Dedicatória

Agosto 19th, 2010

Dizia a primeira página do livro de poesia que comprei num sebo, na sensacional feira de Tristán Narvaja, em Montevidéu:

Lola,

Espero que você goste destes livros… Se você não gosta, você já tem folhas para dar a Pablo para que ele desenhe na missa. Não sei o que mais colocar (é a primeira dedicatória que escrevo em minha vida).

Te quiero mucho,

(Assinatura incompreensível)

Lógico que comprei na hora.

Cidade parada

Junho 29th, 2010

Uma câmera na mochila e uma volta de bicicleta pela cidade que para pra ver o primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo.

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Canção da Infância, Peter Handke

Junho 15th, 2010

Quando a criança era criança,
andava balançando os braços,
queria que o riacho fosse um rio,
que o rio fosse uma torrente
e que essa poça fosse o mar.

Quando a criança era criança,
não sabia que era criança,
tudo lhe parecia ter alma,
e todas as almas eram uma.

Quando a criança era criança,
não tinha opinião a respeito de nada,
não tinha nenhum costume,
sentava-se sempre de pernas cruzadas,
saía correndo,
tinha um redemoinho no cabelo
e não fazia poses na hora da fotografia.

Quando a criança era uma criança
era a época destas perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui, e por que não lá?
Quando foi que o tempo
começou, e onde é que o espaço termina?
Um lugar na vida sob o sol não é apenas um sonho?
Aquilo que eu vejo e ouço e cheiro
não é só a aparência de um mundo diante de um mundo?
Existe de fato o Mal e as pessoas
que são realmente más?
Como pode ser que eu, que sou eu,
antes de ser eu mesmo não era eu,
e que algum dia, eu, que sou eu,
não serei mais quem eu sou?

Quando uma criança era uma criança,
Mastigava espinafre, ervilhas, bolinhos de arroz, e couve-flor cozida,
e comia tudo isto não somente porque precisava comer.

Quando uma criança era uma criança,
Uma vez acordou numa cama estranha,
e agora faz isso de novo e de novo.
Muitas pessoas, então, pareciam lindas
e agora só algumas parecem, com alguma sorte.
Visualizava uma clara imagem do Paraíso,
e agora no máximo consegue só imaginá-lo,
não podia conceber o vazio absoluto,
que hoje estremece no seu pensamento.

Quando uma criança era uma criança,
brincava com entusiasmo,
e agora tem tanta excitação como tinha,
porém só quando pensa em trabalho.

Quando uma criança era uma criança,
Era suficiente comer uma maçã, uma laranja, pão,
E agora é a mesma coisa.

Quando uma criança era criança,
amoras enchiam sua mão como somente as amoras conseguem,
e também fazem agora,
Avelãs frescas machucavam sua língua,
parecido com o que fazem agora,
tinha, em cada cume de montanha,
a busca por uma montanha ainda mais alta,e em cada cidade,
a busca por uma cidade ainda maior,
e ainda é assim,
alcançava cerejas nos galhos mais altos das árvores
como, com algum orgulho, ainda consegue fazer hoje,
tinha uma timidez na frente de estranhos,
como ainda tem.
Esperava a primeira neve,
Como ainda espera até agora.

Quando a criança era criança,
Arremessou um bastão como se fosse uma lança contra uma árvore,
E ela ainda está lá, chacoalhando, até hoje.

Imagens

Junho 15th, 2010

Achei sem querer, fuçando em umas pastas, revirando uns passados. Eram referência pra cenografia de um processo teatral antigo. Despertaram umas saudades, intensificaram umas vontades. Tô botando a mão num projeto pessoal novo, ainda disforme, ainda com apenas alguns rabiscos (literalmente). E que logo vou precisar da ajuda dos amigos para dar um sentido coletivo para esse embrião (por enquanto não passa de um monte de ideias individuais e, por isso, nada potentes). Tudo vai começar com um blog, e só falarei mais disso quando esse blog estiver funcionando.

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As pazes e o pôr-do-sol no Chá

Maio 30th, 2010

Hoje uma mulher com fortíssimo sotaque nordestino, cheia de malas (e acompanhada de outras mulheres igualmente carregadas) me pediu uma informação no metrô Sé, enquanto eu subia a escadaria carregando minha bicicleta. Após tê-la ajudado a se encontrar na cidade, me senti feliz ao receber seu agradecimento – nessa hora percebi que eu estava, de alguma forma, refazendo as pazes com essa minha cidade que ora amo, ora odeio. Foi nisso que pensava ao pedalar pela Rua Direita, já vazia, até que, ao chegar no viaduto do Chá, São Paulo retribuiu me dando essas cores:

Pôr-do-Sol em São Paulo

Um versus Cem mil

Abril 4th, 2010

Side+Walk

(esse post teria um parágrafo explicativo/introdutório e dedicado a algumas pessoas, mas preferi deixar pra lá)

  • Uma questão particular sempre é uma questão particular, muito menos potente do que questões coletivas, que envolvem as vidas de mais pessoas.
  • Uma questão coletiva não é a mesma coisa que uma questão individual de muitas pessoas; um coletivo não é um mero agrupamento de indivíduos.
  • Ignorar o coletivo pra pensar só no indivíduo isolado é desperdiçar tudo o que o indivíduo tem de mais potente (e o contrário também é verdadeiro: ignorar especificidades de cada indivíduo dentro do coletivo é desperdiçar o que o coletivo dem de mais potente).
  • Não se resolvem coisas complexas com interpretações simplórias.
  • É impossível pensar em coletividade sem pensar em relações políticas, de identidade e de poder.

S. João

Março 24th, 2010

Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.

(Alberto Caeiro)

Diários de Bicicleta, Parte 2: Primeiro esboço sobre cinismos e complexidades

Fevereiro 27th, 2010

A mulher chata que gritava enfurecida do outro lado da rua para os ciclistas que atravessavam a faixa de pedestre, alegando que eles não eram pedestres e, portanto, não deveriam passar pela faixa, estava coberta de razão: o código de trânsito define que as bicicletas, quando montadas, são veículos – e têm de circular no espaço que a eles é destinado.

Mesmo que os ciclistas não estivessem ameaçando a integridade e a segurança de ninguém (nem mesmo dela, que já estava do outro lado da rua quando isso aconteceu), e que estivessem avançando além da faixa para, ao abrir o sinal, sair com maior segurança, certificados de que estão no campo de visão dos motoristas e garantindo um recuo mínimo de segurança para sua partida (que os carros fazem de imediato com uma leve pisada de acelerador, mas que o ciclista precisa fazer um esforço mais lento para definir seu ritmo), nos termos da lei aquela mulher tinha razão. Mas apelar ao código e às leis unicamente, ignorando fatores diversos envolvidos em situações prosaicas como essa é ignorar a complexidade da cidade – e o que faz dela ao mesmo tempo um espaço tão problemático e tão fascinante.

Imagino que seja um sonho de todo ciclista consciente de sua escolha por mobilidade que o código de trânsito seja respeitado por todos, que os espaços sejam garantidos para todos. Puxa, que bonito, flores pra ele. Mas ele não é um herói nem a única vítima dos problemas de mobilidade da cidade – na verdade, todo mundo (pedestres, motoristas engarrafados, motoqueiros, passageiros de ônibus…) tem esse sonho de um código de trânsito plenamente funcional e respeitado. Tá bom vai, flores pra todo mundo, então.

