoriamente. Também não foi à toa que a bicicletada já rendeu amizades incríveis (inclusive gente que não mora no Brasil, e que só nos esbarramos graças à bicicleta).
O que quero dizer é que essa lista traz mais do que apenas contatos de gente interessada em pedalar pela cidade. Enxergo a bicicletada como um ponto de encontro pra pessoas que usam (conscientemente ou não) a bicicleta como sua principal arma de luta política. Leve, elegante, divertida, não-poluente, simpática, fluída, que pode ser usada para lazer – mas não deixa de ser uma arma poderosa. E esse é o denominador comum dessa nossa livre associação de indivíduos chamada de bicicletada. Mas serve de ponto de partida para encontrar, nesse mesmo meio, muita gente que projeta para outros âmbitos esse mesmo espírito livre e de igualdade que esperamos nas nossas ruas.
Por isso acho tão fundamental que essa discussão ocorra. Não como forma de repressão ao pensamento X ou Y, mas como forma de debate, de discussão de idéias. Assim como curto quando vejo discussões que fujam do tema “bicicleta”, acho importante quando há a insistência em debater SIM um assunto ou outro, ainda que sempre haja alegações de fugir do tema, os “zzzzzz”, os “foda-se” e os “caguei”. Discute-se tanta coisa de tão menos importância por aqui, acho fundamental que também destine-se tempo e energia para discutir assuntos como esse, e fico feliz quando acontece. (…)
Enfim, enquanto nessa lista houver espaço e disposição para prolongar, sim, debates como esse, com argumentações, exposições de pontos de vista, dá gosto de continuar acompanhando a prosa. A partir do momento em que o assunto se pasteurizar só no “menos carros, mais bicicletas”, sem agregar nada além disso, será o momento de cair fora dessa lista… talvez encontrando eventualmente as pessoas legais que essa lista me permitiu conhecer.
Nos bancos e nas casas de comércio deste mundo ninguém se incomoda a mínima que alguém entre com um repolho debaixo do braço, ou com um tucano, ou soltando da boca como um barbantinho as canções que minha mãe ensinou, ou trazendo pela mão um chipanzé com uma camiseta listrada. Mas basta uma pessoa entrar com uma bicicleta para que seja expulso com violência para a rua enquanto o proprietário recebe advertências violentas dos empregados da casa.
Para uma bicicleta, ser dócil e de comportamento modesto, constitui uma humilhação e um escárnio a presença de cartazes que a fazem parar, altivos, diante das belas portas de vidro da cidade. Sabe-se que as bicicletas procuram por todos os meios modificar sua triste condição social. Mas absolutamente em todos os países da terra é proibido entrar com bicicletas. Alguns acrescentam: “e cachorros”, o que duplica nas bicicletas e nos cães seu complexo de inferioridade. Um gato, uma lebre, uma tartaruga podem em princípio entrar na casa Bunge & Born ou nos escritórios dos advogados da Rua San Martín sem provocar mais do que uma surpresa, grande deslumbramento entre telefonistas ansiosas, ou no máximo uma ordem ao porteiro para que ponha na rua os mencionados animais. Isto pode acontecer mas não é humilhante, primeiro porque só representa uma probabilidade entre muitas, e depois porque nasce como efeito de uma causa e não de uma fria maquinação preestabelecida, horrendamente impressa em chapas de bronze ou de esmalte, tábuas de lei inexorável que esmagam a simples espontaneidade das bicicletas, criaturas inocentes.
De qualquer maneira, cuidado, gerentes! Também as rosas são ingênuas e doces, mas talvez vocês saibam que numa guerra de duas rosas morreram príncipes que eram como raios negros, cegados por pétalas de sangue. Não vá acontecer que as bicicletas amanheçam um dia cobertas de espinhos, que as hastes de seus guidões cresçam e ataquem, que encouraçadas de furor elas arremetam em legião contra as vitrines das companhias de seguros e que o dia aziago se encerre com uma baixa geral de ações, com um luto de vinte e quatro horas, com pêsames mandados em cartões.
Acabo de ler alguns textos de um texano que inesperadamente descobriu que São Paulo é a cidade onde ele queria viver. Conheço alguns franceses que fizeram a mesma escolha, e inclusive semana passada um deles comentava sobre o quanto é desagradável ficar justificando suas razões aos brasileiros incrédulos com sua atitude de sair da França para viver por aqui. Ao ler o blog do americano, fiquei fascinado com a descrição que ele fez da cidade – parcial e apaixonada, sem deixar de ser precisa e crítica. Talvez se eu lesse esse texto sem morar aqui ou sem conhecer a cidade descrita, faria questão absoluta de conhecer e fazer um enorme esforço para também me mudar para lá.
O que mais me impressionou foi a riqueza de detalhes, da minúcia das constatações do olhar estrangeiro para falar da comida, das pessoas, do caos urbano, da desigualdade, dos ritmos, da arquitetura, da concepção do espaço público, das contradições, do contraste. Claro que aponta para características que estamos cansados de conhecer, mas traz também um olhar de ineditismo que desperta a atenção para detalhes que nós, de tão acostumados, ignoramos. Me impressiona toda vez que alguém de fora daqui me mostra algo que eu não sabia sobre minha própria cidade, me traz algum dado novo sobre um edifício, um bairro, um estilo musical já conhecidos daqui. Me impressiona, por exemplo, ler alguém descrevendo a cidade como uma provável capital mundial do graffiti e da arte de rua, que aqui é cheia de personalidade e que está por toda parte, apesar de estar bem longe de todo seu potencial. Me impressiona ver alguém constatando, com olhar de novidade, sobre nossos hábitos sociais que não reparamos porque, né, nos são naturais desde sempre.
Eu, que adoro essa cidade e sou um grande observador de seus espaços, fico espantado quando esse tipo de coisa acontece, sinto-me um impostor. Daí me lembro que com a diversidade e as dimensões dessa cidade, por mais especialista que uma pessoa possa ser, sempre haverá a sensação de que a cidade é infinitamente maior do que seu conhecimento sobre ela. Porque é mesmo, e isso é fascinante.
Na época da faculdade, quando eu trabalhava no estúdio fotográfico de lá, surgiu a ideia de experimentar sair como um turista em minha própria cidade. Ir a locais que não costumamos visitar por morarmos aqui, visitar museus, parques, igrejas, edifícios que são importantes ou iconográficos para a identidade e história da cidade – e pesquisar sobre, buscar informações que não nos interessariam simplesmente porque não trazem nenhuma novidade prática para nosso dia a dia. Descobrir lugares com o mesmo afinco e interesse que procuramos descobrir quando viajamos para outro país, outra cultura.
Semana passada passei uma tarde inteira caminhando por um bairro pelo qual costumo somente passar e ir nos mesmos lugares e me espantei com a diversidade de coisas que existem por ali, e que nunca parei para observar porque tinha outros objetivos, tinha mais o que fazer.
Isso tudo me dá uma vontade imensa de retomar a antiga ideia de olhar para a cidade com os olhos dos outros.
Mais um post estritamente pessoal. No fundo, pra variar, uma análise sobre um recorte no tempo.
Há pouco mais de um ano comecei, sem perceber, a abandonar algumas das coisas que faziam (e ainda fazem) muito sentido para mim. Primeiro fui parando de escrever sobre teatro, fazendo isso apenas esporadicamente, quando convinha. Foi mais ou menos na época em que eu também parei de fazer teatro. A fotografia também foi uma coisa que foi, aos poucos perdendo espaço no meu dia a dia, e as experiências com design já faz um bom tempo que não pratico, com nada. Desde que mudei para a frente do cinema, foram pouquíssimas as vezes que atravessei a rua e entrei no estabelecimento com intuito diferente de sacar dinheiro no caixa eletrônico que tem lá dentro. Os estudos sobre sociologia e urbanismo continuaram, ainda que bastante rarefeitos, dividindo um pouco de espaço com um pouquinho de literatura latina e arte em geral – mas não o suficiente para evitar a frustração intelectual por boa parte desse período. Não consegui iniciar a segunda graduação que pretendia, postergando o projeto para uma nova tentativa esse ano. No entanto, avancei um bocado com meu quarto idioma, com a certeza de que esse tem sido o aprendizado mais eficiente e prazeroso dentre todos os outros. Teatro eu continuo vendo muito, mas sem mais a dedicação de fazê-lo como crítico ou fotógrafo e com critérios muito mais seletivos na escolha da programação. Assisti a peças que mudaram meu referencial do bom teatro que me interessa. Poucas boas porém curtas viagens, sem muito dinheiro livre para prolongá-las em tempo ou distância. Bicicleta, parceira inseparável, assumida como transporte primário e revela-se uma incrível e inesperada ferramenta de resistência política. Tudo isso num momento em que acabo me afastando mais de meus amigos, dedicando muito p0uco do meu tempo à minha vida social e muito desse tempo à introspecção. Bom para garantir um pouco de distanciamento crítico para analisar minha vida até então, ruim por deixar tudo um tanto mais melancólico e solitário. Muita coisa se relativiza nesse período, muitos valores e conceitos são revistos, alguns minimizados, outros radicalmente potencializados.
E inicio mais um ano com vontade de retomar muita coisa, de iniciar muita coisa. Revisando o equipamento fotográfico, rabiscando ideias que ainda não estão prontas para se transformar em nada concreto, articulando outras ideias num recém-iniciado projeto que tem grandes chances de me orgulhar muito de ter participado de sua criação coletiva. Montando e customizando pacientemente minha terceira bicicleta. Preparativos para iniciar uma vida acadêmica de verdade, preparativos para uma grande viagem logo mais. Reconstrução das prioridades, dos limites e dos espaços no meu tempo – afinal é dele que se compõe todo o resto. Ansioso pra voltar a não ter tempo para nada, de tanta coisa legal que resulta do que eu faço com meu tempo.
Hoje tinha um garoto de 8 anos de idade pedalando uma pequena bicicleta no meio da Avenida Paulista, entre ônibus, carros e motos. Com um capacete que quase escondia seus olhos assustados e uma capa de chuva que vez ou outra enroscava em sua corrente (chovia o tempo todo), ele foi pedalando da esquina da Paulista com a Consolação até a alameda Campinas e voltou, também pedalando, também no meio da rua.
Acompanhando (e protegendo) o pequeno Artur, um grupo de uns 20 e poucos ciclistas que estavam ali para uma concentração simbólica que ocorria simultaneamente em várias cidades do continente. O pai de Artur decidiu levá-lo à bicicletada que ocorria exatamente uma semana após um assassino atentar contra a vida de dezenas de ciclistas em Porto Alegre, em uma manifestação política similar àquela de que o garoto participava hoje (talvez sem ter consciência disso). “Ele precisa sentir o que é isso aqui”, dizia o pai que o escoltava por todo o caminho, com a ajuda dos demais.
Quase todo mundo que eu conheço certamente chamaria aquele pai de louco, irresponsável, inconsequente. Eu, até pouco tempo atrás, diria a mesma coisa. Acharia um absurdo ver uma criança tão pequena, ainda ziguezagueando com o guidão, se esforçando pra manter o equilíbrio na segunda faixa da Paulista, entre a faixa de ônibus e uma faixa com carros que, apesar estarem com o trânsito livre, faziam questão de passar buzinando ou xingando.
Os ciclistas de Porto Alegre não estavam passeando, estavam participando de um movimento mundial chamado Massa Crítica (que traduzimos aqui para “bicicletada”, embora também haja patins, patinetes, skates e pedestres participando sempre). Trata-se, basicamente, de um movimento que reivindica o uso público do espaço público, a apropriação do espaço das ruas pela multidão que, ao mesmo tempo, é todo mundo e não se materializa como ninguém em específico. Isso acontece uma vez por mês, na última sexta-feira, e não tem trajeto predefinido, tampouco liderança. Isso para os olhos racionais e burocráticos de quem enfrenta hierarquias e o mundo da ordem, do controle e da disciplina diariamente pode soar surreal e utópico. Em termos políticos, eu definiria o encontro como uma “livre associação de pessoas sem a intermediação de mecanismos formais do capital”.
Aquele pai não estava levando seus filhos de oito e dez anos pra um passeio de bicicleta numa noite de chuva pelo meio de uma avenida movimentadíssima, mas dando a eles uma lição de política (ainda que subliminar). Estava mostrando a seus filhos que existe uma outra forma de se movimentar pela cidade além do carro que os levou até a Praça do Ciclista, mostrando pra eles que tem um monte de gente legal que também faz isso, que fica feliz por vê-lo ali, que ajuda a protegê-lo para que nada de ruim aconteça com ele. Na verdade, fica mais claro que proteção não precisa ser somente aquela promovida por seguranças, carros blindados e ambientes privados de esterilidade controlada. Espero que aquele molequinho cresça com mais e mais exemplos de que, se ele mora no meio da cidade, é a cidade que deve protegê-lo. E por isso, ele precisa estar NO MEIO dessa cidade, vivendo sua realidade – e não fugindo dela. Também precisa saber que é importante lutar para garantir que a cidade seja cada vez mais aberta à pluralidade – pois é isso que faz com que ela seja mais interessante e ofereça menos perigos.
Espero que o mini-ciclista cresça com a consciência de que, mesmo que ele tenha um carro, isso não garante qualquer supremacia a ele sobre qualquer outra forma de transporte. Espero que ele saiba que o IPVA não é pago para bancar a infra-estrutura viária, muito menos para garantir privilégios privados bancados pela máquina pública a quem o paga – na verdade é o contrário, é um imposto que se paga para compensar o transtorno causado por um bem individual ao espaço público, e que vai (ou deveria ir) diretamente ao cofre público sem qualquer predestinação de retorno exclusivo a quem pagou. Tomara que ele saiba a diferença entre o que é privado (logo, o que ele paga para ter um benefício exclusivo em retorno), e o que é público (o que ele paga para gerar caixa para a cidade, que aplica esse dinheiro de forma que beneficie igualmente a todos os contribuintes, e não somente aqueles que pagam mais).