Mas é óbvio que é contraditório defender isso e realizar com plena consciência pequenas infrações cotidianas – como o fazem pedestres, ciclistas, motoristas e a caralhada toda. A questão é: o que complexifica o abismo entre as leis e seu cumprimento é que não se trata de um código para ser cumprido individualmente, mas em um âmbito coletivo e intensivo. E isso, lógico, tem a ver com o clichê “cada um faz sua parte”, mas não é tão simplório assim. É óbvio que cada indivíduo é responsável pelos seus atos, mas apenas o cumprimento de seus deveres individuais não significa que ele esteja garantindo sua fração de civilidade, porque ele não está numa bolha isolada.

Pensar o coletivo como mero plural de indivíduos é ignorar o que o coletivo tem de mais complexo, que é sua organicidade própria (um órgão do corpo humano, apesar de ser formado por milhões de células, não atua como uma célula gigantesca, dá pra entender?). Criminalizar o pedestre que atravessa fora da faixa sem pensar na posição da faixa, na disposição de estabelecimentos, no planejamento do tráfego de veículos e nos fluxos naturais e culturais que interferem na circulação local é jogar a culpa por todo um sistema sobre um único indivíduo que erra. É personificar o responsável por uma falha coletiva.

Em tese, para a lei, o pedestre que atravessa fora da faixa está tão errado quanto o ciclista que atravessa na faixa de pedestre, o motorista que para em fila dupla esperando o manobrista e o caminhoneiro que trava uma avenida movimentada. Mas o que motiva cada infração pode ser uma chave para interpretar os problemas da cidade (muito maiores que a infração por si própria, tanto que na maioria das vezes, não havendo uma infração perceptível a olho nu, são invisíveis sem uma observação mais analítica) – e isso não quer dizer que o responsável pela infração esteja isento de sua responsabilidade, é bom deixar claro.

No caso do ciclista que comuta entre a posição de veículo e pedestre, muitas vezes a infração ocorre para garantir sua segurança (mas não todas as vezes: também não podemos ser ingênuos e isentá-lo de cometer erros em benefício de seu individualismo, assim como qualquer outra pessoa). E essa garantia de segurança não ocorre apenas num momento pontual e crítico (como, por exemplo, o momento em que um taxista ou motorista de ônibus se joga sobre ele para garantir a soberania sobre a beira da calçada, onde estão os passageiros): muitas vezes é necessário criar artifícios não previstos na lei para sobreviver no dia-a-dia – alguns deles por meio de infrações cinicamente conscientes, mas visando uma condução defensiva (que os profissionais de tráfego e a própria lei exigem mas não possuem meios de garantir na prática a ninguém, muito menos aos ciclistas – mais frágeis que os automóveis e com condições de locomoção diferentes daqueles que estão com o motor engatado e roncando, prestes a avançar).

E na cidade onde o ciclista está num não-lugar por não pertencer nem ao espaço dos pedestres e nem ao espaço dominado pelos motoristas, as coisas são muito mais complexas do que simplesmente julgá-lo com base num código que não dá conta da organicidade. E isso não significa que suas atitudes sejam justificáveis, que ele esteja acima da lei (ou imune a ela), que não seja responsável pelos seus atos e que a mulher chatona esteja sem razão ao berrar do outro lado da rua evidenciando algo que não está certo. Mas considerando toda a complexidade desse ecossistema em colapso, QUALQUER ponto de vista (o da lei, o do ciclista, o do pedestre, o econômico) assumido individualmente como “o correto” não consegue dar conta do todo por ser terrivelmente ingênuo e simplista.

Esse Godot que não chega nunca

Janeiro 21st, 2010

Lembra ano passado que fiz a burrada de comprar uma bicicleta no Submarino, mas eles deram tanta mancada na entrega que cancelei a compra e comprei em um estabelecimento que cumpre com o mínimo de sua obrigação (que é entregar ao cliente aquilo que ele compra)? Pois vos digo: O PESADELO (AINDA) NÃO ACABOU. Eis a continuação da pequena novela:

Terça, 12/01/10, 1 mês e 1 dia após o cancelamento. Entro no chat para consultar o status do ressarcimento, e sou informado que eles estão “aguardando o retorno do produto ao estoque para dar baixa”. UM MÊS DEPOIS! Questiono essa demora, a moça pede um instante para verificar. Depois de um tempo, aparece a seguinte tela:

ajudaonline

Detalhe: neste momento, perdi o acesso a toda a troca de mensagens realizada no chat. Na avaliação do atendimento deixo muito claro que a inatividade do atendimento foi por culpa do atendente, e não minha. Na sequência, ligo para a central explicando todo o problema e me pedem um prazo de 3 dias úteis para resolver a questão. Recebo logo em seguida um e-mail:

Prezado Maurício.

Em atenção a reclamação direcionada a nossa central de relacionamento.

Informo que acionei nesta data o nosso setor de devoluções para que solicitem agilidade na mesma e finalizem para que possamos atendê-lo com a liberação do estorno.

O prazo para que o setor nos retorne o contato é de 24 a 48 hs úteis.

Sendo assim peço gentilmente que aguarde.

Pedimos desculpas pelo inconvenientes ocasionados.

Permaneço á Disposição de Seg á Sáb das 14:00 ás 20:00 hs.

Atenciosamente,

xxxxxx xxxxx

Tel:(11) 3305-3250 • ramal: xxxxx

Horário: segunda á sábado das 14:00 às 20:00 hrs.

Relacionamento Submarino

relacionamento@submarino.com.br

www.submarino.com.br

Observação irrelevante: Além de tudo, precisam URGENTE melhorar o português. Só nesse curto e-mail tem frase sem verbo, diversos erros de acentuação e crase, plural errado e nenhuma abreviação correta para “horas”.

Segunda, 18/01 , 1 mês e 7 dias depois do cancelamento. Ligo e novamente ouço a desculpa estapafúrdia de que estão aguardando o produto voltar ao estoque. Expliquei toda a história novamente, perguntei se estão esperando o produto (que nunca chegou a minha casa) dar uma volta pelo Brasil antes de voltar ao estoque. É aberto um chamado para solicitar a agilização (protocolo 86477138), e me pede 1 dia útil para entrar em contato em meu celular. Pergunto se esse contato será como todos os outros prometidos e nunca ocorridos, e ela diz que vai complementar o chamado com esta informação.

Continuo esperando pela “volta” de um produto que não faço a menor idéia de onde está, que jamais chegou às minhas mãos, e cujo valor foi debitado há 1 mês e meio de minha fatura de cartão de crédito, nunca voltou, e pela péssima qualidade do atendimento não vejo perspectivas de retorno próximo. Pegaram meu dinheiro, não entregaram o produto e estão enrolando pra devolver.