Na verdade, tomara que ele encontre daqui pra frente governos que assumam essa postura mais democrática, de responder a interesses da sociedade como um todo, e não apenas aos interesses privados de uma elite (se em seus oito anos de vida ele sempre viveu em São Paulo, ele definitivamente ainda não viu isso acontecendo). Tomara que daqui a 10 anos seu pai possa lhe contar essa história de sua primeira bicicletada como uma curiosidade, de uma época em que São Paulo vivia o auge de sua crise estrutural, mas que ele, ainda pequeno, participou de uma forma de resistência que daqui a dez anos não será mais necessária. Tomara que Artur ande de bicicleta todos os dias se quiser, ande a pé se quiser, ande de carro se quiser. Mas que saiba que sua escolha não deve, de forma alguma, oferecer uma ameaça à segurança e ao direito ao espaço público das demais pessoas. Tomara que Artur não seja visto como um excêntrico se não quiser obedecer a um pensamento hegemônico que prejudique todos a seu redor e a si próprio em nome de uma falsa sensação de segurança e bem estar (e que na verdade só aumenta a insegurança, a intolerância, o sedentarismo e o estresse).
Mais que isso, tomara que Artur não tenha acesso a tudo isso só porque ele é o Artur, garoto possivelmente de classe média que morava na vila Mariana quando criança e que teve acesso a tudo que seu pai pôde lhe oferecer – mas porque ele é uma pessoa como qualquer outra, um anônimo que se beneficia de todas as vantagens de uma cidade mais humana, que é agradável e justa a todos, independente de qualquer aspecto social, político ou econômico. É por essa cidade mais humana e mais igualitária que é preciso resistir, ainda que de forma quixotesca, utópica, desorganizada, barulhenta e divertida. Por isso que faz tanto sentido fazer parte hoje dessa massa disforme e heterogênea que, ao menos uma vez por mês, vai às ruas questionar o porquê de tão poucas pessoas autoritariamente se autoproclamarem mais merecedoras de um bem público do que outras. Ainda que, vez ou outra, essa afronta seja respondida com atos de barbárie que evidenciam uma sociedade em colapso.
Dessa vez não é ficção, é um texto de 1976 em que ele comenta sobre como é morar na França, tirado do livro Papéis Inesperados – compilado de fragmentos inéditos do escritor, encontrados em 2006 em seu apartamento em Paris por sua viúva.
(…) Neste país e em qualquer outro país, a execução legal não é um ato de justiça e sim de medo. Não do executado, é claro, mas de qualquer disrupção que comece para além da porta da rua; medo do vizinho, medo de tudo aquilo que vive e que se agita na cidade e no país e no mundo. Um medo que quase sempre se ignora como medo e que se manifesta no plano consciente como vontade de ordem, de disciplina, de respeito a valores axiomáticos. O homem é o lobo do homem, e o homem tem medo do lobo e seu medo o leva a ser lobo, leva-o a uivar em francês ou em italiano ou em espanhol e a reivindicar com perfeita racionalidade, com total sujeição às leis e aos direitos humanos, que um assassino seja decapitado ou enforcado para que essa noite a cidade durma mais tranquila, mais segura, mais fascista. (…)
Como muitos amigos vivem pedindo sugestões do que fazer em Buenos Aires, e toda vez tenho de vasculhar meus e-mails em busca das dicas que já dei a outros amigos, decidi organizar tudo num post pra facilitar a vida de todos, principalmente a minha toda vez que me pedem esse material.
Claro que essa lista é bastante pessoal e tem um viés bastante turístico, afinal todas as vezes que fui pra lá não tinha nenhum outro objetivo que não fosse passear pela cidade. No entanto, como conheço muita gente que foi pra lá num esquema city-tour e detestou a cidade, resolvi juntar num documento só os motivos pelos quais gosto tanto de lá. Afinal, Buenos Aires é mais uma cidade “slow travel” do que uma cidade “city-tour” – na verdade, acho que qualquer cidade no mundo é assim, mas enfim.
Antes de qualquer coisa, respondo definitivamente à pergunta que sempre ouço: por que diabos eu gosto tanto daquela cidade? Afinal, com tanto lugar pra conhecer no mundo, acabo dando um jeito de sempre passar pelo menos uma semaninha por ano na capital portenha, e só de revisar essas dicas todas já dá vontade de pesquisar preços de passagens pra ir pra lá novamente.
Update em 25/2/11: Ops! Fui pra lá de novo, num bate-volta de fim de semana. Os comentários em vermelho são um update do post original. Há novas fotos ao longo do post também.
Pois bem, a maioria dos amigos sabe o quanto eu gosto de urbanismo, de observar a forma como as cidades se auto-organizam e a forma como as pessoas lidam com o espaço público – e Buenos Aires tem uma pulsação especial nesse sentido, de uma cidade que preserva sua identidade cultural e histórica e que, ao mesmo tempo, cada vez parece mais plural e moderna (nesse aspecto, a impressão que me dá com relação a São Paulo é que a prefeitura – sobretudo as últimas gestões – está louca para desligar os aparelhos deixar a cidade em coma).
Uma boa definição de Buenos Aires é a descrita por Thiago Benicchio:
(…)
Buenos Aires é uma cidade de arquitetura racional. Prédios de poucos andares cuja fachada dá direto para a rua, quase todos com varandas, quase nenhum com quadras, piscinas, playgrounds ou bosques particulares que desperdiçam o espaço urbano e espalham a cidade.
Nas ruas largas, as calçadas também são espaçosas e geralmente tem cinco metros de largura ou mais. A capital argentina tem centenas de praças e parques, cheios de bancos, gramados, áreas verdes, monumentos e brinquedos para crianças.
Taxis baratos (e velhos) circulam por toda a cidade, que foi também a primeira da América do Sul a construir uma linha de metrô.
Em uma recente viagem ao Chile, fiquei impressionado com a quantidade e com a qualidade dos espaços públicos de Santiago: todos bem cuidados e cheios de gente.
O chileno Claudio, do Arriba e’la Chancha, ficou surpreso com a minha admiração e retrucou: “Você está enganado: aqui as classes altas estão se encastelando em condomínios fechados, fugindo do centro, criando distâncias e abandonando a cidade, estabelecendo um clima de segregação e medo. Espaços públicos abundantes, bem cuidados e cheios de gente você vai encontrar em Buenos Aires”.
(…)
À primeira vista, ali tem muita coisa que costuma nos deslumbrar quando vamos a cidades “desenvolvidas” (organizada, bonita, arborizada, com um enorme senso de preservação de seus edifícios e sua história, praças enormes com gramados, restaurantes, cafés, sorveterias e bares todos com mesas nas calçadas, etc). Ao mesmo tempo e contraditoriamente, os problemas sociais e econômicos do país o tempo todo aparecem para nos lembrar que estamos em um país de terceiro mundo sim, senhor. Para mim esse contraste, além de sufocar qualquer deslumbramento, ajuda a lembrar que uma cidade grande e caótica de terceiro mundo pode, sim, ser muito mais humana do que a São Paulo que conhecemos.
Mas então, o que fazer por lá?
Se você for o estilo turistão (daqueles que pulam de ponto turístico em ponto turístico sem saber sequer o nome do bairro onde cada um fica), bom, melhor procurar um guia ou um pacote de agência de viagem, não sei se conseguirei ajudar muito, não tenho dica dos melhores outlets da cidade (talvez a Vejinha tenha). Na verdade, eu sugeriria até pra procurar outra cidade pra conhecer, porque o mais legal de Buenos Aires definitivamente não é o eixo Casa Rosada – Obelisco – Caminito.
A primeira dica que dou é ir com tempo. Muita gente diz que 4 dias é um tempo bom pra conhecer Buenos Aires, mas isso é suficiente apenas para conhecer um pot-pourri do que é a cidade. Não que a cidade seja tão grande assim, mas sobretudo porque o tempo lá é diferente. É uma cidade que, além de acordar tarde, dormir tarde e funcionar mais tarde que o padrão (dificilmente se encontra um restaurante aberto antes das 9 da noite por lá), estimula um uso diferente de seus espaços. É comum que as pessoas fiquem horas dentro de um café conversando ou lendo um livro – e por isso mesmo há tantos cafés e mesinhas nas calçadas e praças.
Por falar nas calçadas e praças, o mais comum é ver, no meio de um dia comum, as pessoas sentadas, deitadas, tomando sol, passeando com o cachorro. Lá as praças têm gramados e bancos e estão à disposição das pessoas – que usam esse espaço. Parece óbvio, mas basta olhar para as praças de São Paulo para ver que, enquanto lá o espaço público é um espaço de todo mundo, que está ali para ser usado, por aqui o espaço público é terra de ninguém, de passagem, onde ninguém quer estar e não faz questão alguma de permanecer. Em Buenos Aires é muito comum, por exemplo, ver um engravatado deitado em um gramado ou num banco no meio da semana, em plena hora do almoço, fazendo uma siesta rápida antes de voltar para o batente.
Falo tudo isso porque deitar num gramado para tomar sol é uma coisa que nunca aparece num roteiro-turistada de 3 dias, mas é algo que realmente recomendo que seja feito naquela cidade, de preferência pra despressurizar a correria de viagem e se acostumar com os aires portenhos.
(Desta última vez que estive lá, uma de minhas praças preferidas, a Plaza Palermo Viejo estava mais uma vez lotada de gente. Crianças no playground, velhinhos, casais namorando, gente dando comida aos pombos, pessoas passeando com os cachorros (que, naquela cidade, são invariavelmente imensos). Tudo estava lindo como todas as vezes que visito a praça, a não ser pela presença daquela marca de iogurte dos gases e acúmulo intestinal fazendo poluição visual e sonora com um imenso balão inflável enfeiando o espaço público.)
Tá, mas então o que fazer por lá tanto tempo?
Se eu tivesse que resumir a duas coisas, responderia: caminhar pelas ruas e comer. Muito. No meu caso, caminhar pelas ruas envolve também fotografar (todas as fotos desse post ilustram bem isso, hehe), e da próxima vez que for pra lá, levo alguma de minhas bicicletas, porque a cidade é toda plana e convida muito a dar uma volta – ainda que o trânsito não pareça muito diferente do de São Paulo (mas a esse eu já estou acostumado) (#FAIL, não levei a bicicleta dessa vez, e fiquei um fim de semana inteiro morrendo de vontade de pedalar). Mais abaixo comento um pouco sobre os bairros principais da cidade – e por onde dar uma paradinha.
Transporte
Se locomover por lá é algo muito simples, com os quarteirões quadradinhos e com numeração regular (cada quadra tem exatamente 100 números, ou seja, para ir do número 400 ao 900, andam-se exatamente 5 quadras), com os taxis baratos e abundantes (sempre dê como referência a esquina mais próxima, por exemplo: Azcuénaga y Beruti, ou Pueyrredón y Santa Fé). Ônibus funcionam a noite toda, as linhas são muito bem distribuídas pela cidade (lembre-se de comprar um Multiguía em alguma banca de jornal), e o Subte, como eles chamam o metrô, apesar de velho e sujo, é eficiente e ridiculamente barato (1,10 peso, ou 55 centavos de real das últimas vezes em que estive lá). Vale dar uma volta na linha do metrô sob a Av. de Mayo, que é a linha mais antiga da América do Sul (da década de 20 – para se ter uma ideia, o metrô em São Paulo começou a funcionar só na década de 70) e por onde ainda circulam trens de madeira.
San Telmo
Talvez o bairro mais legal, é a área boêmia da cidade, onde a bebedeira começa meio tarde, mas vai longe, com as pessoas migrando de bar em bar atrás do que fazer nos estabelecimentos que têm como epicentro a plaza Dorrego. Durante o dia, a principal atração são os antiquários e a arquitetura daquelas ruas de paralelepípedo que (felizmente) parecem ter parado no tempo, e aos domingos rola a tradicional feira de San Telmo, na própria plaza Dorrego. Mas quem caminhar pelo pequenino bairro com mais calma encontra pequenas preciosidades, como restaurantes descolados, livrarias de arte, lojas de design e, claro, a estátua da Mafalda (recém-inaugurada, é clichê mas é sensacional, ali sentadinha em frente à casa onde Quino a criou).
Ano passado, num impulso de me perder por San Telmo atrás de novos lugares para explorar, descobri uma livraria descoladinha especializada em livros de arte (onde acabei gastando uma bela duma grana com edições que eu só encontraria ali) e, logo ao lado, um restaurante simpático onde comi um delicioso frango ao malbec por um preço ridiculamente barato no almuerzo ejecutivo. Putíssimo por não ter anotado o nome do local ou ao menos a rua, para poder voltar e indicar aos amigos, dessa vez encontrei novamente tais estabelecimentos e anotei nome e endereço. Trata-se da livraria Asunto Impreso (Peru 1064) e do simpático Las Mazorcas Bistro (Peru 1024).
Palermo
Meu segundo bairro preferido, este é imenso. Possui uma infinidade de parques, jardins e praças, mas o mais legal é a região do Palermo Viejo (que alguns frescos gostam de chamar de Palermo Soho ou Palermo Hollywood – update: Palermo Hollywood fica do outro lado da linha do trem e é igualzinho ao Soho – só que em vez de lojas de roupas, tem baladas, bares e restaurantes), que certamente foi um dos motivos por Buenos Aires ter entrado no circuito internacional do design. Ruas de paralelepípedo e casas das décadas de 30 e 40 abrigam ateliês, lojas de roupas, design e decoração – tanto de criadores locais como de grifes internacionais. Aos fins de semana rola a feira ao redor da plazoleta Cortázar (que os locais conhecem como plaza Serrano, nome antigo da praça) – e há uma porção de lojas coletivas de jovens estilistas locais vendendo roupas muito legais a preços realmente bons. Recomendo ainda passar na Papelera Palermo, na calle Honduras. É uma papelaria que vende… papel. Livros, cadernos, presentes, todos artesanais. Toda vez que vou lá saio carregado de coisas.
(Update: da outra vez só fotografei a placa, mas dessa vez recomendo entrar nessa Paul French Gallery. Loja mega legal de artigos de decoração, nos fundos de um corredor.)