Quinta, 21/01, 1 mês e 10 dias depois do cancelamento. Percebo que o histórico de meu pedido desapareceu do site, dando sumiço nas incoerências que eles próprios evidenciavam nessa mesma tela antes (e ilustradas no post anterior). Mais uma vez o motivo do cancelamento que eles declaram é mentiroso: nenhum prazo de pagamento expirou – tanto que o valor foi debitado de minha fatura do cartão de crédito e é por isso que estou brigando com eles agora. Mais uma vez no sistema deles consta que o motivo do cancelamento teria sido por minha culpa. E o cancelamento não foi em 3/12 (data da compra), mas sim em 10/12. E o motivo mudou mais uma vez, notaram?

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Sem ter tido nenhum retorno desde o último contato (como já era esperado), ligo novamente e o atendente pede para ligar para a moça do e-mail acima reproduzido. Uma outra pessoa me atende e diz que cobrará uma nova posição até amanhã – e garante que desta vez eu terei um retorno, se comprometendo pessoalmente a resolver o caso. Alguns minutos depois (enquanto eu terminava de redigir esse post) ela me retorna dizendo que finalmente foi liberado o estorno, e que cairá em minha fatura em alguns dias. Agora é esperar para ver, só acredito vendo na minha fatura.

E continuo desrecomendando o Submarino com todas as minhas forças. NUNCA MAIS.

Diários de Bicicleta, Parte 1: Deslumbramento

Dezembro 30th, 2009

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Berlim e São Paulo. Adivinhem qual é qual.

Faz pouco mais de dois meses que não dirijo meu carro, que está na casa de meus pais e em pouco tempo deve ser vendido. E menos de um mês que assumi que, além do transporte coletivo (que é mais que suficiente em meu deslocamento cotidiano) e das atividades que faço a pé sem sacrifícios na casa nova, meu transporte também aconteceria sobre duas rodas.

Nada de papinho ecochato de menos poluição, ecobags e o escambau. A escolha foi por dois motivos, um prático e outro emocional. O prático é pela necessidade de praticar algum exercício físico minimamente agradável (o dia que alguém me ver puxando ferro numa academia ou jogando futebol, me interne). O emocional é pela busca de outra forma de relacionar com as ruas da cidade, uma frescura que, como deu pra notar pela maioria dos comentários em meu blog, pra mim é muito preciosa.

São Paulo não é uma cidade onde bicicletas seriam a solução para a humanidade, como acontece em Berlim ou Amsterdam – sobretudo porque aquelas cidades europeias não têm nem as dimensões e distâncias da capital paulista, nem o relevo diverso que temos aqui e, principalmente, não têm a densidade demográfica aliada à distribuição urbana que temos aqui. Sendo prático, não dá pra maioria dos paulistanos se deslocarem de bicicleta. Por outro lado, dá pra muita gente se virar sobre duas rodas por aqui – e como diz o movimento mundial pela adoção do ciclismo como alternativa para a mobilidade urbana, cada bicicleta é um carro a menos. Mas falei que não teria papo de ecochato, também não vou reproduzir o discurso ativista, vou falar de minha experiência.

As primeiras impressões são inevitavelmente as do vício de ter dirigido por quase sete anos. Pensar como ciclista e não como motorista é um exercício difícil. Bicicleta não tem retrovisor, não tem seta e, principalmente, não tem a estabilidade de um carro. Não dá pra mudar de faixa a hora que quiser, não dá pra se impor na frente dum motorista folgado que não dá passagem. Mas aí, você percebe que isso também é vício de motorista, porque você não precisa, na prática, se jogar na frente de ninguém, nem mudar de faixa. Aos poucos percebe que as conversões são mais fáceis (se você desmontar da bicicleta e for pela calçada, você automaticamente vira pedestre, e quando quiser voltar a ser “veículo”, basta montar e cair pra rua).

Aí vai aprendendo aos poucos que num semáforo, você sempre pode ser o primeiro a sair, sempre em vantagem com relação aos demais motoristas (porra, dá pra ir pela beirada, e não esperar o cara da frente começar a andar pra aí você sair). Percebe também, com o tempo, que o comportamento dos carros é muito similar ao de manadas de búfalos: é só esperar todos eles passarem que a rua ou avenida é sua, e não tem nenhum mala te acelerando por trás.

Aí você vê um carro chegando perto demais (graças à crescente quantidade de ciclistas blogueiros, você vai aprendendo aos poucos as manhas e macetes). Olha pro lado e adivinha: é um taxista se jogando em cima de você, olhando pra frente e achando que a rua e sobretudo a faixa da direita (aquela onde os ciclistas devem estar, segundo o código de trânsito) é deles. E acontece de novo, e de novo, e de novo. Uma, duas, cinco, dez vezes num trajeto de 5 quilômetros (o que acontece com esse povo, sério?). E vai percebendo o quanto o trânsito é hostil, e minhas primeiras experiências foram apenas nos dias em que a cidade está vazia. E percebe o quanto muitas vezes é forçado, por medo e inabilidade, a infrigir o código e pedalar na calçada – porque tudo é culturalmente habituado demais a pertencer aos carros.

Mas há as compensações. Estacionamentos gratuitos (poucos, alguns pateticamente inseguros, outros até com gente tomando conta de graça, bancados por seguradoras e ONGs), uma mobilidade absurdamente divertida (depois que você começa a ganhar alguma resistência e perceber que dá pra fazer caminhos maiores, você faz questão de perder uns minutos a mais pra pedalar mais um pouco), a possibilidade de estacionar na calçada que quiser caso precise fazer algo rápido como devolver filmes na locadora ou comprar água, redescobrir o mapa urbano a partir de seu relevo (pra mim isso é impagável). Tem a parte chata também: o desespero pra tomar um banho imediatamente, a vulnerabilidade ao clima, o transtorno de subir e descer até a rua, abrindo e fechando portas com um trambolho debaixo do braço, a impossibilidade de se locomover logo após uma refeição, carregar um capacete suado na mão toda vez que para em algum lugar, medo de parar em qualquer lugar, de ser assaltado etc, etc, etc. Mas basta lembrar das coisas legais, que fica tudo certo.

Próximo passo: sair pra pedalar com uma câmera fotográfica na mochila. :D

Diarinho: Balanço de 2009

Dezembro 28th, 2009

Putz, que ano. Comecei com a coragem de assumir um visual novo, que hoje curto muito. Projeto teatral fomentado pela prefeitura, projeto de crítica apoiado pelo governo do estado.  Confidências dos amigos, ficar feliz com pequenas demonstrações de confiança e de amizade. Voltar à Argentina com minha mãe, conhecer Londres e Paris ao lado de amigos de infância, rolezinho sozinho por Berlim. Apaixonar-se por Berlim. Decepcionar-se com pessoas, atitudes. Eventuais idas ao Rio de Janeiro (uma delas pra ver o show do Radiohead, que foi dos melhores de minha vida). Rever o Kraftwerk ao vivo duas vezes. Silêncios, angústias, cansaço, muito cansaço. Muita fotografia. Estreia. Decisão dolorosa de sair do grupo de teatro e voltar a ter fins de semana depois de 6 anos de dedicação a ensaios. Mudanças de rumos com relação ao mestrado – espera mais um pouco. Cidadania portuguesa. Casa nova, bicicleta nova, busca por novos hábitos. Ainda não acabou, mas foi ducaralho.