Recoleta
É um dos bairros tradicionais de classe média-alta da cidade, uma espécie de Leblon ou Higienópolis portenhos. Foi fundado quando a elite fugiu da peste que dizimava a galera em San Telmo (muito semelhante com o que ocorreu com a região do Bixiga em São Paulo, com a turma rica fugindo e ocupando o Higienópolis – aliás, há muita semelhança entre San Telmo e o Bixiga). Fato é que se Manuel Carlos fizesse novelas argentinas, certamente aconteceriam na Recoleta, com as ruas arborizadas, as senhorinhas laqueadas, dos paseoperros passeando com uma dúzia de cachorros imensos cada, dos cafés por toda parte. Foi ali onde fiquei todas as vezes que fui pra lá, nas imediações da Santa Fé com a Pueyrredón. Das próximas vezes, pretendo ficar mais em San Telmo ou Palermo. Na verdade, da próxima vez não quero sair desses dois bairros. (#FAIL, fiquei na Recoleta de novo. Como levei meu pai para conhecer a cidade, preferi ficar em uma região que eu já sabia que seria legal.)
Puerto Madero
Com 20 anos de existência, é o bairro mais novo e caro da cidade, único pedaço com prédios modernos e espelhados – vai desde o canal onde antes funcionava o antigo porto, até um pouco além, onde antes era um imenso aterro de lixo. O canal me parece uma tentativa frustrada de ser tipo o bankside do Tâmisa – se for isso mesmo, não deu muito certo, e acaba parecendo mais uma coisa meio Brooklin/Vila Olímpia, só que mais bonito. Além de passear pelo canal, um bom programa ali é comer uma boa carne nos restaurantes ao redor – mas prepare-se pa pagar preço pra turista, caríssimo (para os padrões portenhos, nada de exorbitante para os padrões paulistanos).
Plaza de Mayo e Avenida de Mayo
Toda a parte “turístico-histórica” da cidade fica relativamente concentrada próxima a essa praça, onde fica a casa rosada (tem um tour gratuito de hora em hora, mas é chato), a catedral, o banco central e os protestos políticos (sempre vai ter algum furdunço rolando, seja do protesto das mães da Plaza de Mayo, seja o acampamento dos mutilados da guerra das Malvinas, seja algum protesto da ocasião – da última vez que fui, a polêmica da vez era a votação do casamento gay).
Dali daquela praça segue a Avenida de Mayo, que liga o palácio do governo ao congresso, e há quem diga que é a avenida mais francesa fora da França. Essa avenida é o eixo principal da cidade, notem que é a partir dela que os bairros se dividem no mapa. Recomendo passear com calma por ela, de ponta a ponta, porque é realmente muito bonita e cheia de marcos importantes da cidade, como o edifício Barolo e o café Tortoni (pico máximo da turistada na cidade, se quiser pagar caríssimo e em dólares pra ver gente dançando tango, esse é o lugar. Eu sempre passo longe – é Hopi Hari demais pra mim, e se é pra ouvir tango, continue lendo que tenho uma dica muito melhor).
Malba
Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires, é definitivamente o meu lugar preferido na cidade. Um museu pequeno, moderno, sem cara de mausoléu. Abriga a coleção particular de arte latina do século XX de Eduardo Costantini, o homem mais rico da Argentina (e, olhe só, dono do museu). Tudo ali vale a pena, desde a coleção permanente (que inclui, por exemplo, o Abaporu de Tarsila do Amaral); as exposições temporárias, sempre muito legais; a livraria especializada em livros de arte; a lojinha com bugigangas descoladas (desde souvernirs do museu até câmeras Lomo – aquelas soviéticas de plástico feitas na China); o café-restaurante e a programação fenomenal de cinema, que é sempre de dar água na boca. Dica: estudante entra de graça no museu, só apresentar carteirinha. Saindo dali, recomendo dar uma volta pelos bosques de Palermo.
El Ateneo Grand Splendid
Considerada uma das livrarias mais bonitas do mundo, na Av. Santa Fé, essa filial da rede El Ateneo foi construída onde antes funcionava o teatro Grand Splendid. As cadeiras deram lugar às estantes e o palco abriga o café da livraria. Apesar de ser imensa, todas as vezes que fui lá, não encontrei os livros que buscava – mas lá a atração maior é outra, os livros parecem ser mero pretexto (na verdade, livraria é o que mais tem nas ruas daquela cidade). Há vários teatros nos mesmos moldes do Grand Splendid que ainda funcionam na cidade, como o Gran Rex – onde acontecem grandes shows musicais.
Club Atlético Fernández Fierro
Da última vez que fui, coincidiu de rolar um show da Orquesta Típica Fernández Fierro em sua casa. Só achei o lugar graças à numeração infalível das ruas – e ao chegar à única alma viva parada na rua e perguntar, timidamente, “Fernández Fierro?”, o cara abre o portão, indicando um corredor enorme e dizendo “bienvenidos al Club Atlético Fernández Fierro”. Bom, “club atlético” é como a banda, independente e auto-gerida, chama sua casa de shows num grande galpão no miolo de um quarteirão residencial, se não me engano, no bairro de Almagro.
Já havia visto o Fernández Fierro em São Paulo, mas vê-los tocando em casa dá uma dimensão totalmente diferente para o trabalho da banda (afinal o Auditório Ibirapuera é o lugar perfeito pra descaracterizar qualquer atração com sua arquitetura imponente, mas equivocada e caduca). Enfim, é uma orquestra completa (com 4 bandoneóns, 3 violinos, 1 viola, 1 violoncelo, 1 contrabaixo, 1 piano e 1 vocalista) que toca tangos clássicos e contemporâneos – mas com um detalhe: todos eles têm entre seus 20 ou 30 e poucos anos e assumem uma estética e uma postura totalmente diferente do que se imagina de uma “orquestra típica” de tango. E o som deles é FENOMENAL. Esse vídeo é de arrepiar:
Freddo
Rede de sorveterias espalhada pela cidade toda. O de dulce de leche granizado é o sorvete mais fantástico que já tomei na vida, sempre que vou a Buenos Aires tomo um desses todos os dias. Enfim, não tem muito como descrever, tem que tomar.
El Sanjuanino
É um restaurante de empanadas, com três lojas na cidade – e pra mim aquele aquele é o sabor de Buenos Aires. Não se assuste com o ambiente escuro e o aspecto meio estranho do lugar (ao menos o da loja da Sánchez de Bustamante, com mais de 50 anos), as empanadas dali são fenomenais (minhas preferidas são a de cebola e queijo e a de frango).
Alfajores
Havanna é bom, mas é caro. Recomendo dar uma volta num supermercado, há muitas outras marcas. Dica: O Jorgito de dulce de leche é igualzinho ao Havanna, só que com o que você paga por 1 Havanna você compra uma bandeja com 6 Jorgitos no mercado (o Jorgito de mousse é ruim, fica a dica). Em compensação, na Havanna tem uma coisa que vale a pena (e muito): Havannets, uma espécie de dan-top com doce de leite em vez de marshmallow.