Esperando Godot

Dezembro 9th, 2009

Olá.

Envio este e-mail diretamente para atendimento@submarino.com.br pois minha reclamação não cabe nos ridículos 1000 caracteres que vocês delimitam no campo de atendimento no site. Mas tudo bem, vamos aos fatos:

- Quinta, 3/12: comprei uma bicicleta no Submarino com entrega prevista para 2 dias úteis (Pedido xxxxxxxxx).

- Sábado, 5/12: apareceu no rastreamento do site que havia sido entregue à transportadora (status que permanece até hoje)

- Segunda, 7/12, fim do prazo: não tendo recebido o produto, liguei pedindo uma posição (ficaram de me retornar com o status, protocolo xxxxxxxx, não retornaram). Liguei novamente, me disseram (rispidamente) que chegaria no dia seguinte sem falta, com prazo máximo até dia 9/12 (sem dar satisfações do motivo).

- Terça, 8/12 (1 dia de atraso): ligo pedindo uma posição. Atendente diz que o problema foi na emissão da nota. Diz “essa eu também não entendi” quando questiono a desculpa da nota fiscal, visto que o produto já estava na transportadora e na segunda não haviam me informado nada relacionado a isso. (Protocolo xxxxxxxx)

- Quarta, 9/12 (2 dias de atraso, limite do novo prazo – aquele que não teria sido informado se eu não ligasse reclamando): atendente me informa que o produto está em rota de devolução pois o CLIENTE (no caso, eu) havia recusado o recebimento no dia 7. Não passou protocolo. Eu disse que EU não havia recusado, ele insistiu que “é o que consta”. Perguntei o que ele poderia fazer  para me ajudar, se ele poderia me dar alguma posição razoável, ele disse que não poderia fazer nada. Na dúvida de ter ficado esquizofrênico sem perceber, pedi para falar com outra pessoa. Meia hora de musiquinha. Desisti porque telefone custa caro e ligar para o atendimento do Submarino é por minha conta.

No momento, sinto-me absolutamente enganado. Não quero ficar mais tempo sem esse produto e estou disposto a comprá-lo em qualquer outro estabelecimento que não me faça sentir como um otário. Mesmo que pague um pouco mais, não tem problema. Só não queria ter perdido esses dias todos esperando uma entrega que nunca veio. E se tivesse comprado em outro lugar já na semana passada, estaria há 1 semana usufruindo de minha compra.

Tenho apenas três perguntas:
1) Como eu poderia ter cancelado o recebimento de um produto que eu paguei, e que ligo diariamente cobrando sua entrega?
2) Caso eu decida continuar esperando os dois dias úteis, quando efetivamente receberei meu produto, de verdade?
3) Qual o procedimento para cancelamento da compra e estorno do valor pago em meu cartão de crédito? Quanto tempo demora?

Sem mais, aguardo retorno, o mais rápido possível.

Maurício
(11) xxxx xxxx


UPDATE 1

Quinta, 10/12, 3 dias de atraso. Recebo o e-mail abaixo (aparentemente sem relação com o e-mail mandado ontem à noite).

Olá MAURICIO ALCANTARA,

Informamos que seu pedido xxxxxxxxx está em processo de devolução. Desta forma, retornará ao nosso Centro de Distribuição e após a confirmação de chegada em nosso estoque, providenciaremos o cancelamento e posteriormente o reembolso ou reenvio.

Pedimos gentilmente que aguarde a confirmação desta devolução através de seu e-mail.

Permanecemos a sua disposição para mais esclarecimentos.

Ter você a bordo será sempre um imenso prazer para nossa tripulação!

Atenciosamente,
Maysa xxxxxxxx
BackOffice Delivery Submarino
www.submarino.com.br
Tel: (11)xxxx-xxxx

Minha resposta:

Olá,

Gostaria de entender o real motivo da devolução, visto que o produto sequer chegou até minha casa. A central de atendimento de vocês alega que houve recusa do recebimento por parte do cliente, o que não procede (vocês ao menos têm o nome de quem teria recusado o recebimento?).

De qualquer maneira, como funcionam os próximos passos? Caso eu opte pelo cancelamento+reembolso, quanto tempo demora? E caso eu ainda opte por receber o produto (que comprei e estava esperando ansiosamente faz 1 semana), quando ele chegará? Como/quando/onde eu faço essa escolha?

Estou realmente muito decepcionado com o serviço do Submarino.

Obrigado,
Maurício

UPDATE 2

No site do Submarino, o status de minha encomenda volta para a etapa anterior, “Produto Liberado”. Ligo novamente. Descubro que, ao que parece, foi o atendente de ontem (9/12) que solicitou o cancelamento (que, repito, EU NÃO PEDI). O argumento foi que caiu a linha (eu desliguei porque cansei de ouvir musiquinha). Afinal, desligar o telefone significa cancelar o pedido, certo? Não?!?

Minhas escolhas: pedir o reenvio do produto (e aguardar mais supostos QUATRO DIAS – nem a pau, Juvenal) ou cancelar. Pedi para cancelar.

Para isso, fiquei um tempão aguardando ela CANCELAR O CANCELAMENTO ANTERIOR (que, ela informa, foi um erro operacional. Jura?) para, então, cancelar de verdade. A menina não consegue cancelar, diz que eu precisaria esperar o produto chegar para recusar pessoalmente a entrega. Eu disse que não faria isso porque não fazia sentido e porque quem receberia seria o porteiro. “Ele também pode recusar!”. E eu respondo que não, ele não pode. Insisti no cancelamento, e ela pede um momento para entrar em contato com a transportadora.

Ouço um surreal “senhor, eu estou vendo uma foto da esquina da sua casa, tem uma padaria!” (HEIN???), numa tentativa de provar que houve uma tentativa de entrega que foi recusada. Pergunto o nome da pessoa que recusou, então, e ela desconversa e pede pra aguardar mais um pouco.

Depois de aguardar MUITO TEMPO, consigo cancelar o pedido (mas a menina disse que talvez ainda houvesse uma tentativa de entrega, mesmo depois disso). Duração da ligação: 35 minutos pagos por mim.

Próximos passos: ligar sábado pra confirmar se eles receberam o produto de volta no estoque e ter certeza que eles deram baixa do meu estorno, que demora uma ou duas faturas do cartão de crédito pra chegar. Ou seja, além de tudo, me fuderam o orçamento por 2 meses. Aguardem próximos updates. E eu só queria uma bicicleta.

UPDATE 3

Sexta, 11/12, 1 dia após o cancelamento. A central de atendimento nunca respondeu meus e-mails (a mensagem automática prometia a resposta em até 1 dia útil). Minhas mensagens no Twitter também nunca foram respondidas, apesar do Submarino estar o dia todo usando aquela ferramenta para fazer promoções e vender ainda mais produtos. Na página do status da minha encomenda, já consta como pedido cancelado, mas o motivo que aparece é por “não confirmação do pagamento” (mesmo apesar de, na mesma tela, aparecer que o pagamento estava OK em 3/12):

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Ou seja, mais uma MENTIRA do Submarino. Agora reparem numa coisa: só nesse pedido, há TRÊS equívocos graves (a da “recusa por parte do cliente”, a do “cliente pediu o cancelamento” e a do “cancelado por não pagamento”). Em todos os casos, a culpa seria minha se fosse verdade. Imagino que para fins de auditoria, defesa do consumidor, avaliação interna dos serviços ou qualquer coisa que o valha, constaria no registro deles que a venda não foi concretizada por falha do cliente, e não da empresa.

No fundo, além de ter confiado no esperado bom serviço deles (que já usei muitas vezes no passado, satisfatoriamente), pago, não recebido, me estressado e de ter de esperar de uma a duas faturas para ter meu dinheiro ressarcido, AINDA SAIO COMO O RESPONSÁVEL PELA SITUAÇÃO. A tentativa de me convencer a recusar pessoalmente a entrega somente quando chegasse em minha casa só reforça essa teoria. Será paranoia da minha parte?

Só espero receber meu dinheiro o quanto antes, e espero que não me enrolem aí também. Ainda estou pensando em levar essa história adiante em algum serviço de defesa do consumidor, porque é injusto demais acabar assim. E pelo que parece, não é um caso isolado: nessa saga absurda, junto com a solidariedade e apoio de várias pessoas (sobretudo no Twitter), descubro pelo menos meia dúzia de pessoas próximas a mim que também estão tendo problemas de entrega e de cancelamento indevido com o Submarino neste exato momento.

Que aconteceu, pessoal da B2W, tão vendendo mais do que conseguem entregar justo no Natal? Tava na hora de uma interdição igual à proibição de vendas do (igualmente porco) Speedy da (igualmente porca) Telefônica. Ou então de alguma lei da Tia Eda neles: entrega no prazo prometido ou produto de graça. Aí eu queria ver.

Mas pelo menos vou andar de bicicleta nova nesse fim de semana, e não será graças ao serviço imundo e ao atendimento com cheiro de má fé do Submarino. O que mais me revolta é que tudo seria muito diferente se ao menos eu tivesse sentido um mínimo de boa vontade por parte da empresa em todas as minhas (muitas) tentativas de ter meu problema resolvido (via telefone, via Twitter, via e-mail). Ou se tivessem a decência de assumir seus erros e pedir desculpas. Pelo contrário: não retornaram e só me ofenderam, irritaram e pior: me culparam pra encobrir o péssimo serviço deles. Agora eu quero é que eles se fodam.

Da Augusta – Primeiras Impressões

Novembro 30th, 2009

Há algum tempo transcrevi um trecho do livro de Jane Jacobs que me deu ainda mais tesão de observar os fluxos de pessoas na cidade (tema recorrente aqui nesse blog, não por coincidência). Lembro que fiquei emocionado ao lê-la descrever a rotina de sua rua em Nova York, e fiquei tentando encontrar onde em São Paulo seria possível ver movimento semelhante.

Mitte, Berlim

Há alguns meses, estive em Berlim e passeei muito pelo Mitte, bairro central no coração do antigo leste, e fiquei fascinado com aquela mistura de decadência, renovação e sobreposição. Eram prédios antigos, de arquitetura comunista, em ruas que acolhiam, nas mesmas calçadas e ao mesmo tempo, restaurantes étnicos, lojas de grifes mundiais, lojinhas de estilistas locais, ateliês e galerias de arte. Isso sem contar as pessoas que circulavam ali noite e dia, alemães, estrangeiros, turistas, moradores, prostitutas, pedestres e ciclistas – sim, havia ali um número inacreditável de bicicletas. Em comparação a São Paulo, arriscaria dizer que era uma inusitada mistura de Oscar Freire com baixo Augusta (mais para Augusta do que para os Jardins), e que ocupava um bairro inteiro (e não apenas uma rua e suas adjacências).

Mitte, Berlim

Voltando a São Paulo e observando a Augusta, a impressão que eu tinha é que isso aqui era tudo muito fake, forçado. A afetação dos modernos querendo provar que são modernos, a afetação das lojas descoladas tentando ser o mais descoladas que elas puderem provar que são, os culturetes se aglutinando em frente ao cinema ou aos mesmos botecos de sempre, as baladas da moda usando a localização em meio aos puteiros para fazer seu marketing… Ao mesmo tempo, via luz no fim do túnel ao perceber que na região acontecia o oposto do que no outro reduto moderno, a Vila Madalena. Ao contrário de lá, onde tudo tem cara de hippie chique com ambientes bem decorados e protegidos por cerquinhas e seguranças, na Augusta o caminho é inverso. Nos bares há disputa para ficar nas mesas da calçada, os bares mais cheios são os mais podres e as pessoas não se importam de ficarem em pé, na rua, desde que a calçada esteja cheia e haja cerveja. A impressão da forçação de barra permanece, mas há o atenuante das pessoas, de alguma forma, se apropriarem de fato da rua como um espaço público.

Acontece que faz uma semana que me mudei para a dita rua Augusta, e de meu apartamento há uma vista para um imenso trecho da rua, desde a avenida Paulista até onde começa o dito “baixo Augusta”, onde a rua faz uma curvinha e começam os puteiros e casas noturnas descoladas. Em frente, uma pizzaria fast-food que há anos conquistou esse povo “muderno” que circula pela região, e um dos mais importantes cinemas “de arte” da cidade. E um de meus novos esportes virou ficar observando o movimento, as pessoas que sobem e descem a rua, porque só olhando de cima dá pra ter uma real noção da quantidade de pessoas que passam por aqui o tempo todo.

Augusta

Não vou nem falar da diversidade porque isso todo mundo já tá cansado de ler nas matérias óbvias das vejinhas da vida (e é só lembrar que aqui tem cinema, boteco, restaurantes dos mais diversos, ônibus para várias regiões da cidade, puteiros, conexão do centro com a Paulista, lojas, metrô, teatros, edifícios comerciais e residenciais e os mais diversos estabelecimentos comerciais para atender a esse povo todo com os mais variados serviços. Acho que dá pra ter uma noção da mistura, né?). O que me agrada mais, na verdade, é a quantidade de gente mesmo, o número de pessoas que circulam pra cima e pra baixo, a qualquer hora do dia e da noite, fazendo com que a Augusta seja um espaço transitável na cidade. Mais do que um espaço de mera passagem, o que faz com que tanta gente passe por aqui é a grande diversidade de coisas para se FAZER, de dia e de noite.

Essa bagunça feiosa e barulhenta deveria servir de exemplo para os urbanistas e “revitalizadores” de plantão. Vida não se cria apenas com demolição do que é feio e imoral e construção de praças estéreis (e que necessitam de policiamento intenso) ou com estabelecimentos comerciais monumentais apenas para estimular a circulação de carros e de dinheiro. Vida nas ruas se cria com movimento das pessoas que reconhecem e legitimam regiões públicas na cidade como áreas de identidade, de lazer, de USO. E isso não garante à Augusta um índice zero de violência ou o status de um modelo a ser replicado para a cidade toda, de forma alguma. Mas com certeza me garante, por exemplo, uma sensação de segurança mínima necessária para que eu possa descer três quadras para comer algo, com tranquilidade, em plena madrugada de domingo para segunda, assim que terminar esse texto.

Arte pra quê?