Medialunas
Croissants adocicados, com presunto e queijo (jamón y queso), são o café da manhã perfeito de Buenos Aires. Dá água na boca de pensar neles. O que mais gosto é o do café Martinez (uma rede que tem por toda a cidade, que equivaleria ao Fran’s Café daqui). (Curiosidade: “croissant”, em francês, refere-se à lua crescente devido ao seu formato. Logo, faz sentido que os croissants na Argentina chamem-se “medialunas” ou “meia-lua”.)
Doce de Leite
Doce de leite argentino é, via de regra, muito mais gostoso do que o doce de leite que temos por aqui. A diferença está no processo de fabricação, ele é feito, se não me engano, com o açúcar caramelado – por isso é mais escuro e bem mais doce. Comprei duas marcas deliciosas, Chimbote e La Salamandra – mas certamente deve haver muitos outros tão bons quanto ou ainda melhores.
Vinhos
Muito baratos, tanto nos restaurantes como no supermercado, porque é um produto nacional bastante consumido (diferente daqui, que consumimos esporadicamente, em geral em ocasiões específicas), sobretudo os malbecs.
Compras
Vamos falar das compras, então. Já foi muito mais barato comprar em BsAs, mas tem muita coisa que ainda vale a pena, sobretudo roupas. O ponto máximo das compras é a Calle Florida, calçadão que é um misto de rua Direita ou rua São Bento com a Oscar Freire. Multidão, muitas grifes e preço de turista. Tipo inferno na terra, manja? É lá onde ficam as Galerias Pacífico, o shopping mais famoso da cidade – que muitos acham lindo, mas eu acho o cúmulo do cafona, com seus corrimões dourados, fontes, afrescos e telhado de vidro que sempre me lembra um tender de natal. Dica: se quer um shopping quase com as mesmas lojas mas bem menos turístico, vá até o shopping de Abasto – que foi construído dentro de um antigo mercadão no naipe do mercado municipal de São Paulo).
A Av. Cordoba tem muitos outlets, mas não sei dizer qual altura ao certo. A Av. Santa Fé é um lugar bem bom pra fazer compras também. Mas prepare-se, porque todas as avenidas de BsAs são imensas.
Para compras, pra mim ainda fico com Palermo Viejo. Na rua Gurruchaga fica a Felix, loja de roupa masculina que eu adoro. Nessa última vez estava em liquidação, para minha felicidade.
Passeios
Além das feiras de Palermo e de San Telmo, que já comentei e que são programas obrigatórios pra quem quer conhecer a cidade, tem também a feira de Mataderos – que é mais afastada, mas tem uma pegada mais de cultura regional dos pampas, a cultura “gaucha” (que sim, tem muito a ver com o gaúcho do Rio Grande do Sul).
Pra quem quer dar uma fugidinha da cidade, tem o trem turístico que sai da estação Retiro (uma espécie de estação da Luz, mas bem maior que a nossa) e vai para o Delta do Tigre. Dá pra tirar o dia todo pra fazer esse passeio, porque você paga apenas uma passagem e pode descer nas estações que quiser e conhecer as cidadezinhas à margem do rio.
Se estiver com mais tempo e grana, dá ainda pra pegar o buque em Puerto Madero, atravessar o Rio da Prata e conhecer Colonia del Sacramento, cidade uruguaia (sim, atravessou o rio, tá no Uruguai) que foi colonizada por portugueses e foi motivo de arranca-rabo entre portugueses e espanhóis no período colonial. Se tiver tempo e quiser esticar o passeio, vale dar um pulo em Montevidéu, que fica a poucas horas dali e, com mais tempo ainda e já estando em Montevidéu, uma esticadinha a mais em Punta del Este. Quatro ou cinco dias são mais que suficientes para essa fugidinha para o Uruguai.
Chegando a Buenos Aires
Nem preciso dizer que prefiro comprar a passagem direto na companhia aérea do que com agência de turismo, né? A única coisa que recomendo, além de reservar com antecedência (Buenos Aires é o destino internacional favorito dos brasileiros) é ver em que aeroporto você vai desembarcar. O Aeroparque é o aeroporto doméstico, fica no meio da cidade, entre Palermo e o rio. Ezeiza, o aeroporto internacional, é longe. Já temos voos diretos de GRU para o AEP, embora a maioria vá para EZE. A proporção da distância de cada um é comparável com a diferença de Guarulhos e Congonhas com relação ao centro de São Paulo. (Fato: se der pra ir pro AEP, não pense duas vezes.)
Dinheiro
Eu sempre levo alguns pesos (100 ou 200) só pra garantir, e deixo para sacar lá, direto no caixa eletrônico. É a melhor cotação possível, mas não sei as limitações de cada banco (afinal tenho conta em banco internacional). Se não quiser arriscar, uma alternativa às casas de câmbio é o Banco de la Nación Argentina, que tem na Avenida Paulista, em frente ao edifício São Luís, quase na Consolação. Da última vez, a cotação do peso para o real era de 2 pra 1, ou seja, 1 real = 2 pesos. (A cada vez que vou pra lá me fazem mais terrorismo com relação a notas falsas – orientando a anotar números de série e ficar paranoico a toda esquina. Acho exagerado, visto que jamais tive qualquer problema com isso – no entanto, eles realmente pegam as notas e conferem antes de aceitá-las. Por via das dúvidas, deixe pra comprar seus pesos em uma casa de câmbio de confiança, ou para sacar no banco.)
Onde ficar
Todas as vezes que fui, aluguei um apartamento por uma semana no BYT. Desse jeito, tenho um apartamento mobiliado, confortável e completo à minha disposição, por um preço excelente (mais barato do que se eu fosse ficar em um hotel) e na localização que eu quiser. O bom é que você consegue escolher onde ficar, que tipo de apartamento se adequa ao que você está buscando e quanto você tá disposto a pagar. (Da última vez fiquei num flat do Temporary Apartments, que reservei pelo Booking.com – ótimo preço e o melhor apartamento onde fiquei até agora.)
Alguns amigos já ficaram em um hostel próximo à Avenida de Mayo, o Millhouse, mas não sei recomendar ou desrecomendar. Só sei que é um dos mais badalados da cidade, e que rola até mesmo balada dentro do hostel. Logo, se você busca um lugar mais tranquilo, talvez não seja uma opção.
Pra quem quiser se hospedar na faixa, sempre tem também o Couchsurfing, a rede de contatos pra quem topa ficar na casa de alguém que more na cidade – mas aqui recomendo pesquisar com bastante antecedência, pois amigos que utilizam a rede disseram ser bastante trabalhoso conseguir um couch na cidade.
Dois lembretes importantes
1) Propina é a forma como eles chamam a gorjeta do garçom. Assim como aqui, ela é de 10% e não é obrigatória. No entanto, ao contrário daqui, ela não vem somada na conta – você tem que dar espontaneamente. Fica a dica.
2) Segurança: já vi muitos apavoradinhos aí dizendo que a cidade é perigosa. No geral, me sinto muito mais seguro andando por lá do que andando perto da minha casa, nas imediações da Av. Paulista – mas eu tendo a romantizar aquela cidade porque gosto demais de lá. Fato é que conheço gente que deixou de aproveitar muita coisa de lá por medinho – e isso é, no mínimo, patético. A dica que dou é: tome cuidado com sua segurança como você tomaria em qualquer grande cidade. Não precisa de mais do que isso.