Outubro 16th, 2009

La Gioconda
Meu retrato de La Gioconda de la Mona Lisa, no Louvre.

Essa semana um amigo postou no Twitter uma afirmação provocativa: “Se você parar pra pensar, a arte não serve pra merda nenhuma”. Acontece que ela ao mesmo tempo não é verdade, mas também não é mentira.

Não é mentira porque, a priori, a arte não precisa ser (e muitas vezes não é) feita pra ter alguma serventia prática. Não serve pra calçar no pé, não serve para agilizar o trabalho, não serve para alimentar as pessoas. Qual a serventia do pneu de bicicleta no banquinho do Duchamp? E do teto da Capela Sistina? E das finadas peças do Gerald Thomas? E qual a finalidade da obra de Beethoven, ou dos filmes de Chaplin, das fotografias de Bresson, ou de um videoclipe que, ao mesmo tempo em que é gravado para promover mercadologicamente uma banda, álbum ou música, pode trazer experimentações artísticas fudidas de pertinentes? E o sertanejo, o brega, o tecno-brega, e as coisas estranhas que devem estar tocando em todos os cantos em Hong Kong?

Pensando nisso, já dá pra separar “serventia” de “importância”. Particularmente, ainda que não “sirvam pra merda nenhuma”, tem um punhado de bandas, cineastas, escritores e outros artistas que, se não existissem, possivelmente (ou certamente) eu – Maurício – teria uma personalidade diferente, atitudes diferentes. Isso pode ser um indício de que a arte interfere na sociedade e em seu tempo (e pode ter – ou não – relevância para sua posteridade também).

Por esse lado, fica claro que a inaplicabilidade prática da arte é muito similar à inaplicabilidade prática da filosofia ou das ciências sociais – que ainda que não tenham finalidades materiais muito definidas, concretas, têm um papel importantíssimo: o de definir seu tempo, interferir criativamente nele e ajudar a historicizá-lo.

E não vamos esquecer da grande intersecção que há entre a arte e o entretenimento (nem tudo que é arte é entretenimento, assim como nem tudo o que é entretenimento é arte), que – essa sim – serve pra algo muito bem definido: entreter, agradar, divertir. E, claro, produzir dinheiro (também não dá pra ser ingênuo de ignorar que a arte, sobretudo essa que se mescla com o entretenimento – e até mesmo coisas pouco divertidas como o urinol de Duchamp, apesar de não ter serventia “prática” por si próprio – numa sociedade capitalista também serve pra gerar valor, produzir dinheiro, movimentar um mercado que uns alemães por aí decidiram chamar de indústria cultural).

Também é essencial pensar no quanto a arte também é definidora de identidades locais, como é parte da cultura de um povo (atenção: arte e cultura são coisas MUITO distintas!). Quanto da identidade local do Rio de Janeiro não se deve, entre milhares de outras coisas, ao surgimento do samba e da bossa nova? Quanto da identidade da periferia de São Paulo não se molda pela existência do Hip Hop, um ritmo estrangeiro que se transforma e dá conta de estimular um denominador comum local muito mais potente do que muitas outras produções artísticas que, para aqueles indivíduos, muitas vezes não servem pra merda nenhuma de verdade?

Mas pensar que a arte SERVE SIM para alguma coisa, ainda que intangível, não resolve automaticamente o papel do artista na sociedade. É revelador pensar em como esse cara encara seu trabalho e a interferência dele no mundo: qual o grau de alienação e de consciência com relação a essas milhares de “finalidades inúteis” de seu trabalho? E pior ainda: se sua arte tem, afinal, alguma serventia, qual é seu papel, o de artista, nesse mundo? E se ele tem um papel, quem deve bancá-lo?

Conheço algumas dezenas de artistas que com certeza não sabem responder essas perguntas. Muitos porque nunca pararam pra pensar nisso; outros porque acham que “fazer arte” deve ser encarado com a mesma importância social (e numa mesma relação de valores) do que exercer a medicina, o magistério (e, por exemplo, com mais importância do que promover a remoção do lixo urbano); tem ainda os que estão mais preocupados com a auto-realização (e a arte nada mais é do que uma terapia meio escrota que em geral as outras pessoas são obrigadas a engolir); e tem ainda os deslumbrados, que acham tão “mágico” (ou se acham tão especiais por) exercerem o papel de artistas que se esquecem que seu trabalho deveria ser, em alguma medida, social – principalmente quando é bancado (como na maioria das vezes é) por uma estrutura pública. Lembrando que “trabalho social” nada tem a ver com caridade, benevolência, cuidem dos pobres e salvem as baleias: é qualquer trabalho feito pensando na sociedade com quem ele deverá obrigatoriamente dialogar de alguma forma.

A questão de “pra que serve a arte” deveria, nesse caso, nos projetar a outras questões: “pra que diabos servem os artistas, então?”, e uma mais urgente: “pra que serve o dinheiro público que é destinado à produção artística?” (lembrando mais uma vez que, no Brasil, quase toda produção artística financiada por recursos que não são do próprio artista têm grandes chances de serem, em alguma instância, financiadas pelo contribuinte público).

Essas perguntas não devem ser feitas de forma alguma com o intuito de abrir mão de termos artistas e obras de arte sendo produzidas e financiadas – muito pelo contrário. Só é essencial que a fruição dessa arte e sobretudo sua produção e financiamento aconteça de forma mais crítica.

Mas essa manga ainda tem muito pano pela frente.

PS: Melhor de tudo é que, terminando esse post (assim como Paulo Coelho ao cabo de sua viagem pela Sibéria ao lado de Glória Maria), saio com mais perguntas do que respostas na cabeça – e isso é bom. Fazia tempo que não me empolgava para escrever esses fluxos confusos de raciocínio aqui no blog, e isso deve acontecer com mais frequência daqui pra frente.

As Horas – Desassossego

Outubro 2nd, 2009

Há meses penso nesse texto de Fernando Pessoa sem ir atrás dele, desde que o ouvi em Turismo Infinito. Só poderia ser de Bernardo Soares, o ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.

15h49

Qualquer deslocamento das horas usuais traz sempre ao espírito uma novidade fria, um prazer levemente desconfortante. Quem tem o hábito de sair do escritório às seis horas, e por acaso saia às cinco, tem desde logo um feriado mental e uma coisa que parece pena de não saber o que fazer de si.

Ontem, por ter de que tratar longe, saí do escritório às quatro horas, e às cinco tinha terminado a minha tarefa afastada. Não costumo estar nas ruas àquela hora, e por isso estava numa cidade diferente. O tom lento da luz nas frontarias usuais era de uma doçura improfícua, e os transeuntes de sempre passavam por mim na cidade ao lado, marinheiros desembarcados da esquadra de ontem à noite.

Eram ainda horas de estar aberto o escritório. Recolhi a ele com um pasmo natural dos empregados de quem me havia já despedido. Então de volta? Sim, de volta. Estava ali livre de sentir, sozinho com os que me acompanhavam sem que espiritualmente ali estivessem para mim… Era em certo modo o lar, isto é, o lugar onde se não sente.

Mais calçada

Setembro 29th, 2009

Dumont Adams

Uma citação divertida, do mesmo livro da Jane Jacobs.

Por que as crianças acham, com tanta frequência, que perambular por calçadas cheias de vida é mais interessante do que ficar nos quintais e parquinhos? Porque as calçadas são mais interessantes. É uma pergunta tão sensata quanto: por que os adultos acham as ruas cheias de vida mais interessantes que os parquinhos?

Moleskine (outro post inútil e íntimo)

Setembro 28th, 2009

Não é hábito anotar sonhos como não é hábito lembrar dos sonhos, muito menos é hábito expor sonhos aqui, mas tem dias em que o sonho é tão real, tão assustadoramente próximo, que é como se o subconsciente estivesse criando metáforas pra te jogar na cara o que está acontecendo. Tão assustadoras que deu vontade de botar aqui, tipo diarinho mesmo.

moleskine

Foda demais se preparar para partir, estabelecer o fim de algo em que você já acreditou – e muito. E que no fundo ainda acredita, ou quer, ou gostaria de acreditar. Mas há uma hora certa para pular do avião – enquanto ele ainda está na superfície e o assento flutuante ainda te serve de algo.

Inspira
Expira
Corre até a saída de emergência
Inspira
Expira
Gira o que tem que girar, aperta o que tem que apertar, empurra o que tem que empurrar
Pula no tobogã inflável e cai pra fora
(Sempre imaginei como seria fazer isso ao ver os desenhos dos cartões de segurança)

Balé de Calçada

Setembro 24th, 2009

Stripes

Side+Walk

Ou das coisas que me emocionam de verdade. Retomei semana passada a leitura de Morte e Vida de Grandes Cidades (Americanas), livro incrível da ativista Jane Jacobs, em que ela critica os modernos modelos de planejamento urbanístico que, na tentativa de construir as cidades dos sonhos, acabam privando os grandes centros urbanos de terem vida. (O “Americanas” no título é por minha conta, porque a Martins Fontes, ao traduzir, “esqueceu” de mencionar um detalhe básico como o recorte que a autora faz em sua dissertação. Básico, não?)

Pra quem gosta de urbanismo, é um prato cheio. Pra quem mora em São Paulo, é um brilhante manual para tentar entender a cidade. Pra quem gosta de cidades, é uma ótima forma de se refletir sobre o que é morar nelas. Comprei o livro pensando na tese de mestrado cujos rumos já estão mudando, e agora a leitura assumiu o melhor caráter possível: puro deleite pessoal.

Entre uma vontade absurda de conhecer a Nova York dos anos 60 que a autora descreve e uma depressão imensa de não identificar boa parte dos elementos de vitalidade (a maioria condizente com o que eu já pensava/acreditava e com o que eu já pretendia usar em minha tese) em São Paulo, deparo, logo no início da leitura, com um trecho que me deixou emocionado pela trivialidade e, contraditoriamente, com a complexidade daquilo que Jane descreve como sendo a sua rua:

Sob a aparente desordem da cidade tradicional, existe, nos lugares em que ela funciona a contento, uma ordem surpreendente que garante a manutenção da segurança e a liberdade. E uma ordem complexa. Sua essência é a complexidade do uso das calçadas, que traz consigo uma sucessão permanente de olhos. Essa ordem compõe se de movimento e mudança, e, embora se trate de vida, não de arte, podemos chamá la, na fantasia, de forma artística da cidade e compará la à dança não a uma dança mecânica, com os figurantes erguendo a perna ao mesmo tempo, rodopiando em sincronia, curvando se juntos, mas a um balé complexo, em que cada indivíduo e os grupos têm todos papéis distintos, que por milagre se reforçam mutuamente e compõem um todo ordenado. O balé da boa calçada urbana nunca se repete em outro lugar, e em qualquer lugar está sempre repleto de novas improvisações.

O trecho da Rua Hudson onde moro é todo dia cenário de um complexo balé de calçada. Eu mesma entro em cena pouco depois das oito, quando coloco do lado de fora a lata de lixo, sem dúvida uma tarefa prosaica, mas gosto do meu papel, do barulhinho metálico que produzo, na hora em que passam as levas de colegiais pelo meio do palco, deixando cair papel de bala. (Como eles conseguem comer tanta bala logo de manhãzinha?)

Enquanto varro os papéis de bala, observo os outros rituais matinais: o Sr. Halpert soltando o carrinho de mão da lavanderia de seu lugar, à porta do depósito, o genro de Joe Cornacchia empilhando caixotes vazios fora da confeitaria, o barbeiro colocando na calçada sua cadeira dobrável, o Sr. Goldstein arrumando os rolos de arame, o que indica que a loja de ferragens está aberta, a mulher do síndico do prédio largando seu parrudinho de três anos com um bandolim de brinquedo à porta de casa, posto privilegiado no qual ele aprende o inglês que sua mãe não consegue falar. Depois as crianças do primário, em direção à Escola São Lucas, desfilam para o sul; os alunos da Santa Verônica cruzam no sentido oeste, e os da Escola Primária 41 dirigem se para leste. Duas novas entradas em cena são preparadas nos bastidores: bem vestidos e até elegantes, mulheres e homens com pastas emergem de portas e ruas vizinhas. A maioria vai tomar ônibus ou metrô, alguns se detêm no meio fio e param táxis que por milagre apareceram no momento exato, mesmo porque os táxis fazem parte de um ritual matinal mais amplo: depois de levar passageiros vindos da zona central de Manhattan para o distrito financeiro da zona sul, eles levam os moradores da zona sul para a zona central. Ao mesmo tempo surgem várias mulheres com vestidos caseiros e, quando cruzam umas com as outras, param para uma conversa rápida cheia de risadas ou de indignação solidária, parece que nunca um meio termo. Está na hora de eu também me apressar para o trabalho, e troco um cumprimento ritual com o Sr. Lofaro, o quitandeiro, baixo, atarracado, sempre de avental branco, que se posta do lado de fora da porta, um pouco acima na rua, braços cruzados, pés fincados no chão, dando a impressão de ser tão sólido quanto o solo. Acenamos; nós dois olhamos rápido para baixo e para cima da rua, daí nos entreolhamos de novo e sorrimos. Temos feito isso inúmeras manhãs durante mais de dez anos, e sabemos o que significa: está tudo em ordem.

Raramente vejo o balé do sol a pino, pois faz parte dele o fato de a maioria dos trabalhadores que moram lá, como eu, estarem fora, desempenhando o papel de estranhos em outras calçadas. Mas eu o conheço bem nos dias de descanso, o suficiente para saber que ele se torna cada vez mais complexo. Os estivadores que estão de folga reúnem se no White Horse, no Ideal ou no International para beber e conversar. Os executivos e os comerciários das indústrias próximas, logo a oeste, amontoam se no restaurante Dorgene e na cafeteria Lion’s Head; trabalhadores de frigoríficos e especialistas em comunicações lotam a lanchonete da padaria. Surgem os dançarmos excêntricos, uma senhora esquisita com cadarços de sapato velhos sobre os ombros, homens de barba comprida em cima de lambretas com as namoradas sacolejando na garupa, cabelos longos tanto sobre o rosto quanto atrás da cabeça, bêbados que seguem a recomendação do Conselho do Chapéu e sempre se apresentam de chapéu, mas não com chapéus que o Conselho aprovaria. O Sr. Lacey, o chaveiro, fecha sua loja por um tempinho para ir bater papo com o Sr. Slube, da charutaria. O Sr. Koochagian, o alfaiate, rega a exuberante floresta de plantas que tem na janela, lança um olhar crítico para elas pelo lado de fora, concorda com o elogio que dois transeuntes lhes fazem, passa os dedos pelas folhas do plátano diante de nossa casa com a apreciação de um jardineiro pensativo e atravessa a rua para uma refeição rápida no Ideal, de onde pode espiar a chegada de fregueses e sinalizar que já está indo. Os carrinhos de bebê saem à rua, e grupos de todo tipo, de criancinhas com bonecas a adolescentes com lição de casa, reúnemse na porta de casa.