Noite de domingo, prelúdio de mais uma semana de muito trabalho. Após um dia inteiro entre um filme, um pouco de música e um tanto de chuva, vem um aperto terrível no coração, um desespero, um pensamento súbito nos amigos, nos projetos, na tristeza, nas expectativas, na solidão. A cidade entra pela janela, indicando que lá fora tem gente, movimento, energia. Pego a bicicleta e vou pra lá, me encontrar com essa vida que acontece lá fora.
Pense nisto: quando te presenteiam com um relógio, te presenteiam com um pequeno inferno florido, uma cadeia de rosas, um calabouço de ar. Não te dão somente o relógio, muitos parabéns a você e esperamos que te dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não te presenteiam somente com esse pequeno quebra-pedras que prenderás a teu pulso e passeará contigo. Presenteiam-te – não sabem, o terrível é que não sabem -, presenteiam-te com um novo pedaço frágil e precário de ti mesmo, algo que é teu mas não é teu corpo, que tem que se prender a teu corpo como um bracinho desesperado pendurando-se no teu pulso. Te presenteiam com a necessidade de dar-lhe corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; te presenteiam com a obsessão de conferir a hora exata nas vitrines das joalherias, no anúncio pela rádio, no serviço telefônico. Tepresenteiam com o medo de perdê-lo, de que o roubem, de que caia no chão e se quebre. Presenteiam-te com sua marca, e a segurança de que é uma marca melhor que as outras, te presenteiam com a tendência de comparar seu relógio com os demais relógios. Não te presenteiam com um relógio, tu és o presente , a ti oferecem para o aniversário do relógio.
- Julio Cortázar, Historias de Cronopios y de Famas, minha tradução.
Sim, mais um post sobre bicicleta, paciência. Nesse eu respondo às duas perguntas que mais ouço de quem não é ciclista. Elas tão em negrito lá em baixo, se você não quiser ler o papo introdutório.
Enfim.
Desde que troquei a combinação “morar longe + carro” pela combinação “morar perto + bicicleta + transporte público”, além da mudança absurda de hábitos e de estilo de vida, começo a perceber o quanto as pessoas ao meu redor são assustadoramente dependentes do carro pra qualquer coisa – e o quanto eu era, sem perceber. E o quanto as pessoas simplesmente não enxergam outra possibilidade de se locomover na cidade que não seja utilizando seu carro.
Bem, no começo eu ainda argumentava sobre o quanto muitas delas não precisam obrigatoriamente pegar trânsito todo dia, ou sofrer pra achar vaga na rua, ou ser extorquidas toda vez que forem parar o carro em um estacionamento, ainda que pra tomar um café. E não me refiro só à bicicleta não, tem muitas formas de se locomover que não sejam dependentes de um carro. Mas só ouvia coisas como “mas isso é uma fase, você está vendo isso com olhar romântico”, ou “mas não é tão simples assim, o transporte público é uma droga”, ou ainda qualquer outro argumento que invariavelmente estava na ponta da língua.
No começo, ficava puto, tentava contra-argumentar – depois me acostumei. Considerando que boa parte dessas pessoas sequer saem do centro expandido no dia a dia, e muitas delas até trabalham no mesmo bairro onde moram – percebi que qualquer argumentação é inútil.
Dane-se, cada um que fique com suas escolhas – e arque com as consequências delas. O ponto aqui é: pra mim, o mais importante é deliciosa a sensação de liberdade que essa escolha me traz HOJE, AGORA (e que cada vez menos eu sentia quando dirigia). Se vai durar mais 1 ano ou 10 ou 50, veremos. Se não durar, paciência (meu palpite é que durará muito). Em pouco mais de dois meses, completo 1 ano de pedaladas.
Fato é que é legal pra caralho chegar rapidíssimo aos lugares, não ter perrengue pra estacionar, não ter gastos absurdos de manutenção, seguro, combustível. Estou adorando fazer algum exercício físico que – literalmente – me leva a algum lugar. É ótimo saber exatamente em quanto tempo eu vou chegar a algum lugar, faça chuva ou sol, com ou sem congestionamento. É muito legal conhecer mais gente que também tenha feito a mesma opção e que é tão apaixonada (ou muito mais apaixonada) por essa história toda.
Mas a questão é que não, não é meu papel convencer ninguém a esse mundo, cada um faz o que quer da sua vida. Não esperem que eu use a hashtag #vadebike, até porque eu simplesmente detesto imperativos. Quer ir de carro? Vai, ué. Mas pare de reclamar das consequências – e aviso que as coisas só vão piorar. Como diz Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá (cidade considerada modelo da reestruturação dos transportes urbanos na América Latina), “quanto mais espaços tivermos dedicados aos carros, mais carros teremos”. E quanto mais carros, bem, todo mundo sabe o que acontece. Só peço a delicadeza de não atropelar o ciclista, tá bom? Brigadú!
Claro que eu adoro quando algum amigo ou colega sinaliza que gostaria de experimentar, tem vontade de usar a bicicleta no dia a dia. Sempre me empolgo, dou o maior apoio do mundo, indico sites, me ofereço a ajudar na escolha da bicicleta, chamo pra dar uma volta. Gostaria que mais amigos me acompanhassem nessa história toda – e tento dar o mesmo incentivo que tive dos amigos ciclistas quando pensei em começar a pedalar. Queria que mais gente ao meu redor compartilhasse do prazer que é dar uma volta por São Paulo sobre duas rodas – ainda que em caráter de lazer. Às vezes, uma voltinha de uma, duas horas pelo centro é suficiente pra afastar qualquer estresse ou mal humor – além de você (re)descobrir a dimensão humana da cidade (o quanto você consegue se locomover com facilidade só com o esforço do seu corpo). Mas não vou indicar a ninguém. Meus relatos empolgados já valem como indicação pra quem quiser – minha vontade era a de ter duas bicicletas, uma só pra emprestar aos amigos e levá-los pra dar um rolê.
E aí vêm as duas perguntas que sempre ouço (pelo menos uma vez por semana cada uma delas).
Acontece que quando as pessoas comentam que têm vontade, invariavelmente a frase vem seguida do “mas eu tenho medo”. E muitas vezes esse medo é suficiente pra afastar a ideia e continuar não tendo mais uma opção de transporte (repare que estou falando de opção, alternativa, e não de uma escolha em detrimento de outra).
A questão é:
1) Mas não é perigoso andar de bicicleta em São Paulo?