Quando volto para casa depois do trabalho, o balé está chegando ao auge. Chegou a hora dos patins e das pernas de pau e dos triciclos, das brincadeiras ao pé da escada com tampinhas de garrafa e caubóis de plástico; é hora dos pacotes e dos embrulhos, do ziguezaguear da farmácia para a banca de frutas e para o açougue; é a hora em que moças e rapazes, todos arrumados, param para perguntar se a anágua está aparecendo ou se o colarinho está direito; é a hora em que as garotas bonitas descem de carros MG; é a hora em que os carros de bombeiros passam; é a hora em que vai passar todo o mundo que a gente conhece da vizinhança da Rua Hudson.

Quando o dia vira noite e o Sr. Halpert encosta de novo o carrinho da lavanderia à porta do depósito, o balé continua sob as luzes, rodopiando para cá e para lá, mais forte nas poças brilhantes das luzes da barraca de pizzas do Joe, dos bares, da confeitaria, do restaurante e da farmácia. Os trabalhadores noturnos param na confeitaria para levar salame e uma garrafa de leite. Com a noite, tudo sossega, mas a rua e seu balé não param.

Conheci melhor o balé da noite alta andando bem depois da meia noite para acalmar um bebê e, sentada no escuro, observando os vultos e ouvindo os sons da calçada. E um som semelhante a fragmentos de conversa de festa infinitamente repetidos e, perto das três da manhã, cantoria, cantoria da boa. As vezes há rispidez e raiva ou um choro triste, muito triste, ou então agitação para encontrar as contas de um colar que se rompeu. Certa noite apareceu um jovem que urrava, berrava, numa linguagem terrível, com duas moças que ele aparentemente tinha encontrado e o estavam desapontando. Portas se abriram, formou se um círculo desconfiado ao redor dele, até que a polícia chegou. Também despontaram rostos, por toda a Rua Hudson, dando opiniões: “Bêbado… Louco… Um arruaceiro de subúrbios.

Não sei exatamente quantas pessoas estão na rua tarde da noite, a não ser que alguma coisa provoque uma aglomeração, como uma gaita de foles. Não faço a mínima idéia de quem era o gaiteiro e por que ele escolheu nossa rua. A gaita de foles começou a soar numa noite de fevereiro, e, como se fosse um chamado, a movimentação escassa e ocasional da calçada ganhou rumo. Rápida, silenciosa, quase magicamente, uma pequena multidão se reuniu, formando um círculo em torno da impetuosa dança escocesa. Era possível ver a multidão nas sombras da calçada, os dançarinos, mas o próprio gaiteiro era quase imperceptível, pois seu brilhantismo estava todo na música. Era um homem baixo, dentro de um casacão marrom. Quando ele terminou e foi embora, os dançarmos e espectadores aplaudiram, e os aplausos vieram também das galerias, uma meia dúzia das cem janelas da Rua Hudson. Então as janelas se fecharam, e a pequena multidão se misturou à movimentação ocasional da rua à noite.

Os desconhecidos da Rua Hudson, aliados cujos olhos ajudam nós mesmos, os moradores, a manter a paz na rua, são tantos que sempre parecem ser pessoas diferentes de um dia para o outro. Não importa. Não sei se são realmente tantas pessoas diferentes como aparentam ser. Parece que sim. Quando Jimmy Rogan atravessou uma janela envidraçada (ele tentava apartar dois amigos que brigavam) e quase perdeu o braço, surgiu um estranho do bar Ideal com uma camiseta velha, que providenciou rapidamente um habilidoso torniquete e, segundo o pessoal da emergência do hospital, salvou a vida de Jimmy. Ninguém se lembrava de ter visto o sujeito antes e ninguém o viu depois. O hospital foi avisado da seguinte maneira: uma mulher sentada numa escada perto do local do acidente correu até o ponto do ônibus; sem dizer uma palavra, pegou uma das moedas que estavam na mão de um desconhecido que esperava a condução com o dinheiro trocado para a passagem e correu até a cabine telefônica do Ideal. O desconhecido correu atrás dela para oferecer a outra moeda. Ninguém se lembra de tê lo visto antes e ninguém o viu de novo. Na Rua Hudson, depois de se ver o mesmo desconhecido três ou quatro vezes, já se começa a cumprimentá lo. Chega quase a ser um conhecido, um conhecido da rua, é claro.

Fiz o balé diário da Rua Hudson parecer mais frenético do que é porque, ao escrever sobre ele, as cenas ficam mais compactadas. Na vida real não é assim. Na vida real, com certeza, há sempre alguma coisa acontecendo, o balé não tem intervalo, mas a sensação geral é serena, e a cadência geral, bem mais pausada. Quem conhece bem essas ruas movimentadas vai entender como é. Receio que quem não conhece venha a ter uma idéia errada como as velhas gravuras de rinocerontes feitas segundo o relato dos viajantes.

Na Rua Hudson, e igualmente no North End de Boston ou em qualquer outra vizinhança animada das cidades grandes, não somos mais intrinsecamente capazes de manter a segurança nas calçadas do que as pessoas que tentam sobreviver à trégua hostil do Território numa cidade cega. Somos os felizardos detentores de uma ordem urbana que torna a manutenção da paz relativamente simples, por haver olhos de sobra na rua. Não existe porém simplicidade alguma na ordem em si ou no atordoante número de elementos que a compõem. A maior parte desses componentes são, de certa maneira, específicos. Eles provocam um efeito conjugado sobre a calçada, contudo, que não é de modo algum específico. Aí reside sua força.

Quando ela fala que não é arte, é vida, ela pensa com olhos de pesquisadora. Mas ler tudo isso me remete à obra sublime de outro cara que, para dizer tudo isso, em vez de escrever livros de urbanismo para retratar e criticar a grandeza da vida nas cidades, desenhava tudo isso apaixonadamente.

wil_eisner

Mafalda

Agosto 31st, 2009

Você percebe que o mundo ainda pode ser um lugar que valha a pena quando ainda tem gente que se presta a cometer delicadezas como a estátua da foto.

mafalda

Notícia completa aqui. Mafalda rules, espaço público rules, San Telmo rules.

Imagens das Férias

Agosto 20th, 2009

Bike

Gabi

Londres

Mais Londres aqui.

Reichstag

Mitte, Berlim

Berliner Mauer, East Side Gallery

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Tour de France

Paris

Creep

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