Sim e não. Sim, é perigoso como também é andar de carro, de moto, a pé. Quando você sai de casa, você está exposto à rua (e aos motoristas malucos que nela vivem, assim como o crime, o acaso…). Mas a bicicleta tem um trunfo, que em geral o pedestre também tem: de bicicleta você dita seu ritmo e seus caminhos. Lembre-se que a bicicleta não tem um motor que te projeta, ela é movida pelo seu próprio esforço. Dificilmente você anda a mais que 30Km/h, e pode desacelerar e parar praticamente quando quiser, só frear e botar o pé no chão. Você pode desmontar quando quiser, e anda na calçada como pedestre. Você pode escolher um caminho mais tranquilo, menos movimentado. Dependendo do trajeto, há trechos que você ainda pode fazer pela calçada. Ok, poder, não pode. Mas se você está se acostumando e acha que está botando sua vida em risco ao pegar uma rua mais movimentada, não hesite e pegue a calçada – desde que você não represente (e nem demonstre) algum tipo de ameaça aos pedestres (que são os “donos” da calçada), por que não compartilhar esse espaço?
Com o tempo, adquirindo prática, você vai ver que pela calçada é pior (em geral o piso é ainda mais acidentado do que as ruas esburacadas, você vai muito mais devagar, você – ou ao menos eu – fica sempre com a sensação de que tá fazendo algo errado). Quando perceber que a calçada não tá ajudando, é hora de pegar a rua. Tomando alguns cuidados (sinalização adequada, comportamento previsível, segurança nos movimentos, bicicleta estável e regulada, estar acostumado com sua bicicleta, não querer competir com os carros e deixá-los passar pra deixar a pista livre pra você, não ficar muito próximo da sarjeta, respeitar seus limites e parar quando achar que deve, etc), o risco é pequeno. De verdade. Aí você percebe que os motoristas em geral são legais, a maioria é. Muita gente respeita o ciclista – e quer respeitá-lo. Claro que há as exceções, e dentro dessas exceções estão os taxistas e motoristas de ônibus. Mas eles em geral também têm ações previsíveis, então você previne estresse pedalando de uma forma mais preventiva. Conhecer o caminho também ajuda a saber os pontos críticos e os pontos mais tranquilos.
Ciclistas que pedalam há vários anos em São Paulo sempre dizem que as coisas estão melhorando muito em termos de segurança. E muito disso é reflexo também da quantidade de pessoas que decidem efetivamente usar a bicicleta na cidade, que não para de crescer. Enfim, a resposta é não, não é perigoso. O que não significa que você vá marcar bobeira e sair pedalando achando que está em Amsterdam.
2) Como você faz com suor, tem que tomar banho sempre que chega nos lugares?
Bom, aí é uma coisa que me deixa neurótico, porque transpiro muito. Foi uma das coisas que mais pesquisei quando comecei a pedalar. O ponto é: da mesma forma como você dita seu ritmo e seus trajetos pra garantir sua segurança, também pode escolher ritmos e trajetos pra reduzir a transpiração. Se você não tá apostando corrida com ninguém, não há necessidade de pedalar no talo da sua energia pra chegar mais rápido, a obsessão pela velocidade faz mal. Sair 10 minutos antes pra pedalar com mais tranquilidade já resolve boa parte do problema. Pense que tem uma galera que pedala vestida com a mesma roupa com que fica o dia todo, e não por isso deixam de lado higiene ou estilo. Basta procurar por aí por “cycle chic” que tem uma porrada de gente. Tem também o “slow bike”, que acaba englobando tudo isso que eu tô falando também.
Escolher um caminho sem muitas subidas também ajuda (meu caso, por exemplo: moro perto da Paulista e trabalho perto da Sumaré. De manhã, vou tranquilo pela Dr. Arnaldo, sem me esforçar muito pra não suar, e depois desço a Sumaré pela ciclovia. Sendo só descida, quase não há esforço).
Mas também tem uma série de cuidados que precisam ser tomados pra ajudar nesse processo todo. Nesse post, o Willian Cruz dá uma porrada de dicas boas que eu sigo, e ainda acrescento mais uma: sabonete antibacteriano (não sei se funciona de verdade, mas na dúvida não custa tomar um cuidado a mais).
No caso, eu até poderia tomar um banho no meu trabalho, mas com esses cuidados todos (trocar de roupa, lenços umedecidos, sabonete especial, etc), e sendo um trajeto de apenas 5 Km na descida, não existe essa necessidade. A volta sempre é mais chatinha, mas nesse caso, como em geral estou voltando pra casa, não há crise nenhuma em chegar e ir direto pro banho…
Dizia a primeira página do livro de poesia que comprei num sebo, na sensacional feira de Tristán Narvaja, em Montevidéu:
Lola,
Espero que você goste destes livros… Se você não gosta, você já tem folhas para dar a Pablo para que ele desenhe na missa. Não sei o que mais colocar (é a primeira dedicatória que escrevo em minha vida).
Quando a criança era criança,
andava balançando os braços,
queria que o riacho fosse um rio,
que o rio fosse uma torrente
e que essa poça fosse o mar.
Quando a criança era criança,
não sabia que era criança,
tudo lhe parecia ter alma,
e todas as almas eram uma.
Quando a criança era criança,
não tinha opinião a respeito de nada,
não tinha nenhum costume,
sentava-se sempre de pernas cruzadas,
saía correndo,
tinha um redemoinho no cabelo
e não fazia poses na hora da fotografia.
Quando a criança era uma criança
era a época destas perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui, e por que não lá?
Quando foi que o tempo
começou, e onde é que o espaço termina?
Um lugar na vida sob o sol não é apenas um sonho?
Aquilo que eu vejo e ouço e cheiro
não é só a aparência de um mundo diante de um mundo?
Existe de fato o Mal e as pessoas
que são realmente más?
Como pode ser que eu, que sou eu,
antes de ser eu mesmo não era eu,
e que algum dia, eu, que sou eu,
não serei mais quem eu sou?
Quando uma criança era uma criança,
Mastigava espinafre, ervilhas, bolinhos de arroz, e couve-flor cozida,
e comia tudo isto não somente porque precisava comer.
Quando uma criança era uma criança,
Uma vez acordou numa cama estranha,
e agora faz isso de novo e de novo.
Muitas pessoas, então, pareciam lindas
e agora só algumas parecem, com alguma sorte.
Visualizava uma clara imagem do Paraíso,
e agora no máximo consegue só imaginá-lo,
não podia conceber o vazio absoluto,
que hoje estremece no seu pensamento.
Quando uma criança era uma criança,
brincava com entusiasmo,
e agora tem tanta excitação como tinha,
porém só quando pensa em trabalho.
Quando uma criança era uma criança,
Era suficiente comer uma maçã, uma laranja, pão,
E agora é a mesma coisa.
Quando uma criança era criança,
amoras enchiam sua mão como somente as amoras conseguem,
e também fazem agora,
Avelãs frescas machucavam sua língua,
parecido com o que fazem agora,
tinha, em cada cume de montanha,
a busca por uma montanha ainda mais alta,e em cada cidade,
a busca por uma cidade ainda maior,
e ainda é assim,
alcançava cerejas nos galhos mais altos das árvores
como, com algum orgulho, ainda consegue fazer hoje,
tinha uma timidez na frente de estranhos,
como ainda tem.
Esperava a primeira neve,
Como ainda espera até agora.
Quando a criança era criança,
Arremessou um bastão como se fosse uma lança contra uma árvore,
E ela ainda está lá, chacoalhando, até hoje.